Pesquisa, difusão e a queixa

Neste ano completam-se dez anos da defesa de meu doutorado. Além do marco pessoal, lembro também que foi a primeira tese no Brasil, até então, sobre a dança do ventre. Vou, inclusive, escrever sobre a efeméride logo mais, porque tenho sentido, uma década depois, afinidade novamente com o tema. Por ora adianto o que quem costuma passar por essas bandas já sabe bem: capinei muito mato, ajudei a abrir veredas. Hoje vemos muitas mulheres aguerridas explorando o tema em diferentes disciplinas: Educação, História, Arte, Dança etc. dentro da Academia, que não é uma arena generosa. Vejo avanços empolgantes. Daqueles temas que eu trouxe como novidade ou como repertório bibliográfico lá em 2012 desenvolveram-se novos estudos, com novas abordagens, mais informação e, principalmente, com intensa troca entre pesquisadoras.

Não sei, porém, como tem sido a recepção dessas pesquisas pelos pares dessas pesquisadoras, e me pergunto sobre o impacto de nossos esforços. Conseguimos difundir a pesquisa sobre a dança do ventre e ver o reverberar esse investimento intelectual? Em geral falamos com grupos fechados. Eu gostaria muitíssmo de ver uma pesquisa ampla sobre dança do ventre e imaginários locais. [sonhos, delírios? Ou possibilidades?].

Eu acho que fora da Academia as pessoas continuam tão ignorantes quanto antes sobre a dança do ventre, sua prática, sua história etc. Mudei de cidade, trabalho com e pesquiso outros temas, então pouca gente conhece minha longa história com a dança do ventre, que começa lá pelos idos de 1997 ou 1998 e vai até a venda da minha escola, em 2015. Quando conto que não só sei dançar (sabia, pelo menos) como ensinei muita gente, promovi eventos e sou especialista no tema, povo arregala os olhos, olha cima abaixo e baixo acima tentando entender. Há curiosidade: as pessoas perguntam sobre a dança do ventre e, em meio às perguntas, percebe-se o acúmulo de estereótipos, fetiches, toda aquela coisa que minha pesquisa e as das colegas mostraram ser engenhosas construções orientalistas. Persistentes, como convém aos estereótipos e às narrativas eurocêntricas.

Coisa de um mês atrás vi na Folha de São Paulo um pequeno informativo – chamado webstories – sobre a dança do ventre. Meu queixo caiu com tanta bobagem. Fiquei braba, frustrada, mas não sou mais assinante desse veículo golpista e deixei pra comentar depois. Contemplai:

Coisa de enlouquecer gente sã. Que lama esse tipo de “conteúdo” estar disponível como informação em um jornal de tão ampla circulação. Dá muito desânimo comentar, então vou apenas apontar os elementos mais absurdos. Chama a atenção que a imagem que ilustra o webstory é de uma bailarina caracterizada no estilo Tribal (menos mal: está em um campo semântico afim). O segundo story ok, apesar de ter pulado outras partes do globo que também teriam contribuído para a matriz de movimento. O terceiro story começa a horrorizar: desinforma que “historiadores” afirmam que “no Egito a dança tinha conotação religiosa, sendo realizada em rituais ligados à fertilidade de mulheres”. Quem, quando? A narrativa da americana Morocco sobre grupos étnicos marroquinos em trabalho de parto pode se aproximar disso, mas é longe de ser uma realidade histórica ou abrangente sobre a dança. O slide 5 é risível: surgimento das religiões monoteístas! Taí o fetiche do milenar e do sagrado juntinhos como reza a cartilha do exotismo/ orientalismo.

Tem mais desinformação histórica no slide em que colocam viajantes europeus e dançarinas em contato nos anos dourados: viajantes europeus tiveram contato com a dança praticada no Egito a partir de 1798, não de 1920. E de sobra vai aí o preconceito: a expressão “se aventuravam em viagens pelo Oriente” sugere que na segunda década do século XX o Oriente Médio era um lugar bárbaro, cheio de perigos. De certo só tinha areia, bandidos, serpentes e maldições faraônicas, além, claro, dessas dançarinas sagradas milenares. Por fim, nesse rolê da desinformação, afirmam que apenas em 1980 praticava-se dança do ventre no Brasil. Não é verdade. O último slide apresenta as “referências” e autoria desta pérola fosca e preguiçosa do jornalismo brasileiro.

Daí vem a inescapável e repetitivo questionamento das ciências humanas: pra onde vai o conhecimento que geramos a tanto custo nas universidades? Não aparece nas buscas do google? Há tanta coisa que me faz pensar nesse tipo de coisa postada na internet… Mas pior quando é um jornalão, um veículo que poderia apurar coisas e fazer uma pesquisa elementar. Para mim, isso indica desprezo pelo tema. Hoje vemos um bom número de publicações sobre dança do ventre. Não há como argumentar falta de fontes.

O negócio é que não se dá, de fato, valor ao dado histórico, coitado. Ou a antropologia, que tenta dizer que é imoral ou danoso você ignorar ou se apropriar dos saberes e técnicas locais. O esforço de construir o conhecimento precisa, portanto, ser aliado ao esforço da difusão do conhecimento acumulado. Essa difusão precisa transpor os campi e também as bolhas das redes sociais. Precisamos criar coragem e colocar a desconstrução da não-história e da anti-etnografia da dança do ventre pra jogo: ocupar o máximo possível os espaços populares e institucionais de debates sobre as danças não-hegemônicas (tô muito pós-moderna, decolonial, mas que outra linguagem poderia ser útil num caso desses?).

E você, Roberta Salgueiro, tá fazendo o quê? Tô aqui me queixando, comme d’habitude. A queixa, tão mal vista em tempos gratiluzes, é uma atitude corajosa e libertadora. Espero que anime as pessoas a queixarem-se também e que, da queixa irmanada, quem sabe, algo novo venha.

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