Fechando uma escola

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último programa Mostra AYUNY 2015

Queridos amigos,
Há 15 anos duas mulheres, Lúcia Zamboni e Marina Christofidis, abriram um negócio inédito em Brasília. Nascia o AYUNY, a primeira escola especializada em dança do ventre da cidade e uma das primeiras do Brasil. Há 8 anos eu, Roberta Salgueiro, dirijo o AYUNY.

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Vai uma dancinha aí?

É tão bom ter uma bailarina linda, perfumada, bem-vestida e talentosa iluminando nosso evento, não é? Mas pagar por ela é ruuuuim. Imagina, ela só tem que… dançar! Como ousa cobrar por isso? Ainda mais essa dança tão fácil, é só sacodir!

Imagino que seja isso o que se passa na cabeça de alguém que liga para contratar a bailarina e pechincha ou simplesmente sugere um cachê ínfimo. Hoje fiquei tão boquiaberta que a pobre da promotora de eventos teve que ouvir um rio de ironia. Vou tentar transcrever o telefonema, editando as partes repetitivas:

– Alô, to falando aqui de Goiânia; é que vai ter um lançamento imobiliário (opa! Construtora tem dinheiro) aí e a gente gostaria de uma ou duas dançarinas.

– Claro, temos várias bailarinas em nossa escola. Quando será o evento?

– Então, mas deixa eu te falar: eu conversei com a fulana e ela falou para ligar para você; a gente tem um problema de caixa, daí eu queria saber se você não tem uma aluna…

– Trabalhamos apenas com profissionais. Quanto você tem reservado para o cachê da bailarina?

– Ah, temos ½ X.

(segurando o riso) Olha, isso é a metade do valor praticado pelas bailarinas.

– Então, menina! É por isso que a gente queria ver se você não tinha uma aluna…

– Não; temos bastante cuidado com a imagem da escola e da dança, por isso apenas profissionais são contratadas. (Misto de tristeza e indignação crescendo em meu peito) Você certamente encontrará meninas que aceitarão dançar por esse valor, mas cuidado: pode estragar seu evento. E dá tanto trabalho fazer um evento, não é?

– É verdade. (segura, que agora vem a pérola) Mas você não aceitaria indicar alguém nem que seja pela divulgação da escola?

– Olha, fulana, a construtora não me venderia o apartamento pela metade do preço como permuta pela divulgação, não é mesmo?

– He he he… não.

– Então.

– Ai, então você tem o telefone de outra escola?

– Não posso fazer isso, fulana. Dá uma olhadinha no google, que você acha rapidinho.

 

Impressionante.

Arte e entretenimento

O potencial artístico da dança do ventre é largamente desprestigiado. Por quem? Por nosso próprio meio, como muitas de nós percebemos. Estava hoje negociando a vinda de uma artista para ministrar curso às praticantes brasilienses e nos assombramos com o quão pouco podemos cobrar pelas aulas. Não podemos fazer um preço além do mercado, claro. O problema é que o mercado andou contra as artistas da dança: se há dez anos pagávamos 250,00 por um workshop de 4 horas com uma bailarina de ponta, hoje o preço médio é de 150,00, se muito.

Por que? Tem tanta bailarina poderosa assim no mercado? Não. O que está acontecendo é uma acomodação de mercado dolorosa. Alguns grupos comerciais estabelecem um preço para shows e oficinas e o resto segue em frente, cabeça baixa, acreditando que ou se adapta ao mercado ou se morre. A discussão, na verdade, é bastante mais profunda do que a simples imposição dos grupos majoritários sobre o mercado.

Para ilustrar, cito um tema que se mostrou polêmico novamente no blog da colega Vera, o Ammar al Binnaz. Ela traduziu um texto publicado na Gilded Serpent que, de modo bastante duro, informa às leitoras que o mercado é cruel em relação ao corpo da artista e que, se querem ser profissionais, o melhor é que se adequem a ele.  Ok. Tenho um comércio de dança do ventre: uma escola. Nessa escola atuam profissionais e muitas delas são bailarinas que oferecem seu trabalho para shows particulares. Sei bem o que o público leigo quer em uma festa: uma artista bonita e talentosa.

Meu questionamento ao texto e aos comentários que se seguiram à sua publicação no blog da Vera relaciona-se ao nosso próprio entendimento sobre a atuação da profissional da dança. O texto claramente limita a atuação profissional à performance sob a batuta do contratante. Isso, per se, exclui 90% das praticantes da dança. Para ser profissional eu preciso me apresentar em clubes, restaurantes e festas particulares? Se sim, eu não seria uma profissional.

Sabendo-me profissional, me recuso a acatar tamanha limitação. Uma mulher que ensina, estuda e coreografa para o corpo do outro não é uma profissional da dança do ventre? Claro que sim! Uma bailarina que dança apenas nos espaços em que pode se expressar artisticamente (chás, mostras, espetáculos) não é profissional? Claro que sim!

Nosso problema, como bem a Shaide colocou nos comentários daquele post, é que acabamos por nos acomodar e, com isso, ensinamos nosso público a acatar a estética em detrimento da arte. Não, na verdade, não fizemos isso tudo sozinhas: os homens árabes ativos no meio da dança do ventre, na verdade, têm muita responsabilidade na marginalização da dança como um todo e no barateamento da dança do ventre feita pelas brasileiras em particular (não sabia disso? Então leia esse artigo aqui, ó. Se vc não consegue visualizar, vá à biblioteca da sua universidade, que deverá permitir o acesso). Essa sim, é a verdade cruel.

Que bem faz à praticante novata da dança dizer a ela que, para ser bem-sucedida, precisa estar “em-boa-forma” (um termo ridículo)? Não compreendo. NÃO PRECISA SER MAGRA PRA DANÇAR. Hello!!!!! Desculpe gritar assim, mas é um pensamento que me assombra de tão tacanho, acomodado e perigoso.

Cara, simplesmente dançe e difunda seu entendimento sobre a dança. Dane-se o restaurante, dane-se o contratante que acha caro pagar pela artista, danem-se as festinhas de aniversário de 80 anos que pedem uma gostosa. Afe!!!! Pensando em mercado, de fato, não se produz arte.

P.S.: cabeçalho bonito, né? Presente da Vivi, essa mulher linda, poderosa e uma verdadeira amiga da dança do ventre!

Espetáculos: melhor com eles!

Finalmente um arremedo de férias! Minhas últimas aulas serão nessa quinta. Depois, relaxo ao menos uma semana com o celular desligado e volto ao trampo. Com mais tranquilidade e a esperança de novidades que sempre vem com a virada do ano. É, o tempo de quem produz dança destoa da temporalidade média: meu ano acaba quando acaba o espetáculo. O deste ano foi lindo, lindo, lindo, lindíssimo. Sério. Bom mesmo. Sou crítica, chata. E achei muito, muito bom, apesar de todo o descabelo que foi, desde setembro.

Parece loucura, mas produzir um evento me faz envelhecer e rejuvenescer ao mesmo tempo. É uma tensão alucinada, que só se vai nos momentos iniciais do espetáculo. Porque depois das cortinas abertas, baby, não há muito o que fazer além de contornar pequenas bobagens. Estresse sério mesmo rola é antes. Duvida? Então puxa o tapetinho porque lá vem história.

Todo mundo junto!

O espaço

Em primeiro lugar, para produzir um evento de grande porte – neste espetáculo contamos com um elenco de 78 pessoas – é necessário pensar o onde. Havia um teatro maravilhoso na cidade onde tradicionalmente produzíamos nossos espetáculos. Entramos nos trâmites tradicionais em junho, pensando em realizar o evento no primeiro sábado de dezembro e tivemos a reserva da pauta confirmada. Em fins de setembro cancelaram todas as pautas. Por que? Não se sabe. Sei apenas que não foi apenas conosco. De todo modo, o estrago estava feito. Em cima da hora, como conseguir pauta? Contratempos são, felizmente, também oportunidades para novos contatos e situações: conseguimos a pauta do Teatro da Escola Parque, o primeiro teatro de Brasília. Menor (370 lugares contra 500 do teatro anterior), mais antigo, mas com cadeiras maravilhosas, poltrononas, bem ao estilo que não existe mais, que prioriza conforto. A chateação foi que precisaríamos nos contentar com uma quinta-feira, dia morto para Brasília, cidade de funcionários públicos. Ça va.

Eu e a linda Liz!

A configuração do espetáculo

Cansada, fim de doutorado, estressada, precisei ainda lidar com saída de professoras e de uma colaboradora importantíssima para a realização do evento. Eu estava sozinha de verdade. Eu e o Alex, que tem por função cuidar da parte bruta: o financeiro. Sem funcionários e colaboradores. Assim, contava com as professoras para não tumultuarem o meio-de-campo. Muitas foram excelentes, mas há as meninas que não se dedicam tanto e que embromam loucamente para enviar as músicas e mesmo para entender a proposta do espetáculo. Passei perrengue, passei raiva, aprendi.

As alunas

Pela primeira vez, precisei dançar com as minhas alunas. Uma de minhas alunas adoeceu na penúltima semana antes do espetáculo. Minhas coreografias são feitas com desenhos que levam em conta cada uma das meninas, suas potencialidades e dificuldades. Ou seja, ou eu mudaria todo o desenho coreográfico ou assumiria o papel da moça. Lá fui eu. Isso gerou um estresse extra, afinal, fazer a coreo para o corpo do outro não é a mesma coisa de executá-la bem. Além do mais, nunca havia me apresentado com grupo antes. Fiquei insegura e com medo de prejudicar as meninas. Mas nem conto: me diverti horrores!!! Errei. Mas tava com a cara boa, nem acho que fez tanto feio assim. De todo modo, é aquela coisa: minha perspectiva mudou; consigo ver melhor agora a posição das alunas.

O computador

Meu computador caiu, quebrou e morreu. Siiim! Quatro dias antes do espetáculo. O computador com tudo, absolutamente toda a minha vida dentro. Aprendi mais uma coisa: quando o bicho tá pegando e acontece uma coisa como essa, a única opção é relaxar. Simplesmente deixar a coisa rolar.

Equipe porreta!

E a coisa rolou. Teve mais chaturinhas e preocupações assombrosas. Mas, amiga, o show foi tão bom, tão bom, que só consigo pensar na analogia do parto: não importa quanta dor e medo a coisa acarretou, se o resultado foi algo vivo e lindo.

Prestígio

Belo sábado, cuidando de minha escola – estamos sem recepcionista -, ponho-me a ler o jornal local, que tem uma seção de anúncios gratuitos. Meu coração de microempresária vai à garganta ao ler o seguinte anúncio:

Dança do Ventre para crianças, adultos e idosos. Todos os níveis. Vários horários. R$55.

Seguido do nome e telefone do estabelecimento. “Morri”, pensei. Logo me toquei de que estava viva e liguei pro lugar para perguntar o básico “comé-qui-é-mermão?”.  Bão, é uma escola bem estabelecida no ensino da dança flamenca e que quer se inserir no mercado bellydance. Tem apenas uma turma (sim, 01. Pelo visto, para crianças, idosos e adultos. Tudo junto. Sacode no liquidificador. Vê se dá pra engolir) que rola duas vezes na semana. Daí funciona assim: 1 aula sai a 55 dinheiros e 2 aulas sai a 75 dinheiros.

Bonito, né? Peraí, peraí, que ainda vem o melhor!

Perguntei:

– E quanto é a aula de flamenco?

– Aaah, o flamenco é R$150,00, duas horas por semana.

– Nossa, que diferença! O flamenco é melhor, mais difícil?

– É muuuuito diferente.

Ah, tá. Pois é. Pra ir fazer dança do ventre nesse lugar não precisa nem agendar. Pro flamenco, mil recomendações.

Que palhaçada.

Como fazer uma coreografia 2

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Há algum tempo escrevi um pequeno guia de construção coreográfica. Com a proximidade do nosso novo espetáculo e o desenvolvimento de minhas alunas, tenho pensado melhor no assunto. Gosto muito de coreografar e o faço sem maiores dificuldades. Minhas dúvidas são quase sempre em relação ao espaço cênico de que disponho.

Daí que algumas alunas minhas cursam também o intermediário B (dou aulas no inter A e no iniciante) e precisam começar a desenvolver capacidades autorais na dança. Ou seja, precisam fazer suas próprias coreografias. No meu curso estimulo as meninas a construir suas seqüências, com menos cobranças do que no inter B (que deve, sim, se empenhar em fazer a aluna construir seu próprio estilo, já que estão se encaminhando para o avançado). E mostram interesse em aprender sobre o processo de construção coreográfica. Aí vão, então, minhas dicas, acrescentando mais elementos do que no artiguinho anterior:

1. Do macro ao micro: ouça a música e a desconstrua por momentos: se você está trabalhando uma música pop, observe as partes 1, 2 e refrão. Se é uma música clássica, mais complexa, identifique a introdução, a entrada, o desenvolvimento, a digressão (taksim ou folclore) e o retorno à melodia de entrada. De todo modo, por cima, de primeira ouvida, observe os momentos de calmaria e de energia. Pense em um rascunho de dança. Apenas depois desse exercício passe para as estrofes. Delas, às frases; daí, às minúcias.

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2. Identifique partes-chave da música: Há momentos impactantes e momentos morosos, às vezes tediosos. Identificando esses momentos, você poderá distribuir melhor seu repertório coreográfico.

3. Distribuição da atenção: A maior parte das músicas para dança do ventre se compõem em base (ritmo), melodia e arranjos (às vezes, harmonia, que é um conceito complicado e não entendo tão bem). Veja qual deles se sobressai em cada momento: ele é seu guia.

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4. Aonde vai o quê: O ritmo deve guiar seu pé. É a parte terrena, raiz, da música. A melodia, aérea, guia a parte superior do seu corpo. A harmonia ou arranjo está nos detalhes. Isso não é uma regra; é apenas uma leitura recorrente.

5. Foco: Ouça a música com fone de ouvido. Capte tudo. Não fique louca querendo transpor todas as notas musicais em seu corpo; siga o som mais vibrante, sem jamais ignorar as molduras deste som.

6. Discernimento: Cada espaço de show requer uma apresentação diferente. Palco, restaurante, festa e chá requerem abordagens completamente diferentes.

7. Anote: Desenvolva uma notação. Dê nomes aos movimentos e compartilhe esses nomes com suas alunas ou colegas. Não há rigidez na notação coreográfica da dança do vente, extremamente fluida. Não se queixe disso; aproveite essa liberdade e solte seu verbo. Escrever a dança é muito importante; é, afinal, a base da coreografia. Não se vicie em um modo única. Durante muito tempo, apenas anotava os passos e a minutagem. Atualmente gosto de desenhar, como podem ver na imagem acima.

Nada disso é regra. É meu processo criativo que compartilho com a geral. Espero que seja útil. Pra mim é.

Clicando nas imagens você as vê em tamanho maior. Esse é um rascunho para a coreo das minhas alunas de nível intermediário (o mesmo nível da coreo anterior, a do jarro). Como poderá ser visto posteriormente, muuuuuita coisa vai mudar. ^_^

* * *

A música tá editada. Estou trabalhando com esse arquivo aqui, que mutilei. Pobre música perfeita!

Empacou

É provavelmente uma das coisas mais angustiantes ever. Ter uma turma pra conduzir, prazo para apresentar e ver a coreografia empacar lá no finalzinho da música. Simplesmente não sai. Quer dizer, se for fazer coreo tabajara, costuma sair. Nossa. Não é de hoje. Que paro na frente do computador decidida: hoje termino essa bagaça. Nada, rien de rien.
E já enjoei da música.

A vergonha na dança

Li dois textos sobre corpo em blogs amigos. Um, da Lu Arruda sobre alimentação e boa forma; outro, da Luana Mello, sobre o belo. Ambos e uma proposta da Charô – que há alguns meses me enviou uma foto de uma bailarina obesa e sugeriu um post – me motivaram a letrar minha perspectiva sobre a relação corpo-dança.

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Aos 32 anos eu certamente não tenho o mesmo tônus muscular de uma adolescente. Como a maior parte das mulheres, tenho minhas reservas de gordura. Também como as colegas, há momentos em que me acho horrível, apesar de ter o corpo flexível e desperto. Porque sou, como todas, interpelada pelas imagens midiáticas. Não há como escapar do grande discurso; seu alcance é amplo e, por repetição, tem poderosa fixidez. O controle do corpo atinge homens também, mas sua grande vítima é a mulher, por toda a história pregressa de vigilância sobre o feminino. As mulheres adoecem mais. Bulimia, anorexia, fibromialgia e tendinite, patologias que emerge da relação corpo-mente, incidem mais em mulheres. Ou seja, nossos corpos têm adoecido nossas mentes.

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Essa é uma conclusão interessante da psicanalista britânica Susie Orbach. Ela argumenta que, enquanto as primeiras descobertas de Freud ressaltaram o poder da mente sobre o corpo, atualmente vemos que a preocupação com o corpo tem afetado a mente: se antes as patologias mentais se refletiam no corpo, atualmente, na era da obsessão pela imagem, o corpo fora do padrão ocasiona os disturbios psicológicos. Veja a entrevista de Orbach ao programa Milênio, da Globo News, aqui. Um dos pontos mais importantes de sua fala é a relação entre a criação da baixa auto-estima e o consumo: adoecer as pessas dá dinheiro. O mercado da “beleza” é vasto e lucrativo. E, pelo andar da carruagem, ainda vai render muito.

De relativa facilidade técnica, a dança do ventre é conhecida pela democrática recepção a diferentes compleições. Em princípio, pessoas “fora dos padrões” conseguem se desenvolver na dança e executar todos os movimentos sem maiores dificuldades. No entanto, os corpos respondem de modo diferente aos movimentos. Um corpo com musculatura rígida vai ter efeitos mais “sequinhos” ao executar movimentos de trancos, por exemplo, ao passo que corpos mais flácidos e carnudos darão espaço para a reverberação do movimento. Corpos muito magros exigirão maior expansão na execução de certos movimentos. Giros e deslocamentos ágeis exigem alinhamento postural e boa distribuição do peso, o que se torna difícil para obesos. Tremidos delicados aparecem com mais dificuldade em bailarinas extremamente magras, enquanto os shimmies amplos às vezes parecem poluídos em mulheres de quadris muito largos. Como a dança do ventre não apresenta um código coreográfico fechado, basta às bailarinas escolherem seu repertório de acordo com seus objetivos.

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É, portanto, uma dança muito generosa, pois os movimentos podem sempre ser adequados à intenção do corpo em dança. À excessão do balé, não conheço nenhuma outra dança que exija uma determinada conformação corporal para sua prática. Agora, o essencial deste debate deveria ser a relatividade do belo. Nem tudo que é pintado como referencial de beleza é unânime.  O padrão de beleza da mídia apresenta elementos que, para mim, são feios. Há movimentos e tendências na dança do ventre que não considero bonitos. Essa característica humana – a autonomia, o livre pensar – deveria ser sempre nosso guia.

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A dança do ventre deveria, portanto, nos proporcionar bem-estar. Mas insistimos em nos refletir em corpos ratificados por comerciantes. É uma dura luta, travada diariamente. Auto-estima é um elemento melindroso de nossa subjetividade. Danificá-la seriamente é bastante fácil.

Visitas e eventos

Então. Na semana passada, estive imersa em dois importantes eventos da minha vida: a visita da Samara e a celebração do Dia Internacional da Mulher na minha escolinha. Tudo junto. Então vamos por partes.

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1. A Vinda da Samy.

Na noite de quarta a Samara chegou. Eu estava ansiosa, era a primeira vez que conheceria de fato uma amizade firmada pela intesssnet. Fui buscá-la atrasada no aeroporto, pois o Frank Sinatra, meu gatinho dourado, precisou ser internado (passa bem, shukran). Encontrei uma moça altona de longos cabelos vermelhos, querida e doce. Tomamos várias cervejinhas, conversamos um bocadim, fizemos alguns planos para a visita da cidade. Praticamente todos frustrados. Essa coisa de organizar evento, vou te contar, ocupa a vida toda. Fiquei triste por não podermos ter passeado o tanto quanto eu queria pelo planalto central. A Samy viu o quanto trabalho e testemunhou meu estado de surto pré-evento. Samy é uma pessoa japonesa: de fala mansa, serena, anda devagaaaaaaar… acho que por isso não ficou brava com a correria. Demos uma circulada rápida na Esplanada e fomos ver o lago. Caminhei com ela pelas redondezas (Plano Piloto) só para que ela constatasse que é tudo igual mesmo.

peraí, Roberta!
peraí, Roberta!

Ela ficou de queixo caído com os preços das coisas por aqui e gostou mesmo foi dos picolés de frutas do cerrado. Quando ela foi embora, fiquei com aquela sensação de que poderia ter oferecido mais, curtido mais, passeado mais… O lance é que ela veio no meio da organização do tal evento, o …

2. … Dia Internacional da Mulher no AYUNY

Professora Carol
Professora Carol

Pense um evento simples. Coisa pequena mesmo, não é espetáculo. Era uma questão de disponibilizar mesinhas para montar um pequeno bazar, organizar as danças de professoras e alunas, planejar os aulões, garantir a comidinha e divulgar. Pois é. Nada nessa vida é verdadeiramente simples quando olhamos de perto. Até porque sou ligada a detalhes. E gosto que as coisas saiam conforme o planejado.

Maha
Maha

O fato é: não se faz um evento, por mais despretensioso que seja, sem planejamento e atenção total em sua execução. Somente assim evitam-se vexames e falsos imprevistos. Porque imprevistos sempre rolam (como professoras que desistem de dançar no dia e fotógrafo que simplesmente não vai). Mas a gente acaba contornando, pois, com o tal planejamento e mente desperta, alternativas surgem facilmente. Nossa. Nunca soei tão auto-ajuda antes em toda a minha vida.

Aline
Aline

E ainda tem a questão do por que celebrar o tal Dia Internacional da Mulher. Dividida que sou, quis primeiro politizar, fazer um evento com palestras e distribuição de panfletos feministas. Queria colocar no cartaz a lembrança das mulheres que morreram nesse dia. Bom, tenho um sócio, o Marido, que vetou: “É pra ser evento feliz, para alegrar as alunas, esqueceu? Deixa isso de politizar pra UnB”. Ah, é. Lembrei.  Daí fizemos um evento bem bellydance mesmo. Sem nem falar do que na verdade significa o 08 de Março. Tanto melhor. O evento foi maravilhoso, leve, divertido, despretensioso e com grandes danças. Os aulões lotaram e agradaram geral. O bazar tinhas roupas de babar.

Marquinhos e Luara
Marquinhos e Luara

No fim, quando a maior parte das pessoas já tinha se retirado, fizemos uma farofinha ótima: a Luara dançou ao som do derbake do Marquinhos e depois dançamos todas um shaabi bem bão, puxando a geral pra “pista”. Teve bão demais! Samy dançou também, mas não tinha mais fotografia. Mas, ó, ficou registrado na cachola.

Pessoas lindas!
Pessoas lindas!

E não choveu.

Plágio é demais, mister M!

Carta que enviei a Shalimar Mattar (responsável pela seção e editora), endereçada à Hayet (autora do texto)

Prezadas Shalimar, Hayat e Cláudia (Shalimar)
nunca nos falamos ou nos vimos pessoalmente, por isso gostaria de me apresentar a vocês. Sou Roberta da Rocha Salgueiro, 32 anos, residente em Brasília. Pratico dança do ventre há 14 anos e possuo um estúdio respeitado em minha cidade. Meu interesse pela dança é altíssimo, o que se reflete em todas as áreas em que atuo e estou sempre de olho nos acontecimentos de dança. Esta tarde, entrei em seu site para conferir a data do MP. Meu interesse era o de prestigiar o evento e, quem sabe, programar uma excursão. Andando pelo site, encontrei o link para a última edição da “Oriente”, publicada para o bimestre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Abri o arquivo muito feliz e tive a grata surpresa de ver a revista tão bonita e bem diagramada. Parabéns.

A satisfação, entretanto, foi breve. Deparei-me com o artigo sobre shaabi, assinado por Hayat, a convite de Shalimar e editado por Cláudia, e, já no primeiro parágrafo, experienciei a amarga sensação de reconhecimento do texto. Toda a primeira parte de “seu” texto foi escrita por mim em meu blog “Yallah”, em artigo publicado no dia 17 de julho de 2008. Certamente vocês sabem do que falo, mas segue o link: https://yallah.wordpress.com/2008/07/17/o-popular/

O que senti – e sigo sentindo à medida que escrevo esta mensagem – foi simplesmente frustração. Juntaram-se a este sentimento a raiva e, felizmente, a urgência em procurar soluções para a questão.

Há mais uma coisa a meu respeito que vocês provavelmente ignoram. Sou antropóloga, mestre e cursando doutorado. Minha pesquisa, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília e financiada pelo CNPq, é sobre a transnacionalização da dança do ventre. Você pode ver meu currículo aqui: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4769300E4

Uma pesquisa de doutorado exige um estudo minucioso não só do meu objeto (a dança), mas das instituições envolventes (a música, a história política do país etc). É um volume muito grande de leitura e dedicação intensiva às articulações entre idéias, autores, dados. Os frutos desse esforço são nossos textos. Os textos de meu blog não são apócrifos. Eu os assino porque investi nos dados que disponibilizo aos leitores.

Posso comprender que vocês não se sintam à vontade nas questões éticas acadêmicas e tenham realmente ignorado as implicações do plágio. Plágio, para uma estudiosa, é um insulto muito grande. Respeito pelas fontes é um dos alicerces morais da formação do pesquisador. Quando assinamos um texto, é necessário ter responsabilidade. Se não, melhor não escrever.

Não compreendo uma questão: se você, Hayat, foi até meu blog e interessou-se por minha pesquisa a ponto de mobilizar-se em sua replicação, por que não falou comigo? Bastava pedir a autorização para reproduzir o texto, mantendo íntegra minha propriedade intelectual. Outra alternativa seria citar, com uso de aspas e referência bibliográfica. Talvez, Claúdia e Shalimar, para deixar sua pequena publicação mais interessante vocês poderiam também ter me convidado para uma entrevista. Eu falaria sobre o tema de minha pesquisa de bom grado.

Note que essa atitude traz questionamentos ao trabalho de vocês de um modo geral. Convido vocês para refletirem comigo: como fica a imagem de uma pessoa que divulga um código de ética da dança do ventre (que, por sinal, reproduzi em meu blog, com fonte e tudo), mas que plagia texto alheio? Ainda além: como confiar na conferência que organizam pela primeira vez em no MP, se não sabem lidar com a propriedade intelectual alheia?

Vejo apenas um caminho para sanar tal agressão: a retirada imediata de circulação do exemplar virtual de seu site e uma retratação pública na próxima edição da revista. Observem que estou sendo generosa e não solicitei o recolhimento dos exemplares impressos.

Confio em sua capacidade reflexiva e aguardo uma resposta. Somente assim encerraremos o assunto e evitaremos levar a questão a instâncias mais cansativas, onerosas e vexatórias.

Cordialmente,
Roberta Salgueiro