Tremores

Que engraçado assistir com tanto prazer um vídeo da Saida. Essa bailarina que esteve no coração de muitos debates sobre a dança do ventre, da técnica à estética. Por várias vezes, Saida foi lida como a expressão de uma dança do ventre “dramatizada demais”, ou seja, cuja performance exagerava, por princípio, a expressão da dança. Tive vários debates sobre suas escolhas dramáticas e achava cafona alguns movimentos. De todo jeito, eu assistia os vídeos da Saida, de aulas e de shows, maravilhada com a incrível beleza de sua dança.

No vídeo acima, Saida, extraordinária, dança um solo de derbake, provavelmente em 2009, quando o vídeo foi postado, e se expressa com um shimmy que me emociona. Ver seu shimmy, igual ao da Zamzam, bem tensionado, preso, me tocou. Era o tremido que aprendi que era lindo.

Tô falando disso por quê? É porque sempre tem uma mané que te diz que o bão mesmo é outra coisa. Ouvi algumas vezes que o sensacional tremido que eu aprendi com minha professora não era o shimmy bom, ideal. Uma bailarina importante, diáfana e unânime, num workshop me garantiu que a leitura certa para aquele pedacinho da sequência que ela ensinava pra todo lado exigia um shimmie solto, com os joelhos moles, quadris soltinhos, tal. De repente não se usava mais esse esquema Suheir Zaki, vibração bem contida das carnes, aquela coisa de sentir subir do solo o tremido, que vibra do chão até chegar ao quadril, que incorpora o tremor ao movimento como se este sempre tivesse estado alo. Esteve em alta, então, um shimmie solto, molinho, joelhos mexedouros, quadril grandão etc. Uma tendência, possibilidade de interpretação… Mas o fato é que essa bailarina foi bem direta (meio grossa) e tola em comunicar uma tendência: esse seu shimmie não é suficiente. Acho que essa “orientação” me frustrou, ajudou a ter preguiça de dançar, mesmo eu sendo professora, diretora de grupo, diretora da escola. Dá preguiça ficar defendendo a criatividade na dança. Não tem só um jeito de dançar dança do ventre (só que há uns 10 anos atrás isso não era óbvio).

Porque você pode escolher usar só shimmy preso, aquele feito com as coxa presa, duras, de ódio da nação, ou aquele shimmy solto, molinho, malemolente, despreocupado… Olha só. Eu vim bem aqui disposta a falar só de dança, de técnica, de Saida, de shimmie…

A mensagem da pessoa, que divaga deveras, é, afinal, qual? Aí vai:

Você, jovem bailarina, use o tremido que quiser quando quiser e não deixe te falarem que um tipo de vibração é mais adequado que outro. Trema à vontade, preso ou solto, do jeito que quiser. Quem fala que certinho é de tal jeito é besta e não merece lembrança (mentira: pode lembrar pra achar horrível, aprender e não reproduzir).

Beijo.

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