Fechando uma escola

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último programa Mostra AYUNY 2015

Queridos amigos,
Há 15 anos duas mulheres, Lúcia Zamboni e Marina Christofidis, abriram um negócio inédito em Brasília. Nascia o AYUNY, a primeira escola especializada em dança do ventre da cidade e uma das primeiras do Brasil. Há 8 anos eu, Roberta Salgueiro, dirijo o AYUNY.

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Como preparar um evento de dança

Grupo AYUNY Por desgosto ou por preguiça deixei de escrever aqui. Espero voltar. Afinal, essa casa vazia é minha, com todas as suas janelas e esse espaço gigantesco onde posso pular, gritar, dar cambalhotas e até mesmo, veja bem, criticar. Porque, olha. Não sou dessas de só espalhar purpurina. Gosto de colocar o dedo na ferida porque foi o que aprendi a fazer por toda a minha longa e tenebrosa formação como cientista social. Claro, a gente desconstrói, mas também procura apontar caminhos para uma reconstrução melhor estruturada. O famoso morde-assopra, mas bem-intencionado. Fato: brasileiro tem baixa tolerância a crítica. A bailarina do ventre brasileira, por sua vez, é um caso à parte. É muita dor ouvir uma criticazinha bem besta, do tipo: “sua música poderia ter sido melhor editada, amiga. Manda pra mim, posso te ajudar”. Questionar escolha musical ou, ainda pior, acenar algum deslize em leitura ou semântica (tipo dançar um saidi num dabke) é suicídio social. Assim vou sobrevivendo nessa selva de strass. Como já estou nessa lambada há tempo o suficiente para me chatear cada vez menos com detratores, vou soltar mais umas rosnadinhas, com o único objetivo de apontar o problema e ajudar a pensar numa solução. E meu tema de hoje é: O EVENTO. Quem nunca quis morrer na plateia de um “espetáculo*”? Evidentemente que, para quem sobe ao palco, os problemas são, no mais das vezes, circunscritos à própria performance. A sensação do público é absolutamente diferente da de quem vivencia o arrepio da ribalta. Atrasos, apertos, erros e outras expressões de amadorismo reduzem a experiência artística do espectador. Sim, gente, amadorismo. Vamos perder o medo de dar às coisas os nomes que elas merecem. Quando uma “produtora**” consegue atrasar um show em meia hora e esse show leva três horas para se concluir ela está se mostrando absolutamente desinformada quanto à tolerância do público, por exemplo. E desinformação é amadorismo. Já tive meus momentos ruins (péssimos). Hoje, porém, me orgulho de produzir eventos muito bem-feitos e organizados. Ofereço, portanto, algumas dicas para quem está começando, para quem não tem medo de reconhecer erros ou simplesmente para quem quer oferecer um melhor serviço para seu público.

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Do desconforto plástico

Há tempos estou para comentar sobre a estética na dança do ventre. É uma dança que nos faz mais vaidosas, fato. Nos sentimos mais seguras e queremos externar isso. Já vi alunas se transformando drasticamente depois de poucos meses de dança: de insegura e (aparentemente) desleixada a mulher forte e cuidada. Claro, estou falando aqui do campo do endereçamento ao outro: mais desenvolta ao falar, cabelos com corte moderno – algumas vezes com nova cor – unhas, modo de se vestir… Não dá para dizer muito sobre uma revolução sólida na esfera íntima sem uma pesquisa direcionada, entretanto.

E sabemos que há muita expectativa – e cobrança – em torno da imagem da bailarina profissional. “Bailarina não pode isso, bailarina não pode aquilo, nem aquilo outro”. Fumar, beber, falar palavrão? Não, não pode. Unha nua, olheira, ausência de maquiagem, roupinhas confortáveis, chinelo de dedo e cabelo sem escova ou babyliss também não combinam com bailarina. Tem que estar sempre linda e cheirosa. Uma fada. Sempre entendi que essa postura deveria ser cobrada apenas em sala de aula ou quando com o figurino. Mas não é por aí que costuma pensar nossa comunidade de dança, como pode ser aferido em alguns foruns do orkut e artiguinhos por aí (preguiça de procurar link agora).

O controle sobre a imagem da bailarina profissional é tão pesado que a maioria acaba se transformando tanto que muitas vezes custamos a acreditar. A primeira das incursões ao body modification começa no mais evidente signo de identidade de gênero: os seios. Lábios e maçãs do rosto costumam ser o alvo das próximas visitas ao consultório. O próximo passo é a terrível e perigosíssima lipoaspiração.

Junto com a Samara tentei por um tempo manter um blog sobre os riscos das intervenções cirúrgicas com fins estéticos não essenciais, o Panóptico Feminino. A vida acabou tomando outros rumos, perdi a senha e jamais consegui retornar. O objetivo era fazer um clipping com poucos comentários, uma especie de painel mórbido da cirurgia plástica feminina. Não é preciso muito esforço para ver que esse é um mercado poderosíssimo e perverso. Por que então as mulheres se submetem a isso com tamanha temeridade?

A resposta é bem óbvia e repetitiva: por causa dos modelos de feminino que nos enfiam goela abaixo. Nenhuma mulher aceitaria de bom grado a insersão de uma prótese de material suspeito em seu corpo por volição própria – a não ser que tenha passado por mastectomia radical ou que tivesse um sério problema de desenvolvimento mamário. Sentimo-nos mal com nosso corpo porque nos é dito cotidianamente que esse corpo não é bom o suficiente. Nunca será, na verdade. Basta ver os horríveis sites de fofoca que apontam, quase babando de prazer sádico, a celulite de uma modelo de passarela ou um traço de gordura sob o umbigo de uma atriz. Um mundo alucinado de photoshops e autotunes.

Assisti ontem a um filme com um mote interessante: no futuro, as pessoas já não operam atividades de qualquer tipo, incluindo sexo e o uso de drogas. Quem faz isso por elas são suas réplicas robóticas, os “substitutos”, operadas pelo ser humano no conforto do seu lar. As réplicas são todas belas e podem tudo, sem acarretar riscos para os humanos (mais ou menos, como mostrará o filminho, num roteiro bem lambão).  As pessoas vivem felizes não se expondo ao olhar alheio; em suas casas, estão sempre de pijamas, descabeladas, sem maquiagem. Elas finalmente podem interagir sem o julgamento do outro, já que todos escolhem “substitutos” com concordância com as regras estéticas de seu mundo. Surreal, né? Ou nem tanto?

Na dança do ventre as mulheres parecem se angustiar por não parecerem com uma bailarina-modelo: em época de espetáculo é muito comum ver que as que não colocam próteses internas apelam para as externas. Há soutiens com tanto enchimento que custa-se a acreditar que um seio humano consiga se espremer lá dentro. Querem ficar com os seios altos, cheios e vigorosos. Ainda não vi em Brasília quem seja masoquista o suficiente para espremer os seios como a Randa, por exemplo. Mas já ouvi gente dizer que acha lindo.

Creio que devemos valorizar nossos corpos e chamar atenção para pontos positivos. Afinal, somos regidas por esse padrão estético e é praticamente impossível escapar de toda a sua interpelação. Afinal, logo na dança do ventre, onde deveríamos nos sentir mais livres, acabamos por nos deixar engolir pelo estresse do corpo perfeito.

Bom senso é a medida. Se dói, se incomoda, se perturba, recuso.

Depois do avançado vem o que?

Em janeiro o Ayuny vai lançar seu método. É. Método para o ensino da dança do ventre. Já começamos a aplicá-lo parcialmente, ao menos no tocante às diretrizes gerais para o desenvolvimento da aluna e as regras de mudança de nível. Em nossa escola organizamos o aprendizado da aluna nos seguintes níveis: básico A e B, intermediário A e B e avançado. Nenhuma novidade nisso. O método não revoluciona aí, mas sim no conteúdo que se espera que uma aluna apreenda para a mudança de nível.

O mais importante não tá bem aí. O importante é que as turmas não mudam de nível como um todo; a aluna é que muda de turma/ professora. E isso desata um pouquinho de chororô. Pelo que pude aferir, mais das professoras do que das alunas. Expliquei às minhas alunas de iniciante logo no início: vocês irão se desenvolver e passarão para outra professora. “Ah, não!”, “Ah, fom!”, “Ah, nem!” Até que elas viram a carinha da próxima profe e ouviram mais um pouco sobre a cuidadosa seleção de profes da escola e tal e coisa. Daí se empolgaram e ficaram felizes.

Só que a maior parte das professoras que conheci nessa vida se apega mais às alunas do que estas a elas. Já rolou comigo. Quando comecei a alçar vôo rolou desconforto; quando alunas alçam vôo dá aquela dorzinha de saudade. É isso aí mesmo, assim é a vida, que é uma loucura, um eterno aprendizado [/Narcisa].  É importante mudar de professora sim. É primordial, principalmente depois do intermediário. Porque a bailarina vai se formando. Se fica com a mesma “tia” a vida toda, vira um pastiche dessa tia. Não desenvolve estilo próprio, leitura musical própria, coreografias próprias. Vira tudo uma cópia da professora. Ruim, né? Você não quer pra você. Vai querer isso para suas alunas? Não.

Então aí começa outro dilema: a idéia de subir para o avançado ou para o inter B não agrada a algumas alunas. Talvez por medo da resposabilidade para algumas, já que nesses níveis espera-se que as alunas já esbocem autonomia. Mas na maior parte das vezes eles têm medo de que a brincadeira acabe. Porque é bom demais só ficar fazendo aulinha. Bão demais encontrar a mesma turma, dançar sem muita preocupação. E aí a dúvida: “depois do avançado vem o que?”

Vem o que você quiser. Vem mais aulas. Vem a possibilidade de ir fazer aulas na turma que quiser porque a professora X tem um estilo único e interessante de ensinar. Vem a possibilidade de fazer aulas com um músico que vai te virar de cabeça para baixo. Vem a possibilidade de enfrentar ainda mais aulas e se tornar uma professora. Ou você pode simplesmente continuar dançando, cada vez mais autônoma, na escola ou fora dela.

Parece cliché, mas é uma verdade: não há professora que não precise mais de estudos. Estudar sozinha a vida toda não é uma opção. Precisamos a todo o momento aferir nossa capacidade e apreender novas maneiras de dançar, entender a dança, ensinar. A professora ou qualquer outra profissional da dança que não segue tomando aulas estagna. Estagnada, como seguir cativando?

Há vida pós-espetáculo

Cheeeeio de teias de aranhas esse blog aqui, hein? Empoeirado, coitado. Então vamos faxinar. Primeiro, contando o que andei fazendo nesses últimos dias.

Vamos lá. O que fiz todo esse tempo? Fiquei estressada, claro. E produzi mais um espetacular “petáculo”. Que canseira! Uma vez por ano, de agora em diante. Sim, Brasília é uma cidade tão alucinada que fazem esses cansativos eventos duas vezes ao ano. E dá um desconforto extra essa coisa de olhar data para não chocar com o espetáculo da colega e tal e coisa¹.

Impressão geral

Esse último espetáculo promete ter sido o melhor de todos os 11 promovidos pelo Ayuny desde sua fundação. Tenho a impressão que foi, e assim me contaram várias pessoas, entre professoras, alunas e convivas. O tema era a relação entre os universos divino e humano; cada professora inspirou-se em uma divindade do antigo Egito para compor seu próprio personagem e as coreografias das alunas. A minha, claro, foi Bastet. Depois conto com detalhe. O lance é que esse foi o espetáculo mais bem produzido que já fizemos: as coreografias tiveram iluminação especial e foram antecedidas de narrações poéticas cuidadosamente pesquisadas. Tive a ajuda da Laura, que dividiu a direção comigo e, estudante de cênicas e garota espertíssima, ajudou, entre outras coisas, a compor a iluminação (feita por Daniela Diniz, sua irmã), a narração e a cenografia da dança das professoras.

A dança das professoras

Pois é, as professoras dançaram todas juntas. Foi um processo criativo loooouco, mas proveitoso como poucas experiências de dança podem ser. Todas competentíssimas e poderosas, precisando comprimir técnica e energia criativa em 3 minutos de música. Foram oito professoras juntas, veja só. E a coreo foi construída em conjunto meeesmo. Isso é uma vitória. Claro que o clima fica tenso às vezes: já estão todas esgotadas de coreografar, ensinar e ensaiar suas próprias turmas; preocupadas com o próprio figurino e com o figurino das alunas. Ou seja, vitória ao cubo termos feito uma coreografia bonita, elaborada e bem executada.

As minhas alunas

Sou uma megera. Às vésperas do espetáculo (isto é, 1 mês antes), me transformo. Igual ao médico bonzinho do Pernalonga. Sou um poço de paciência ao longo do ano; repito e repito e repito tudo; detalho cada movimento, traduzo a música, mostro as camadas sonoras. Vai chegando perto do espetáculo cobro tudo. Não grito com ninguém, claro; mas mando melhorar a cara, cobro presença, corto perguntas impertinentes, fico ríspida mesmo. Claro, só com alunas mais avançadas. As macacas-véias, como gosto de chamar. “Credo, Roberta, que coisa horrorosa, pra que tudo isso?” Para que elas sempre – sempre – se saiam bem sobre o palco. Como fizeram mais uma vez. Elogiadas, lindas e maravilhosas. Dançaram absurdamente bem, mais uma vez uma coreo nada simples. Tiveram que coreografar algumas partes elas mesmas. E foi um sucesso; todas fizeram jus à confiança. A expressão estava ótima, a leitura musical apurada, o alinhamento, perfeito. Ai ai. Orguuuuulho!

A minha dança

Improvisada, simplésima, mas emocionante. Três queridas alunas me acompanharam no solo. O trocar de olhares sobre o palco é algo de arrepiar; é como trapacear: a expressão, coisa das mais complicadas de se conseguir sobre um palco, vem pronta, quentinha como o pãozinho da manhã. E elas também improvisaram. Ainda que minha dança não tenha sido inesquecível para o público, o foi para nós quatro.

1. Essa cidade é um ovinho. De codorna, não de quadril. Ha ha ha. Que piadista.

Inútil!

Daí que minha amiga Lu tava contando dos mil gadgets que ela tem em casa. Ela tem uma máquina de fazer coxinhas, por exemplo. Faz cem coxinhas de uma vez só. E contei a ela de um dos melhores artigos de jornal que li nos últimos tempos. O caderno Vitrine, da Folha de, sei lá, três sábados atrás, fez uma relação das compras mais ineficientes que as pessoas podem fazer. Entre os produtos listados constavam iogurteira, cortador de pelo de nariz, conjuntos de facas e aquela mega poderosa máquina de suco que é um inferno de limpar (a Lu confirmou). Sugeri a ela que escrevesse sobre sua cozinha tecno-psicodélica e me empolguei também: por que não relacionar os acessórios bellydance mais trambolhudos e/ou inúteis que já adquiri nos últimos 13 anos de dança? Quer sabersh? Yallah:

1. Snujs de um furo só.

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Snujs, quando não se pratica, já são uma tralhinha. Mesmo um turquoise. Um par de objetos que fica guardado, coitado, sem uso. O negócio vira tralha meeesmo é quando se compra aquele par de snujs com som de lata. Siiiim, aquele que só tem um furinho, coitado. Que só serve pra te constranger nos workshops de snujs.

2. Touquinha

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Quem, em sã consciência, usa as touquinhas? Claro, elas podem até ter seu charme em algumas performances folclóricas. Mas nunca consegui usar. Tipos, tenho uma. Ocupando espaço em gaveta, claro.

3. Abaya exagerada

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Tive uma abaya dourada enoooorme, com capuz e mangas, brilhosa, exuberante. E queeeente. Imagine-se saindo do palco (ou retornando aos exíguos “camarins” – tô tão generosa hoje – dos restaurantes) e vestindo um troço de tecido brilhoso e pesado… aaaaaaaaahhhhhhhhh….. Mo-hy. Eu e algumas alunas nos deparamos com uma abaya de morrer de inveja no último espetáculo. É de uma colega professora. Glamourosa, de veludo e gola de pele. Agora pense em vestir isso depois de dançar por uma hora inteira em restaurante. Ou depois de descer de um palco onde o foco de luz era todinho seu. Gostoso, né? Não.

4. Cd’s da Khan el Khalili e do Tony Mouzayek

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Antigamente internet não era fonte de música. Só hacker ou gente muito rica baixava música. Conexão discada, sacomé. Daí Tony Mouzayek e os cd’s da KK eram uma constante nas fitinhas da galera. O Tony fazia versões das músicas pop mais legais e tem inclusive gravações maneiríssimas das clássicas (como a onipresente “Exotismo”, que tá naquele cd em cuja capa a Soraia veste a roupa mais unbelievable de todas). Com o maior acesso das pessoas aos originais, ficou difícil usar os cds do Tony. Ou seja, Tony datou, mas era a melhor fonte de muita gente. Só que os cd’s da KK, ao mesmo tempo em que eram bons para aulas (ritmos constantes e tal e coisa), sempre foram insuportáveis de ouvir de dançar. E a gente comprava altos nas bancas. E agora ficam encostados. Porque é difícil jogar fora algumas coisas. Porque a gente se apega, né? E eu sou tipo aquela véia cheia de gatos e tralha pra todo lado. Ê, leiê.

5. 15.000 lenços de quadril

lenço

Não sei por que a gente compra tanto lenço de quadril. Um só basta. Tenho um monte. Compulsiva mesmo. Dei alguns para algumas amigas. O pior é que me arrependi. Só que lenço de quadril, pra mim, que sou uma desorganizada, só serve pra ficar jogado pela casa. Porque a faxineira não sabe onde colocar. E eu deixo tudo largado. Daí na hora de arrumar a sacolinha pra ir dar aula, nunca encontro o que eu quero e me atraso pra aula. Sim, a culpa dos atrasos é todinha do excesso de lenços de quadril. Alguns, coitados, não são usados nunca. Os de moedinha são os piores; as moedinhas cortam a linha, daí, ao usar, espalha aquelas contas todas pelo chão. E pisar nelas dói. Por que não ter apenas, sei lá, oito?

6. Kohl

kohl

Alguém já conseguiu usar isso sem ficar parecendo a Cleópatra de ressaca?

***

Bonus:

Candelabro

candelabro

Não. Nunca tive um. Jamais dancei com um. É tradicional, pois é. Só que pra ter um objeto desses em casa, você precisa ter um armário embutido muito espaçoso. Porque o candelabro é a mãe de todos os trambolhos. Espada a gente enfia no fundo do armário (ou, se a bailarina é uma exibicionista, pendura na parede); pandeiro fica lindo dentro da cristaleira, bastão a gente deixa em qualquer canto. Mas candelabro, baby… candelabro é de amargar.

Empreender

Propor algo novo é costumeiramente complicado. Ainda que o novo não seja assim tão novidadeiro. Hoje fiz algo realmente novo (e aí me recordo do extindo blog da Aryane, que sempre perguntava o que você havia feito de “novo” no dia do comentário): panfletei para uma festa. A festa que estou promovendo. Vou dar a maior volta para chegar ao meu ponto, mas chego lá.

As poucas pessoas que toleram meu papo sabem de minha implicância com a perspectiva jeca da dança como prática limitada a seu círculo.  Que vem a ser estreitíssimo. Entendo que dança é entretenimento e, como tal, deve ser acessível a todos que por ela se interessam. Acredito que a dança do ventre é uma linguagem e, como tal, pode ser acessada por qualquer pessoa (como praticante ou admiradora), independentemente de sexo, gênero, renda, percentual de gordura corporal. Como linguagem, a dança também não se limita ao universo musical de origem. Dança-se o repertório do balé com qualquer música (como vemos nas incursões de Ana Botafogo ao samba), por exemplo. Por que não coreografar Madonna a partir do cânone da dança do ventre? E por que não incorporar outra gramática?

O que escapa à compreensão dos conservadores é o simples fato de que uma interpretação de música ocidental com movimentos da dança do ventre não diminui a importância das interpretações clássicas. Numa reunião com colegas para definir a programação do festival de junho surgiu o comentário de uma coreo que fiz sob encomenda para uma música da Shakira: “nossa, nunca imaginei que você fizesse isso, Roberta!”. Sem condenação; o comentário pintou por pura surpresa mesmo. Porque como falo tanto de folclore, como ouço Umm Kalhtoum na veia, como decoro mal e porcamente as letras de Abdel Halim Hafez, passo por conservadora. Das que apontam dedo para fusões musicais e coreográficas. É o erro do julgamento precipitado.

“Hafla”, a festa que inventei de fazer em Brasília, vai rolar em um espaço costumeiramente dedicado ao rock’n’roll e freqüentado por uma gama de pessoas cuja maioria provavelmente nunca ouvira falar de derbake – UK Brasil Pub. Convidei as professoras poderosas, pedi seleção das avançadas e chamei a Bety, que aprendeu derbake com o Mahmoud.  Pesquisei o quanto pude sobre música eletrônica árabe. Vai rolar pop e fusões interessantes com música eletrônica e árabe em geral. Eu, pelo menos, super me animo a dançar o material que separei para rolar na festa. E estou certa de que, para dançar em pista de pub, basta gostar de sacodir e ter uma seleção com muito groove. Isso tá feito.

Claro que meus joelhinhos estão doloridíssimos. Do tanto que tremem. Envolver-se em um projeto assim é complexo em uma cidade pequena como Brasília, uma cidade em que os estúdios de dança mal se comunicam – mas que tem uma comunidade de dança grande e bem preparada, com profissionais competentes e estudantes bem encaminhadas. Levar a dança e a riqueza sonora árabe a uma audiência mais ampla que entes queridos de alunas e habituées de chás é um desafio, sim.  Porque nunca rolou em Brasília e não será um evento puramente bellydance. Mas quem disse a vida é fácil? Rapadura é doce, mas não é mole não.

Portanto, babies, bora suar as canelinhas, como diz a Lizandra:

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P.S.: Ah, panfletar foi interessantíssimo! Altas pessoas me acharam parecida com a moça do panfleto, que vem a ser a gatérrima professora Padma. Claro, ela vai dançar na festa! Teve gente que nem nos olhou – fomos eu e Martinha -, rolou xaveco, rolaram comentários elogiosos sobre a festa… A Luciana fez uma maquiagem maneiríssima que, ainda nessa vida, aprenderei a fazer.

A vergonha na dança

Li dois textos sobre corpo em blogs amigos. Um, da Lu Arruda sobre alimentação e boa forma; outro, da Luana Mello, sobre o belo. Ambos e uma proposta da Charô – que há alguns meses me enviou uma foto de uma bailarina obesa e sugeriu um post – me motivaram a letrar minha perspectiva sobre a relação corpo-dança.

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Aos 32 anos eu certamente não tenho o mesmo tônus muscular de uma adolescente. Como a maior parte das mulheres, tenho minhas reservas de gordura. Também como as colegas, há momentos em que me acho horrível, apesar de ter o corpo flexível e desperto. Porque sou, como todas, interpelada pelas imagens midiáticas. Não há como escapar do grande discurso; seu alcance é amplo e, por repetição, tem poderosa fixidez. O controle do corpo atinge homens também, mas sua grande vítima é a mulher, por toda a história pregressa de vigilância sobre o feminino. As mulheres adoecem mais. Bulimia, anorexia, fibromialgia e tendinite, patologias que emerge da relação corpo-mente, incidem mais em mulheres. Ou seja, nossos corpos têm adoecido nossas mentes.

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Essa é uma conclusão interessante da psicanalista britânica Susie Orbach. Ela argumenta que, enquanto as primeiras descobertas de Freud ressaltaram o poder da mente sobre o corpo, atualmente vemos que a preocupação com o corpo tem afetado a mente: se antes as patologias mentais se refletiam no corpo, atualmente, na era da obsessão pela imagem, o corpo fora do padrão ocasiona os disturbios psicológicos. Veja a entrevista de Orbach ao programa Milênio, da Globo News, aqui. Um dos pontos mais importantes de sua fala é a relação entre a criação da baixa auto-estima e o consumo: adoecer as pessas dá dinheiro. O mercado da “beleza” é vasto e lucrativo. E, pelo andar da carruagem, ainda vai render muito.

De relativa facilidade técnica, a dança do ventre é conhecida pela democrática recepção a diferentes compleições. Em princípio, pessoas “fora dos padrões” conseguem se desenvolver na dança e executar todos os movimentos sem maiores dificuldades. No entanto, os corpos respondem de modo diferente aos movimentos. Um corpo com musculatura rígida vai ter efeitos mais “sequinhos” ao executar movimentos de trancos, por exemplo, ao passo que corpos mais flácidos e carnudos darão espaço para a reverberação do movimento. Corpos muito magros exigirão maior expansão na execução de certos movimentos. Giros e deslocamentos ágeis exigem alinhamento postural e boa distribuição do peso, o que se torna difícil para obesos. Tremidos delicados aparecem com mais dificuldade em bailarinas extremamente magras, enquanto os shimmies amplos às vezes parecem poluídos em mulheres de quadris muito largos. Como a dança do ventre não apresenta um código coreográfico fechado, basta às bailarinas escolherem seu repertório de acordo com seus objetivos.

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É, portanto, uma dança muito generosa, pois os movimentos podem sempre ser adequados à intenção do corpo em dança. À excessão do balé, não conheço nenhuma outra dança que exija uma determinada conformação corporal para sua prática. Agora, o essencial deste debate deveria ser a relatividade do belo. Nem tudo que é pintado como referencial de beleza é unânime.  O padrão de beleza da mídia apresenta elementos que, para mim, são feios. Há movimentos e tendências na dança do ventre que não considero bonitos. Essa característica humana – a autonomia, o livre pensar – deveria ser sempre nosso guia.

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A dança do ventre deveria, portanto, nos proporcionar bem-estar. Mas insistimos em nos refletir em corpos ratificados por comerciantes. É uma dura luta, travada diariamente. Auto-estima é um elemento melindroso de nossa subjetividade. Danificá-la seriamente é bastante fácil.

Pra conhecer melhor – Elis Pinheiro

Ela é uma das bailarinas que mais admiro no cenário brasileiro. Elis Pinheiro faz um trabalho diferenciado e se distancia do óbvio. Expressão facial sutil, valorização dos braços e leitura musical sofisticada são algumas marcas de sua dança. E ela comenta sobre sua dança e sua formação na entrevista feita pela Lu Arruda para o site A Bailarina. Leia djá!