Tá viva?

 

Ressuscitei.

Parece que só pra contar má notícia, mas juro que não foi o objetivo.

Saí do Facebook por um tempo, por um motivo pouquíssimo nobre relacionado à nossa infeliz situação política, daí incrivelmente voltei a ouvir música árabe com prazer. Assim, de uma hora pra outra, um ano depois do extreme makeover. Achei apropriado.

E aí vou procurar uma letra de uma música num forum tão conhecido e descubro que aquela fonte de informação, de trocas e descobertas havia desistido de viver. Basicamente, a dona do site se cansou de ter aquele espaço querido preterido por um forum mais selvagem como os grupos do facebook.

Daí tem essa polêmica da “apropriação cultural” com a performance da Beyoncé . Minha tão humilde opinião: que merda horrorosa do caralho. Desculpem. Sobre o tema, sugiro os seguintes artigos:

  1. Beyoncé Appropriates Oum Kalthoum on Tour:”Beyoncé se apropria da música Árabe para uso comercial, exotizando Enta Omri com sua coreografia. Por um século, o mundo Árabe luta para livrar a região das representações exóticas do ocidente na arte, na televisão e no cinema.”
  2. Om Kalthoum: appropriation so sexy? Amo o modo como o autor conta a história da Suheir Zaki quebrando o tabu e resolvendo dançar Enta Omri, e a reação da Diva ao evento.

 

 

 

 

…to be continued

E não foi que o tema da nova Shimmie é justamente sobre eventos? Coincidência bem bacana. Daí dei uma esticada no assunto do último post por lá. Conta pra mim sua opinião? Obviamente seguiremos tratando disso quando for conveniente pra mim e interessante pra vocês (nessa ordem, sorry…) neste blog. Mas, ó, gostaria muito de ter opiniões aqui. Esse negócio de rede social rouba comentários dos blogs e sou muy antiga e fico sofrida. Então, se puderem, deixem um “alô” por essas bandas aqui… ^_~

Snujs, esses lindos!

Instrumento musical ou acessório? Snujs sempre inspiram medo e reverência. Meu primeiro contato foi com um daqueles recortadinhos, rasinhos, como uma flor. Som de latinha, mas ok para os estudos iniciais. Busquei mais informações, tentei ao máximo dominar aqueles quatro pratinhos selvagens, mas fiquei no baladi e no takatá.

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snujs humildes, mas limpinhos.

Juntar tudo isso com movimento foi complicado. Cheguei a fazer um duo com uma colega em 2010, mas comecei a estudar meeesmo foi quando Padma, a professora do avançado da minha escola, foi dançar fora e precisei assumir sua turma. Ela estava ensinando snujs e, de repente, eu lá estava coreografando Alf Leila we Leila (a clássica mais fácil que encontrei). Aprendi junto com as alunas. Foi sofrido.

Sabe por que?

Porque não entendemos nada de música árabe. Achamos que galope e baladi bastam pra fazer um show bonitinho e nos satisfazemos com isso. Subestimamos a música e nosso público (aliás, tema pra outro post: gostamos de achar que o público é mais leigo do que de fato o é). O negócio é que tentamos tratar a música árabe do mesmo modo preguiçoso como muitas vezes tratamos nossa dança; baseado no 1,2,3,4, na repetição de padrões e combos.

Só entendi isso direito anteontem, com a aula que fiz com a extraordinária Márcia Dib. Márcia esteve em Brasília para um evento lindo, a Primeira Semana Árabe Fearab Brasil. Ela deu uma palestra esclarecedora e cheia de poesia sobre seu estudo da música árabe. Trata-se de um trabalho de pesquisa aprofundada, cuidadosa e amorosa. Por sorte, duas professoras do Ayuny, Caroll Toledo e Iris, haviam se encontrado com ela no festival da Shimmie em SP e, interessadas em seus saberes, viram a possibilidade de uma aula particular na ocasião de sua vinda a Brasília. As professoras da escola nos organizamos e fechamos um grupo para a aula que mudou não somente nossa perspectiva sobre os snujs, mas ajudou a reestruturar nossos conhecimentos sobre a música árabe.

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Marcia Dib e eu. Empolgadíssima, claro!

Compreendemos que tudo o que sabíamos – e mesmo a mais sabida de snujs do grupo concorda – era um conhecimento de gavetinhas. Que a música árabe comportava nossa criatividade e desejo de criação. Aprendemos toques inusitados e desvelamos regrinhas bobas e paralisantes. Sabe aquele negócio todo de 1 dum, 2 dum, padrões, dedo esticado, dedo encolhido…? Balela que te afasta da experiência musical! Tocar snujs é mais do que seguir ritmos calculados; é viver e criar música. Aliás, que experiência maravilhosa foi ver a professora (é, Márcia, lascou, agora virou nossa professora!) tocar com Iris no derbake. Ali a gente viu todas as possibilidades de brincadeira e arte dos snujs da bailarina. Não do músico! Muito diferente.

Foram duas horas intensas que mudaram nossa relação com os snujs. Que não são acessórios. São instrumentos musicais que a bailarina, essa poderosa, toca. Se tiver oportunidade, estude com Márcia Dib e entenda que você também faz música!

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Reflexo de snujs em todas. Da esq: márcia, caroll, salgueiro, seabra, raquel, priscila e Iris. Bando de mulheres felizes!

Nossa amiga etiqueta

Tanta regra, tanta imposição! Essa é uma dança livre, sem regras ou fronteiras, pode-se fazer o que quiser, não? Não é bem assim. Essa é, sim, uma dança mundializada, transnacional; generosa, é praticada e ressignificada por qualquer pessoa que se proponha a dançá-la, mas não prescinde de cuidados. Cada uma de nós, praticantes, é responsável por sua imagem e há pequenos gestos que devem ser passados adiante para que a prática dessa dança conquiste o espaço e o respeito que merece. Além do estudo da história da dança, o apuro técnico e a entrega artística, devemos prestar atenção à nossa amiga etiqueta. Tem questões éticas no miolo, claro, mas essas foram tão banalizadas nesse meio – a maioria das que propagam códigos de ética são as mais anti-éticas – que prefiro pensar em atitudes elegantes, simplesmente. Proponho aqui cinco singelas dicas. Vamos a elas? Yallah:

1) Diga-me como se portas após o palco…

samiapesVocê dançou. Se dançou bem, está feliz; se dançou mal, está triste. Pode estar cansada, pode estar eufórica. Como todas no show, você está sujeita a mil sensações e pode ter feito das tripas coração para subir ao palco. Mas é aconselhável manter a postura de bailarina por todo o tempo em que estiver caracterizada como artista (i.e., alguém que apresentou um show para um público). Assim, se é convidada para o evento de alguém, esteja preparada para permanecer lá, de preferência com um sorriso no rosto, até os agradecimentos finais. Por diversas vezes vi bailarinas usarem o palco e saírem correndo para outro compromisso – mormente um evento familiar. Não ficar até o final é desrespeitoso. O que nos leva ao segundo tópico:

2) Suba ao palco somente se estiver preparada

cropped-ro4.jpgComo bem nos lembra minha querida amiga Paula Braz, você, querida artista, é uma prestadora de serviços. Como tal, deve dedicação ao público que paga para ver um bom show. Aluna que falta aula, ensaio, professora que apresenta leitura musical mal-feita por falta de estudo… Não teve tempo de estudar a música? Como assim? Tive uma conversa interessante com uma menina na escada de incêndio no Mercado Persa (a.k.a. fumódromo) deste ano. Ela estava ansiosa, era iniciante e iria se apresentar pela primeira vez em público. Cara, como uma professora coloca uma aluna iniciante sobre o palco de um evento como esse? Não seria mais apropriado promover pequenos eventos para amigos e família antes? Estrear para um público que espera excelência é ser jogada aos leões. Fuja, aluna! Run for your life! Mude, professora! Aprenda a cuidar de quem confia sua autoestima a você.

3) Figurino é para o palco! 

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Contenha sua vontade de exibir aquele figurino lindo para todos na rua. Pega mal demais. Use uma abaya, que é basicamente uma capa, para circular de figurino fora do palco e dos bastidores. Pode até improvisar um véu enrolado se não tiver algo mais apropriado. “Mas o corpo é meu, exibo como quiser!” Sério que sair vestida de bellydancer é sua proposta política? Logo em dia de show? Para não achar que é moralismo meu, dá só uma olhada na opinião de outra pessoa do meio, a Vera, aqui, ó. Se apruma, menina!

4. Quem é a professora, afinal?

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Essa é para as estudantes. Não corrija ou tente “ajudar” a coleguinha durante a aula sem ser solicitada. Aliás, se a colega pedir ajuda, ofereça o esclarecimento de que há uma professora em sala de aula justamente para ajudá-la. Além de ser um nicho perfeito para a proliferação de boatos e mal-entendidos, essa “ajuda” atrapalha a aula, desautoriza a professora e pode levar a enganos/erros/lesões. Afinal, a professora é a responsável pelo ensino e bem-estar de todas da turma.

5. Guarde sua arrogância para você.

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Porque aconselhar a abandoná-la não é minha praia. Quem nunca? Mas dá para segurar a onda, ainda mais se você é considerada uma referência em qualquer coisa. Se a dica anterior foi para as singelas estudantes, essa é para os medalhões da dança. Cuidado com o modo como se refere ao trabalho do outro. Lembro-me perfeitamente de minha primeira visita a um bem-conceituado centro de dança em SP, anos e anos atrás.  Eu e minha aluna fomos recebidas pelo proprietário que, enquanto nos regalava com poses para fotos, perguntou onde estudávamos. Contei que era professora e imediatamente ouvi: ” Ra ra ra, engraçado como em Brasília só tem professora!”. Fiquei muda. O que essa pessoa sabia a meu respeito? Nada. Mas se julgou no direito de duvidar/ironizar minhas afirmações. Para esse sujeito, professora provavelmente eram apenas as que ele conhecia. Podre. Passei por outras demonstrações gratuitas de arrogância, inclusive esse ano, no MP. Mas esse exemplo é o que melhor ilustra a) a desinformação quanto o nível de profissionalização em outros centros de dança fora de SP, b) o despreparo de profissionais nacionalmente conhecidos no trato com o público e c) a arrogância pura e simples de muitos desses profissionais.

Enfim, queridas bailarinas, essa é minha pequena contribuição para um mundo melhor.

Algumas poucas linhas

Gosto demais do meu blog para vê-lo morrer. Minha solução para evitar isso é ir escrevendinho coisinhas simples, contando o cotidiano. Mesmo que seja na linguagem do twitter, do menor esforço de esclarecimento e tal.

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Então aí vai.

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Ego pouco é bobagem. Tem essa outra filmagem da minha dança aqui, ó. Dá pra ver a expressão e a extensão da banha abdominal. Dá pra ver melhor os movimentos também. Eu realmente gostei da dancinha. Queria que todas as improvisações fossem bem-acabadas como essa e tal. Não é grandes merdes. Mas eu gosto.

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Nem fui pro festival da Luxor fazer aula com o Tito. Faltam duas semanas para o espetáculo do AYUNY e tem rolado umas chateações bem… chatas? De todo modo, o espetáculo vai ser grande, enorme. É dos 10 anos da escola e estou trazendo a Polimnia Garro e apoiando a vinda da Paula Braz. O nome, “Mabruk”, é um mega parabéns para a escola e para a cidade de Brasília.

Pra escola porque sobreviver 10 anos no mercado não é bolinho. Sobreviver 10 anos com elegância, então… ufa! Que lindo é o AYUNY. Falou mal da minha escola, falou mal de mim, tipo isso.

Pra Brasília porque, coitada da cidade, taí há 50 anos. Com muita sacanagem, muita burguesia retardada e tal e coisa. E em pé. Quem é de Brasília entende o desânimo. Mas tamos de governador novo e a esperança é o último recurso, né?

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Minha tese? Tá geladinha, geladinha.

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Tem work da Polimnia Garro um dia antes do “petáculo”. Fiz 2 works com ela e uso até hoje o que aprendi. Amo muito. Se quer fazer também e estudar com uma mulher bacana, talentosa e mega didática, veja os detalhes na foto abaixo (é só clicar que a imagem fica legível).

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Tô tensa, muuuuito nervosa. Mas minhas turmas estão lindas, dedicadas e as coreos são muito boas. Não, não sou humilde. Mas isso não é novidade, é?

 

Receber, realizar, fazer acontecer

Tive a super oportunidade de receber, nesse último fim de semana, em minha escola e em minha casa a queridíssima Paula Braz, da Cia Xamã Tribal. Conhecemo-nos em junho, quando ela ofereceu um curso introdutório do estilo tribal em minha escola, mas tivemos pouca oportunidade de trocar idéias. Ela fez um show impecável. Combinamos um curso continuado de aprofundamento no tribal fusion, com coreografia para apresentação no nosso espetáculo, no dia 02 de dezembro.
Orçamentos apertados e muita vontade de mexer no cenário artístico fizeram com que nossa reunião fosse ainda mais especial: a Paula ficou aqui em casa, com um bando de gatos alucinados, pêlos por todos os lados e o medo de que a reação dos bichanos resultasse em atitudes anti-sociais. Coisa que só gente muuuuito gente-boa toparia. E foi fantástico! Os gatos se comportaram muitíssimo bem e a Paula, cara, só sendo muito complicado para não querê-la bem. Que moça querida!
Não assisti a toda sua aula (acho indiscreto ficar bicando aula alheia), mas o pouco que vi me capturou. Que elegância! Ouvi a aula e fiquei muito feliz com sua didática, com a necessidade de contextualizar o movimento e a própria dança, coisa que a dança do ventre, em geral, dispensa.
Temos muito, de fato, a aprender com o tribal. Por exemplo, como ser menos caretas, mais integradas, mais interessadas, mais livres e a um só tempo mais disciplinadas. A postura e os isolamentos do tribal são fruto de disciplina e dedicação. A bailarina do ventre não raro acha que tá linda só de fazer um camelinho tremido.
A Paula volta no próximo mês para dar continuidade ao curso. Estou, já, com saudades do sotaque, da doçura e da inteligência dessa moça.