Fechando uma escola

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último programa Mostra AYUNY 2015

Queridos amigos,
Há 15 anos duas mulheres, Lúcia Zamboni e Marina Christofidis, abriram um negócio inédito em Brasília. Nascia o AYUNY, a primeira escola especializada em dança do ventre da cidade e uma das primeiras do Brasil. Há 8 anos eu, Roberta Salgueiro, dirijo o AYUNY.

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Como preparar um evento de dança

Grupo AYUNY Por desgosto ou por preguiça deixei de escrever aqui. Espero voltar. Afinal, essa casa vazia é minha, com todas as suas janelas e esse espaço gigantesco onde posso pular, gritar, dar cambalhotas e até mesmo, veja bem, criticar. Porque, olha. Não sou dessas de só espalhar purpurina. Gosto de colocar o dedo na ferida porque foi o que aprendi a fazer por toda a minha longa e tenebrosa formação como cientista social. Claro, a gente desconstrói, mas também procura apontar caminhos para uma reconstrução melhor estruturada. O famoso morde-assopra, mas bem-intencionado. Fato: brasileiro tem baixa tolerância a crítica. A bailarina do ventre brasileira, por sua vez, é um caso à parte. É muita dor ouvir uma criticazinha bem besta, do tipo: “sua música poderia ter sido melhor editada, amiga. Manda pra mim, posso te ajudar”. Questionar escolha musical ou, ainda pior, acenar algum deslize em leitura ou semântica (tipo dançar um saidi num dabke) é suicídio social. Assim vou sobrevivendo nessa selva de strass. Como já estou nessa lambada há tempo o suficiente para me chatear cada vez menos com detratores, vou soltar mais umas rosnadinhas, com o único objetivo de apontar o problema e ajudar a pensar numa solução. E meu tema de hoje é: O EVENTO. Quem nunca quis morrer na plateia de um “espetáculo*”? Evidentemente que, para quem sobe ao palco, os problemas são, no mais das vezes, circunscritos à própria performance. A sensação do público é absolutamente diferente da de quem vivencia o arrepio da ribalta. Atrasos, apertos, erros e outras expressões de amadorismo reduzem a experiência artística do espectador. Sim, gente, amadorismo. Vamos perder o medo de dar às coisas os nomes que elas merecem. Quando uma “produtora**” consegue atrasar um show em meia hora e esse show leva três horas para se concluir ela está se mostrando absolutamente desinformada quanto à tolerância do público, por exemplo. E desinformação é amadorismo. Já tive meus momentos ruins (péssimos). Hoje, porém, me orgulho de produzir eventos muito bem-feitos e organizados. Ofereço, portanto, algumas dicas para quem está começando, para quem não tem medo de reconhecer erros ou simplesmente para quem quer oferecer um melhor serviço para seu público.

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Espetáculos: melhor com eles!

Finalmente um arremedo de férias! Minhas últimas aulas serão nessa quinta. Depois, relaxo ao menos uma semana com o celular desligado e volto ao trampo. Com mais tranquilidade e a esperança de novidades que sempre vem com a virada do ano. É, o tempo de quem produz dança destoa da temporalidade média: meu ano acaba quando acaba o espetáculo. O deste ano foi lindo, lindo, lindo, lindíssimo. Sério. Bom mesmo. Sou crítica, chata. E achei muito, muito bom, apesar de todo o descabelo que foi, desde setembro.

Parece loucura, mas produzir um evento me faz envelhecer e rejuvenescer ao mesmo tempo. É uma tensão alucinada, que só se vai nos momentos iniciais do espetáculo. Porque depois das cortinas abertas, baby, não há muito o que fazer além de contornar pequenas bobagens. Estresse sério mesmo rola é antes. Duvida? Então puxa o tapetinho porque lá vem história.

Todo mundo junto!

O espaço

Em primeiro lugar, para produzir um evento de grande porte – neste espetáculo contamos com um elenco de 78 pessoas – é necessário pensar o onde. Havia um teatro maravilhoso na cidade onde tradicionalmente produzíamos nossos espetáculos. Entramos nos trâmites tradicionais em junho, pensando em realizar o evento no primeiro sábado de dezembro e tivemos a reserva da pauta confirmada. Em fins de setembro cancelaram todas as pautas. Por que? Não se sabe. Sei apenas que não foi apenas conosco. De todo modo, o estrago estava feito. Em cima da hora, como conseguir pauta? Contratempos são, felizmente, também oportunidades para novos contatos e situações: conseguimos a pauta do Teatro da Escola Parque, o primeiro teatro de Brasília. Menor (370 lugares contra 500 do teatro anterior), mais antigo, mas com cadeiras maravilhosas, poltrononas, bem ao estilo que não existe mais, que prioriza conforto. A chateação foi que precisaríamos nos contentar com uma quinta-feira, dia morto para Brasília, cidade de funcionários públicos. Ça va.

Eu e a linda Liz!

A configuração do espetáculo

Cansada, fim de doutorado, estressada, precisei ainda lidar com saída de professoras e de uma colaboradora importantíssima para a realização do evento. Eu estava sozinha de verdade. Eu e o Alex, que tem por função cuidar da parte bruta: o financeiro. Sem funcionários e colaboradores. Assim, contava com as professoras para não tumultuarem o meio-de-campo. Muitas foram excelentes, mas há as meninas que não se dedicam tanto e que embromam loucamente para enviar as músicas e mesmo para entender a proposta do espetáculo. Passei perrengue, passei raiva, aprendi.

As alunas

Pela primeira vez, precisei dançar com as minhas alunas. Uma de minhas alunas adoeceu na penúltima semana antes do espetáculo. Minhas coreografias são feitas com desenhos que levam em conta cada uma das meninas, suas potencialidades e dificuldades. Ou seja, ou eu mudaria todo o desenho coreográfico ou assumiria o papel da moça. Lá fui eu. Isso gerou um estresse extra, afinal, fazer a coreo para o corpo do outro não é a mesma coisa de executá-la bem. Além do mais, nunca havia me apresentado com grupo antes. Fiquei insegura e com medo de prejudicar as meninas. Mas nem conto: me diverti horrores!!! Errei. Mas tava com a cara boa, nem acho que fez tanto feio assim. De todo modo, é aquela coisa: minha perspectiva mudou; consigo ver melhor agora a posição das alunas.

O computador

Meu computador caiu, quebrou e morreu. Siiim! Quatro dias antes do espetáculo. O computador com tudo, absolutamente toda a minha vida dentro. Aprendi mais uma coisa: quando o bicho tá pegando e acontece uma coisa como essa, a única opção é relaxar. Simplesmente deixar a coisa rolar.

Equipe porreta!

E a coisa rolou. Teve mais chaturinhas e preocupações assombrosas. Mas, amiga, o show foi tão bom, tão bom, que só consigo pensar na analogia do parto: não importa quanta dor e medo a coisa acarretou, se o resultado foi algo vivo e lindo.

Chá do AYUNY

Dancei. Subi as escadas achando que só tinha feito shimmy frente-trás e camelo. Procê ver como nossa auto-imagem é distorcida. Por fim, depois de ver o vídeo, vi que tinha dançado bonitinho. Me amarrei no show, fiquei feliz com a minha dança (depois de várias olhadas desconfiadas para o vídeo). No fim, a conclusão: improviso bem curtido. Ói como foi:

Como foi…

…a Mostra AYUNY de Dança do Ventre e Folclore Árabe 2010?

Tudo indicava que seria sofrível. Baixa venda de ingressos antes do evento, divulgação fraquíssima (no último ano do doutorado, perdi um pouco o foco e sequer publiquei o cartaz aqui, em meu próprio blog), poucas turmas da escola participando, professora que se machucou… No dia do evento foi o vamo-que-vamo de sempre: estamos na chuva pra molhar mesmo, então não vamos deixar a peteca cair. Mas a tensão ainda estava no ar: os camarins, colados ao palco, não podiam ser utilizados durante o evento, pois poderia atrapalhar a iluminação. Sendo um teatro menor (250 lugares), não tinha walkie-talkie. Gelei. Mas tudo correu bem, mais do que bem.

Lotou. As pessoas vieram! Fiquei tão feliz… Todas entenderam o lance dos camarins e acabaram se ajudando,  curtindo. Sem o walkie-talkie, todo mundo entendeu que a entrada tinha que ser feita na horinha no blackout, sem atrasos, e que tinha que sair do palco voado. E funcionou. Tudo na paz, cada profe cuidando de suas pupilas, as professoras em alunas em palco se ajudando e as convidadas super queridas e sem frescuras!

Acabou sendo um dos melhores shows do Ayuny. Sem estresse, com muita alegria e simplicidade. Quero que seja sempre assim, em clima de colaboração e a simplicidade de se festejar a dança.

Recebemos a Paula Braz, de São Paulo, para uma apresentação na Mostra e um work de tribal no domingo. Que pessoa doce, simpática, competente e querida! Fez uma apresentação poderosa e o work dela foi muito bom! A parte teórica foi bacana demais, ela explicou tin-tin por tin-tin o desenvolvimento do estilo e as nunces interpretativas. Estamos pensando em um projeto mais amplo. Torço para que role!

Outra convidada super especial foi a Nara Faria, artista daqui, do DF, que quebra tudo em sua dança sem rótulos. Não é tribal, não é dança do ventre, não é contemporânea. É uma dança híbida, bonita e poderosa.

Enfim, como disse a Iris, superou muito as expectativas para uma mostra.

Dancei “Basbousa”, uma música popular de que sempre gostei. Improvisada, livre e solta. Só não gostei do meu vestido. Definitivamente, não foi feito pra mim, me deixa atarracada. Aposentei o coitado na hora. Minhas alunas dançaram direitinho, apesar de eu ter sentido falta de energia e sorrisos da parte delas. A Liz deu um show com suas alunas com lindos vestidos dourados, cada uma enrolada em seu meleah. Gamila iluminou geral com sua galabia amarela. Foi tudo bonito mesmo. E simples, tranqüilo, redondinho. Talvez a energia do lugar, mas prefiro acreditar que tenha sido crédito da energia da gente mesmo, professoras, alunas e convidadas.

A Amanda, professora da escola e pessoa super-mega-ultra querida, também escreveu as impressões dela em seu blog: http://passoecontrapasso.blogspot.com/2010/05/mostra-de-danca-do-ayuny.html

Há vida pós-espetáculo

Cheeeeio de teias de aranhas esse blog aqui, hein? Empoeirado, coitado. Então vamos faxinar. Primeiro, contando o que andei fazendo nesses últimos dias.

Vamos lá. O que fiz todo esse tempo? Fiquei estressada, claro. E produzi mais um espetacular “petáculo”. Que canseira! Uma vez por ano, de agora em diante. Sim, Brasília é uma cidade tão alucinada que fazem esses cansativos eventos duas vezes ao ano. E dá um desconforto extra essa coisa de olhar data para não chocar com o espetáculo da colega e tal e coisa¹.

Impressão geral

Esse último espetáculo promete ter sido o melhor de todos os 11 promovidos pelo Ayuny desde sua fundação. Tenho a impressão que foi, e assim me contaram várias pessoas, entre professoras, alunas e convivas. O tema era a relação entre os universos divino e humano; cada professora inspirou-se em uma divindade do antigo Egito para compor seu próprio personagem e as coreografias das alunas. A minha, claro, foi Bastet. Depois conto com detalhe. O lance é que esse foi o espetáculo mais bem produzido que já fizemos: as coreografias tiveram iluminação especial e foram antecedidas de narrações poéticas cuidadosamente pesquisadas. Tive a ajuda da Laura, que dividiu a direção comigo e, estudante de cênicas e garota espertíssima, ajudou, entre outras coisas, a compor a iluminação (feita por Daniela Diniz, sua irmã), a narração e a cenografia da dança das professoras.

A dança das professoras

Pois é, as professoras dançaram todas juntas. Foi um processo criativo loooouco, mas proveitoso como poucas experiências de dança podem ser. Todas competentíssimas e poderosas, precisando comprimir técnica e energia criativa em 3 minutos de música. Foram oito professoras juntas, veja só. E a coreo foi construída em conjunto meeesmo. Isso é uma vitória. Claro que o clima fica tenso às vezes: já estão todas esgotadas de coreografar, ensinar e ensaiar suas próprias turmas; preocupadas com o próprio figurino e com o figurino das alunas. Ou seja, vitória ao cubo termos feito uma coreografia bonita, elaborada e bem executada.

As minhas alunas

Sou uma megera. Às vésperas do espetáculo (isto é, 1 mês antes), me transformo. Igual ao médico bonzinho do Pernalonga. Sou um poço de paciência ao longo do ano; repito e repito e repito tudo; detalho cada movimento, traduzo a música, mostro as camadas sonoras. Vai chegando perto do espetáculo cobro tudo. Não grito com ninguém, claro; mas mando melhorar a cara, cobro presença, corto perguntas impertinentes, fico ríspida mesmo. Claro, só com alunas mais avançadas. As macacas-véias, como gosto de chamar. “Credo, Roberta, que coisa horrorosa, pra que tudo isso?” Para que elas sempre – sempre – se saiam bem sobre o palco. Como fizeram mais uma vez. Elogiadas, lindas e maravilhosas. Dançaram absurdamente bem, mais uma vez uma coreo nada simples. Tiveram que coreografar algumas partes elas mesmas. E foi um sucesso; todas fizeram jus à confiança. A expressão estava ótima, a leitura musical apurada, o alinhamento, perfeito. Ai ai. Orguuuuulho!

A minha dança

Improvisada, simplésima, mas emocionante. Três queridas alunas me acompanharam no solo. O trocar de olhares sobre o palco é algo de arrepiar; é como trapacear: a expressão, coisa das mais complicadas de se conseguir sobre um palco, vem pronta, quentinha como o pãozinho da manhã. E elas também improvisaram. Ainda que minha dança não tenha sido inesquecível para o público, o foi para nós quatro.

1. Essa cidade é um ovinho. De codorna, não de quadril. Ha ha ha. Que piadista.