Tremores

Que engraçado assistir com tanto prazer um vídeo da Saida. Essa bailarina que esteve no coração de muitos debates sobre a dança do ventre, da técnica à estética. Por várias vezes, Saida foi lida como a expressão de uma dança do ventre “dramatizada demais”, ou seja, cuja performance exagerava, por princípio, a expressão da dança. Tive vários debates sobre suas escolhas dramáticas e achava cafona alguns movimentos. De todo jeito, eu assistia os vídeos da Saida, de aulas e de shows, maravilhada com a incrível beleza de sua dança.

No vídeo acima, Saida, extraordinária, dança um solo de derbake, provavelmente em 2009, quando o vídeo foi postado, e se expressa com um shimmy que me emociona. Ver seu shimmy, igual ao da Zamzam, bem tensionado, preso, me tocou. Era o tremido que aprendi que era lindo.

Tô falando disso por quê? É porque sempre tem uma mané que te diz que o bão mesmo é outra coisa. Ouvi algumas vezes que o sensacional tremido que eu aprendi com minha professora não era o shimmy bom, ideal. Uma bailarina importante, diáfana e unânime, num workshop me garantiu que a leitura certa para aquele pedacinho da sequência que ela ensinava pra todo lado exigia um shimmie solto, com os joelhos moles, quadris soltinhos, tal. De repente não se usava mais esse esquema Suheir Zaki, vibração bem contida das carnes, aquela coisa de sentir subir do solo o tremido, que vibra do chão até chegar ao quadril, que incorpora o tremor ao movimento como se este sempre tivesse estado alo. Esteve em alta, então, um shimmie solto, molinho, joelhos mexedouros, quadril grandão etc. Uma tendência, possibilidade de interpretação… Mas o fato é que essa bailarina foi bem direta (meio grossa) e tola em comunicar uma tendência: esse seu shimmie não é suficiente. Acho que essa “orientação” me frustrou, ajudou a ter preguiça de dançar, mesmo eu sendo professora, diretora de grupo, diretora da escola. Dá preguiça ficar defendendo a criatividade na dança. Não tem só um jeito de dançar dança do ventre (só que há uns 10 anos atrás isso não era óbvio).

Porque você pode escolher usar só shimmy preso, aquele feito com as coxa presa, duras, de ódio da nação, ou aquele shimmy solto, molinho, malemolente, despreocupado… Olha só. Eu vim bem aqui disposta a falar só de dança, de técnica, de Saida, de shimmie…

A mensagem da pessoa, que divaga deveras, é, afinal, qual? Aí vai:

Você, jovem bailarina, use o tremido que quiser quando quiser e não deixe te falarem que um tipo de vibração é mais adequado que outro. Trema à vontade, preso ou solto, do jeito que quiser. Quem fala que certinho é de tal jeito é besta e não merece lembrança (mentira: pode lembrar pra achar horrível, aprender e não reproduzir).

Beijo.

Fazer aula pela internet

Assim, quietinha, voltei a fazer aula de dança. A professora ofereceu um curso na medida, com um determinado número de aulas, conteúdo, tudo planificado, certinho, e entendi que era ali ou never. A professora, menina pesquisadora, séria, dedicada ao ensino comme il faut etc. Eu tive a graça de ter ido a uma aula aberta dela, ou seja, eu tinha visto a professora, além de acompanha-la pela rede social. Aliás, saber a posição política e social (sociopolítica, porque as coisas não são diferentes) é basicamente o mínimo em tempos de fascismo descarado. Aliás, sou deveras progressista, esquerdista, petista, e se isso te chateia não sinto muito, inté, adieu, tchau.

Então, gata comunista. Pela primeira vez comprei um curso pela internet. É surreal pensar assim, em um curso, pordecause eu sempre pensei em ensino continuado pra dança: a gente pagava por mês para fazer aula de dança, encontrar sempre disponível a professora, as colegas, o espaço de encontro. Em contexto apocalíptico precisamos ajustar expectativas. A melhor coisa pra gente vintage como eu é a oferta do curso fechado, que ornou com a trágica situação de pandemia: você paga uns reais por algumas aulas. No meu caso, 8 aulas que deveriam ser bem aproveitadas para eu entender a introdução ao tribal fusion.

Na real, o zoom é um aplicativo bosta. Incapaz de transmitir som. E as pessoas modernas acreditam que os outros poderão reproduzir em casa a playlist da rede víbora de som, spotify. Minha professora não é besta: consciente da lama, indicou as músicas mas não exigiu a reprodução da playlist. Mas penso nos cursos que pressupõem o acesso universal a essas horríveis plataformas de música, vídeo, áudio etc.

Não ouvi bem as músicas que a professora cuidadosamente selecionou; não acompanhei certinho as sequências, porque meu sinal falhou algumas vezes. Não gostei muito de fazer aula online. Mas eu amei ver que há alternativa; tem um jeito, sim, de conectar as pessoas. Eu não vi nenhuma aula assíncrona. O pior foi que a professora ensinou um movimento de tórax típico do tribal, um movimento que não conheço. Vou assistir às aulas para entender, mas não vou ver a gravação. Ó procê ver que sensível é essa coisa de dançar pelas telas. Mas uma das melhores escolhas nesses tempos tenebrosos foi fazer aula de novo.

Um viva às professoras de dança!

Bolhas

Mais de ano de pandemia, com todo o peso que esse tenebroso acontecimento nos acomete e toda a correnteza que nos impulsiona (para baixo, para adiante, para as margens, à escolha da freguesa). Nesse flagelo, sem grandes incursões sociológicas, podemos afirmar que os artistas estão entre os profissionais mais atingidos. Porque desde sempre pouco valorizados, mal remunerados, aos trancos e barrancos, soprando poesia para pagar a fantasia etc.

Já que esse blog aqui tem foco e não quero chorar pensando na situação dos músicos, dos ambulantes, dos desempregados em geral, bora pro que interessa, que é reclamar das coisas e dizer coisas aleatórias refletir sobre a dança do ventre e sua prática. Como tem se desenrolado a cena da dança do ventre nesse apocalipse? Nessa toada, desde março de 2020, vimos uma profusão de shows solidários em lives, uma espera esperançosa pela “normalidade”, depois a caída na real, estúdios e casas de shows fechando, as aulas online, a profusão de “conteúdo” para debates em redes sociais, uma produtividade às vezes desesperada – muitas vezes desesperadora – e muitas dicas de que está tudo bem estar mal, faz aqui uma aula online pra ver se a coisa melhora.

Aqui, te explicar: nada contra aula online. Acho triste, só, já que perde-se ali o que compreendo como uma das principais motivações para a prática. Quando dava aulas e também ao longo de minha pesquisa pude perceber que a maioria das alunas de dança do ventre é constituída por mulheres adultas, com carreiras profissionais estabelecidas, que foram buscar a dança para aprender não apenas a se relacionar novamente com os próprios corpos, mas também para relacionarem-se com outras mulheres. A sala de aula espelhada é um espaço de trocas, acho que disse isso em algum lugar da minha tese, não me lembro, mas acho. Eu mesma quando mudei-me para Minas pensei em entrar em uma aula de dança do ventre para conhecer gente. Não entrei por motivos de desempregada, depois empregada ocupada, depois pandemia.

Quando comecei a fazer aulas, lá por 1998, eu queria era aprender a ser linda, poderosa, charmosa, dançar mesmo e estava nem aí pras coleguinhas. Isso é coisa de jovem-jovem. Jovens adultos, esses seres com idades entre 30 e 55, vão pras práticas coletivas caçar uma turma. Isso mesmo, habibiti, é que a vida adulta aniquila tudo. Imagina se você ainda por cima acabou de começar a criar filhos e tal, e vive entre a rotina doméstica e o mundo do trabalho. Uma bolha insuportável.

Daí você procura uma outra bolha, onde você poderá encontrar pessoas que vivem bolhas parecidas com a sua, só que agora compartilhando experiências de uma bolha muito mais brilhante, com contornos de strass e lantejoulas (acho que não se usa mais. Será?). A vivência de rir junto com as colegas das dificuldades em executar um movimento, as fofocas paralelas, as feirinhas, chás e outras confraternizações, todo o fuzuê de camarins das apresentações. Isso não existe nesse novíssimo mundo in silica.

Esse tipo de troca, baseada no encontro para aulas, nos eventos, na cumplicidade de olhares e sorrisos não é reprodutível nas telas. Essa ausência, esse lapso de sociabilidade, é só mais uma pequena falta, uma partícula no mar de perdas múltiplas resultantes da pandemia.

(Pausa pra política, habibiti: pandemia, bora lembrar, possivelmente resultante da agressão à biodiversidade e agravada pelo absoluto descompromisso com os direitos humanos)

Queixa registrada com quase sucesso, o que fazer? Além de usar máscara e exigir vacina e responsabilização de dirigente genocida, ficar em casa o máximo possível e fazer aula virtual, né? Pelo menos você aprende a dançar, conhece uma música diferente, não fica com as cadeira dura, apoia as profes e previne varizes.

Hello, hello, hello, how low

Eu sabia a senha (pra voltar aqui)

Se isso não é um sinal, não sei qual seria.

Sou uma dinossaura, de fato: tenho um telefone fixo, teclo no celular com as duas mãos e sinto falta de blogs, esses sites em que as opiniões, os pensamentos, as propostas são registradas e perduram um pouco mais que quando se expressa em redes sociais. Esse blog nasceu de uma rede social: a lista de discussão, via email, organizada pela Paula Cunha. A gente trocava informações, arquivos, impressões. Brigava também. Teve uma moça que disse que eu tinha que morrer e ser devorada por cães. Tempos depois descobri que ela era fã da Bridget Jones. Projetou ali, na treta virtual, um fim ideal encontrado na literatura sobre mulheres que não sabem o que fazer com elas mesmas.

Daí veio o orkut, e ali já estávamos mais organizadas para questionar o mercado da dança do ventre. Tinha a comunidade do Yallah, este blog, onde as pessoas se sentiam acolhidas e à vontade para questionar o modo como se construía o prestígio na dança feita no Brasil. Rolou treta, claro. Fui chamada de bêbada por alguém, risos. Até que não quis mais administrar nada e daí as pessoas ficaram chateadas quando fechei o forum. Porque o forum era meu, viu?

Veio vida meio adulta, doutorado em curso, canseira mesmo, aluguel, comprei uma escola de dança, foi um trampo. De repente, todo o amor tinha um destino: a dança do ventre precisava ser informada como um fenômeno observável, descritível. Eu tinha que entender a coisa toda, sem jamais ter ido no Egito, e defender, dentre meus pares, que aquele fenômeno dizia algo de valor para a compreensão do fenômeno cultural em geral, sei lá. Foi um troço esquisito, e que toquei por cinco anos. Dava mais trabalho fazer pesquisa bibliográfica, viu? Não tinha sci-hub. Nem te conto.

Tem essa esquisitice da qual ninguém fala: depois que você defende, você não curte mexer no texto. Nem no volume impresso. O resultado foi que eu não quis sequer tocar no arquivo, in silica ou impresso. Adiós, doutorado! Depositei sem revisão, aliviada: adeus, adeus. Mas também não queria nem dançar. Nem ver dança, nem música árabe. Tudo saturou.

Hoje tenho arrependimentos, claro, porque as pessoas leem os trem que a gente escreve. Devem julgar: nossa, que desleixada essa Roberta Salgueiro. Sou, desculpe. Muito preguiçosa e desleixada. Eu deveria ter arrumado no mínimo uma revisora, né, pra deixar o arquivo arrumadinho. Mas a real é que pesquisar no Brasil é horrivis. Como assim eu estava estudando uma expressão gringa do corpo e a representação dessa expressão considerando sua presença além das fronteiras de sua “fonte”? Se a academia não valoriza seu objeto de pesquisa é porque a comunidade não demonstra a importância do tema, deduz-se. Fica parecendo um estudo burguês, desconectado da realidade, sem materialidade. Foi um bom tempo de sofrimento e uma passagem pelo campo da literatura comparada para eu me reconciliar com o tema e com o propósito da antropologia, por sinal, apesar dos meus pares.

É importante, sim, investigar a expressão sensível da humanidade, a arte, a produção criativa e o fundamento das paixões que alimentam sua expressão, produção e reprodução. Entender seu lugar no mundo e buscar saber as implicações dos discursos construídos a partir da articulação – ou colisão – entre culturas. Principalmente, ver de que jeito que algumas manifestações culturais são disseminadas como melhores ou piores em relações a outras.

Hoje, desperta do longo e doloroso torpor, sinto que há um tênue brilho de lantejoula iluminada: coletivos de gente esperta, inteligente e fundamentada tem percorrido o caminho da pesquisa sobre a dança do ventre e outras danças dessa matriz. É mais que um alento, é uma alegria para todas que se identificam com essa expressão artística! Um exemplo fino é o trabalho do Hunna Coletivo. Espia lá!

De minha parte, desmumifiquei. Quero retomar este espaço para compartilhar os avanços na reflexão sobre a dança que nos une. Viva as raqsat do caderninho!

Tá viva?

 

Ressuscitei.

Parece que só pra contar má notícia, mas juro que não foi o objetivo.

Saí do Facebook por um tempo, por um motivo pouquíssimo nobre relacionado à nossa infeliz situação política, daí incrivelmente voltei a ouvir música árabe com prazer. Assim, de uma hora pra outra, um ano depois do extreme makeover. Achei apropriado.

E aí vou procurar uma letra de uma música num forum tão conhecido e descubro que aquela fonte de informação, de trocas e descobertas havia desistido de viver. Basicamente, a dona do site se cansou de ter aquele espaço querido preterido por um forum mais selvagem como os grupos do facebook.

Daí tem essa polêmica da “apropriação cultural” com a performance da Beyoncé . Minha tão humilde opinião: que merda horrorosa do caralho. Desculpem. Sobre o tema, sugiro os seguintes artigos:

  1. Beyoncé Appropriates Oum Kalthoum on Tour:”Beyoncé se apropria da música Árabe para uso comercial, exotizando Enta Omri com sua coreografia. Por um século, o mundo Árabe luta para livrar a região das representações exóticas do ocidente na arte, na televisão e no cinema.”
  2. Om Kalthoum: appropriation so sexy? Amo o modo como o autor conta a história da Suheir Zaki quebrando o tabu e resolvendo dançar Enta Omri, e a reação da Diva ao evento.

 

 

 

 

Fechando uma escola

centro do último programa
último programa Mostra AYUNY 2015

Queridos amigos,
Há 15 anos duas mulheres, Lúcia Zamboni e Marina Christofidis, abriram um negócio inédito em Brasília. Nascia o AYUNY, a primeira escola especializada em dança do ventre da cidade e uma das primeiras do Brasil. Há 8 anos eu, Roberta Salgueiro, dirijo o AYUNY.

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…to be continued

E não foi que o tema da nova Shimmie é justamente sobre eventos? Coincidência bem bacana. Daí dei uma esticada no assunto do último post por lá. Conta pra mim sua opinião? Obviamente seguiremos tratando disso quando for conveniente pra mim e interessante pra vocês (nessa ordem, sorry…) neste blog. Mas, ó, gostaria muito de ter opiniões aqui. Esse negócio de rede social rouba comentários dos blogs e sou muy antiga e fico sofrida. Então, se puderem, deixem um “alô” por essas bandas aqui… ^_~

Como preparar um evento de dança

Grupo AYUNY Por desgosto ou por preguiça deixei de escrever aqui. Espero voltar. Afinal, essa casa vazia é minha, com todas as suas janelas e esse espaço gigantesco onde posso pular, gritar, dar cambalhotas e até mesmo, veja bem, criticar. Porque, olha. Não sou dessas de só espalhar purpurina. Gosto de colocar o dedo na ferida porque foi o que aprendi a fazer por toda a minha longa e tenebrosa formação como cientista social. Claro, a gente desconstrói, mas também procura apontar caminhos para uma reconstrução melhor estruturada. O famoso morde-assopra, mas bem-intencionado. Fato: brasileiro tem baixa tolerância a crítica. A bailarina do ventre brasileira, por sua vez, é um caso à parte. É muita dor ouvir uma criticazinha bem besta, do tipo: “sua música poderia ter sido melhor editada, amiga. Manda pra mim, posso te ajudar”. Questionar escolha musical ou, ainda pior, acenar algum deslize em leitura ou semântica (tipo dançar um saidi num dabke) é suicídio social. Assim vou sobrevivendo nessa selva de strass. Como já estou nessa lambada há tempo o suficiente para me chatear cada vez menos com detratores, vou soltar mais umas rosnadinhas, com o único objetivo de apontar o problema e ajudar a pensar numa solução. E meu tema de hoje é: O EVENTO. Quem nunca quis morrer na plateia de um “espetáculo*”? Evidentemente que, para quem sobe ao palco, os problemas são, no mais das vezes, circunscritos à própria performance. A sensação do público é absolutamente diferente da de quem vivencia o arrepio da ribalta. Atrasos, apertos, erros e outras expressões de amadorismo reduzem a experiência artística do espectador. Sim, gente, amadorismo. Vamos perder o medo de dar às coisas os nomes que elas merecem. Quando uma “produtora**” consegue atrasar um show em meia hora e esse show leva três horas para se concluir ela está se mostrando absolutamente desinformada quanto à tolerância do público, por exemplo. E desinformação é amadorismo. Já tive meus momentos ruins (péssimos). Hoje, porém, me orgulho de produzir eventos muito bem-feitos e organizados. Ofereço, portanto, algumas dicas para quem está começando, para quem não tem medo de reconhecer erros ou simplesmente para quem quer oferecer um melhor serviço para seu público.

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Snujs, esses lindos!

Instrumento musical ou acessório? Snujs sempre inspiram medo e reverência. Meu primeiro contato foi com um daqueles recortadinhos, rasinhos, como uma flor. Som de latinha, mas ok para os estudos iniciais. Busquei mais informações, tentei ao máximo dominar aqueles quatro pratinhos selvagens, mas fiquei no baladi e no takatá.

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snujs humildes, mas limpinhos.

Juntar tudo isso com movimento foi complicado. Cheguei a fazer um duo com uma colega em 2010, mas comecei a estudar meeesmo foi quando Padma, a professora do avançado da minha escola, foi dançar fora e precisei assumir sua turma. Ela estava ensinando snujs e, de repente, eu lá estava coreografando Alf Leila we Leila (a clássica mais fácil que encontrei). Aprendi junto com as alunas. Foi sofrido.

Sabe por que?

Porque não entendemos nada de música árabe. Achamos que galope e baladi bastam pra fazer um show bonitinho e nos satisfazemos com isso. Subestimamos a música e nosso público (aliás, tema pra outro post: gostamos de achar que o público é mais leigo do que de fato o é). O negócio é que tentamos tratar a música árabe do mesmo modo preguiçoso como muitas vezes tratamos nossa dança; baseado no 1,2,3,4, na repetição de padrões e combos.

Só entendi isso direito anteontem, com a aula que fiz com a extraordinária Márcia Dib. Márcia esteve em Brasília para um evento lindo, a Primeira Semana Árabe Fearab Brasil. Ela deu uma palestra esclarecedora e cheia de poesia sobre seu estudo da música árabe. Trata-se de um trabalho de pesquisa aprofundada, cuidadosa e amorosa. Por sorte, duas professoras do Ayuny, Caroll Toledo e Iris, haviam se encontrado com ela no festival da Shimmie em SP e, interessadas em seus saberes, viram a possibilidade de uma aula particular na ocasião de sua vinda a Brasília. As professoras da escola nos organizamos e fechamos um grupo para a aula que mudou não somente nossa perspectiva sobre os snujs, mas ajudou a reestruturar nossos conhecimentos sobre a música árabe.

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Marcia Dib e eu. Empolgadíssima, claro!

Compreendemos que tudo o que sabíamos – e mesmo a mais sabida de snujs do grupo concorda – era um conhecimento de gavetinhas. Que a música árabe comportava nossa criatividade e desejo de criação. Aprendemos toques inusitados e desvelamos regrinhas bobas e paralisantes. Sabe aquele negócio todo de 1 dum, 2 dum, padrões, dedo esticado, dedo encolhido…? Balela que te afasta da experiência musical! Tocar snujs é mais do que seguir ritmos calculados; é viver e criar música. Aliás, que experiência maravilhosa foi ver a professora (é, Márcia, lascou, agora virou nossa professora!) tocar com Iris no derbake. Ali a gente viu todas as possibilidades de brincadeira e arte dos snujs da bailarina. Não do músico! Muito diferente.

Foram duas horas intensas que mudaram nossa relação com os snujs. Que não são acessórios. São instrumentos musicais que a bailarina, essa poderosa, toca. Se tiver oportunidade, estude com Márcia Dib e entenda que você também faz música!

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Reflexo de snujs em todas. Da esq: márcia, caroll, salgueiro, seabra, raquel, priscila e Iris. Bando de mulheres felizes!

Nossa amiga etiqueta

Tanta regra, tanta imposição! Essa é uma dança livre, sem regras ou fronteiras, pode-se fazer o que quiser, não? Não é bem assim. Essa é, sim, uma dança mundializada, transnacional; generosa, é praticada e ressignificada por qualquer pessoa que se proponha a dançá-la, mas não prescinde de cuidados. Cada uma de nós, praticantes, é responsável por sua imagem e há pequenos gestos que devem ser passados adiante para que a prática dessa dança conquiste o espaço e o respeito que merece. Além do estudo da história da dança, o apuro técnico e a entrega artística, devemos prestar atenção à nossa amiga etiqueta. Tem questões éticas no miolo, claro, mas essas foram tão banalizadas nesse meio – a maioria das que propagam códigos de ética são as mais anti-éticas – que prefiro pensar em atitudes elegantes, simplesmente. Proponho aqui cinco singelas dicas. Vamos a elas? Yallah:

1) Diga-me como se portas após o palco…

samiapesVocê dançou. Se dançou bem, está feliz; se dançou mal, está triste. Pode estar cansada, pode estar eufórica. Como todas no show, você está sujeita a mil sensações e pode ter feito das tripas coração para subir ao palco. Mas é aconselhável manter a postura de bailarina por todo o tempo em que estiver caracterizada como artista (i.e., alguém que apresentou um show para um público). Assim, se é convidada para o evento de alguém, esteja preparada para permanecer lá, de preferência com um sorriso no rosto, até os agradecimentos finais. Por diversas vezes vi bailarinas usarem o palco e saírem correndo para outro compromisso – mormente um evento familiar. Não ficar até o final é desrespeitoso. O que nos leva ao segundo tópico:

2) Suba ao palco somente se estiver preparada

cropped-ro4.jpgComo bem nos lembra minha querida amiga Paula Braz, você, querida artista, é uma prestadora de serviços. Como tal, deve dedicação ao público que paga para ver um bom show. Aluna que falta aula, ensaio, professora que apresenta leitura musical mal-feita por falta de estudo… Não teve tempo de estudar a música? Como assim? Tive uma conversa interessante com uma menina na escada de incêndio no Mercado Persa (a.k.a. fumódromo) deste ano. Ela estava ansiosa, era iniciante e iria se apresentar pela primeira vez em público. Cara, como uma professora coloca uma aluna iniciante sobre o palco de um evento como esse? Não seria mais apropriado promover pequenos eventos para amigos e família antes? Estrear para um público que espera excelência é ser jogada aos leões. Fuja, aluna! Run for your life! Mude, professora! Aprenda a cuidar de quem confia sua autoestima a você.

3) Figurino é para o palco! 

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Contenha sua vontade de exibir aquele figurino lindo para todos na rua. Pega mal demais. Use uma abaya, que é basicamente uma capa, para circular de figurino fora do palco e dos bastidores. Pode até improvisar um véu enrolado se não tiver algo mais apropriado. “Mas o corpo é meu, exibo como quiser!” Sério que sair vestida de bellydancer é sua proposta política? Logo em dia de show? Para não achar que é moralismo meu, dá só uma olhada na opinião de outra pessoa do meio, a Vera, aqui, ó. Se apruma, menina!

4. Quem é a professora, afinal?

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Essa é para as estudantes. Não corrija ou tente “ajudar” a coleguinha durante a aula sem ser solicitada. Aliás, se a colega pedir ajuda, ofereça o esclarecimento de que há uma professora em sala de aula justamente para ajudá-la. Além de ser um nicho perfeito para a proliferação de boatos e mal-entendidos, essa “ajuda” atrapalha a aula, desautoriza a professora e pode levar a enganos/erros/lesões. Afinal, a professora é a responsável pelo ensino e bem-estar de todas da turma.

5. Guarde sua arrogância para você.

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Porque aconselhar a abandoná-la não é minha praia. Quem nunca? Mas dá para segurar a onda, ainda mais se você é considerada uma referência em qualquer coisa. Se a dica anterior foi para as singelas estudantes, essa é para os medalhões da dança. Cuidado com o modo como se refere ao trabalho do outro. Lembro-me perfeitamente de minha primeira visita a um bem-conceituado centro de dança em SP, anos e anos atrás.  Eu e minha aluna fomos recebidas pelo proprietário que, enquanto nos regalava com poses para fotos, perguntou onde estudávamos. Contei que era professora e imediatamente ouvi: ” Ra ra ra, engraçado como em Brasília só tem professora!”. Fiquei muda. O que essa pessoa sabia a meu respeito? Nada. Mas se julgou no direito de duvidar/ironizar minhas afirmações. Para esse sujeito, professora provavelmente eram apenas as que ele conhecia. Podre. Passei por outras demonstrações gratuitas de arrogância, inclusive esse ano, no MP. Mas esse exemplo é o que melhor ilustra a) a desinformação quanto o nível de profissionalização em outros centros de dança fora de SP, b) o despreparo de profissionais nacionalmente conhecidos no trato com o público e c) a arrogância pura e simples de muitos desses profissionais.

Enfim, queridas bailarinas, essa é minha pequena contribuição para um mundo melhor.