Hello, hello, hello, how low

Eu sabia a senha (pra voltar aqui)

Se isso não é um sinal, não sei qual seria.

Sou uma dinossaura, de fato: tenho um telefone fixo, teclo no celular com as duas mãos e sinto falta de blogs, esses sites em que as opiniões, os pensamentos, as propostas são registradas e perduram um pouco mais que quando se expressa em redes sociais. Esse blog nasceu de uma rede social: a lista de discussão, via email, organizada pela Paula Cunha. A gente trocava informações, arquivos, impressões. Brigava também. Teve uma moça que disse que eu tinha que morrer e ser devorada por cães. Tempos depois descobri que ela era fã da Bridget Jones. Projetou ali, na treta virtual, um fim ideal encontrado na literatura sobre mulheres que não sabem o que fazer com elas mesmas.

Daí veio o orkut, e ali já estávamos mais organizadas para questionar o mercado da dança do ventre. Tinha a comunidade do Yallah, este blog, onde as pessoas se sentiam acolhidas e à vontade para questionar o modo como se construía o prestígio na dança feita no Brasil. Rolou treta, claro. Fui chamada de bêbada por alguém, risos. Até que não quis mais administrar nada e daí as pessoas ficaram chateadas quando fechei o forum. Porque o forum era meu, viu?

Veio vida meio adulta, doutorado em curso, canseira mesmo, aluguel, comprei uma escola de dança, foi um trampo. De repente, todo o amor tinha um destino: a dança do ventre precisava ser informada como um fenômeno observável, descritível. Eu tinha que entender a coisa toda, sem jamais ter ido no Egito, e defender, dentre meus pares, que aquele fenômeno dizia algo de valor para a compreensão do fenômeno cultural em geral, sei lá. Foi um troço esquisito, e que toquei por cinco anos. Dava mais trabalho fazer pesquisa bibliográfica, viu? Não tinha sci-hub. Nem te conto.

Tem essa esquisitice da qual ninguém fala: depois que você defende, você não curte mexer no texto. Nem no volume impresso. O resultado foi que eu não quis sequer tocar no arquivo, in silica ou impresso. Adiós, doutorado! Depositei sem revisão, aliviada: adeus, adeus. Mas também não queria nem dançar. Nem ver dança, nem música árabe. Tudo saturou.

Hoje tenho arrependimentos, claro, porque as pessoas leem os trem que a gente escreve. Devem julgar: nossa, que desleixada essa Roberta Salgueiro. Sou, desculpe. Muito preguiçosa e desleixada. Eu deveria ter arrumado no mínimo uma revisora, né, pra deixar o arquivo arrumadinho. Mas a real é que pesquisar no Brasil é horrivis. Como assim eu estava estudando uma expressão gringa do corpo e a representação dessa expressão considerando sua presença além das fronteiras de sua “fonte”? Se a academia não valoriza seu objeto de pesquisa é porque a comunidade não demonstra a importância do tema, deduz-se. Fica parecendo um estudo burguês, desconectado da realidade, sem materialidade. Foi um bom tempo de sofrimento e uma passagem pelo campo da literatura comparada para eu me reconciliar com o tema e com o propósito da antropologia, por sinal, apesar dos meus pares.

É importante, sim, investigar a expressão sensível da humanidade, a arte, a produção criativa e o fundamento das paixões que alimentam sua expressão, produção e reprodução. Entender seu lugar no mundo e buscar saber as implicações dos discursos construídos a partir da articulação – ou colisão – entre culturas. Principalmente, ver de que jeito que algumas manifestações culturais são disseminadas como melhores ou piores em relações a outras.

Hoje, desperta do longo e doloroso torpor, sinto que há um tênue brilho de lantejoula iluminada: coletivos de gente esperta, inteligente e fundamentada tem percorrido o caminho da pesquisa sobre a dança do ventre e outras danças dessa matriz. É mais que um alento, é uma alegria para todas que se identificam com essa expressão artística! Um exemplo fino é o trabalho do Hunna Coletivo. Espia lá!

De minha parte, desmumifiquei. Quero retomar este espaço para compartilhar os avanços na reflexão sobre a dança que nos une. Viva as raqsat do caderninho!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s