Bolhas

Mais de ano de pandemia, com todo o peso que esse tenebroso acontecimento nos acomete e toda a correnteza que nos impulsiona (para baixo, para adiante, para as margens, à escolha da freguesa). Nesse flagelo, sem grandes incursões sociológicas, podemos afirmar que os artistas estão entre os profissionais mais atingidos. Porque desde sempre pouco valorizados, mal remunerados, aos trancos e barrancos, soprando poesia para pagar a fantasia etc.

Já que esse blog aqui tem foco e não quero chorar pensando na situação dos músicos, dos ambulantes, dos desempregados em geral, bora pro que interessa, que é reclamar das coisas e dizer coisas aleatórias refletir sobre a dança do ventre e sua prática. Como tem se desenrolado a cena da dança do ventre nesse apocalipse? Nessa toada, desde março de 2020, vimos uma profusão de shows solidários em lives, uma espera esperançosa pela “normalidade”, depois a caída na real, estúdios e casas de shows fechando, as aulas online, a profusão de “conteúdo” para debates em redes sociais, uma produtividade às vezes desesperada – muitas vezes desesperadora – e muitas dicas de que está tudo bem estar mal, faz aqui uma aula online pra ver se a coisa melhora.

Aqui, te explicar: nada contra aula online. Acho triste, só, já que perde-se ali o que compreendo como uma das principais motivações para a prática. Quando dava aulas e também ao longo de minha pesquisa pude perceber que a maioria das alunas de dança do ventre é constituída por mulheres adultas, com carreiras profissionais estabelecidas, que foram buscar a dança para aprender não apenas a se relacionar novamente com os próprios corpos, mas também para relacionarem-se com outras mulheres. A sala de aula espelhada é um espaço de trocas, acho que disse isso em algum lugar da minha tese, não me lembro, mas acho. Eu mesma quando mudei-me para Minas pensei em entrar em uma aula de dança do ventre para conhecer gente. Não entrei por motivos de desempregada, depois empregada ocupada, depois pandemia.

Quando comecei a fazer aulas, lá por 1998, eu queria era aprender a ser linda, poderosa, charmosa, dançar mesmo e estava nem aí pras coleguinhas. Isso é coisa de jovem-jovem. Jovens adultos, esses seres com idades entre 30 e 55, vão pras práticas coletivas caçar uma turma. Isso mesmo, habibiti, é que a vida adulta aniquila tudo. Imagina se você ainda por cima acabou de começar a criar filhos e tal, e vive entre a rotina doméstica e o mundo do trabalho. Uma bolha insuportável.

Daí você procura uma outra bolha, onde você poderá encontrar pessoas que vivem bolhas parecidas com a sua, só que agora compartilhando experiências de uma bolha muito mais brilhante, com contornos de strass e lantejoulas (acho que não se usa mais. Será?). A vivência de rir junto com as colegas das dificuldades em executar um movimento, as fofocas paralelas, as feirinhas, chás e outras confraternizações, todo o fuzuê de camarins das apresentações. Isso não existe nesse novíssimo mundo in silica.

Esse tipo de troca, baseada no encontro para aulas, nos eventos, na cumplicidade de olhares e sorrisos não é reprodutível nas telas. Essa ausência, esse lapso de sociabilidade, é só mais uma pequena falta, uma partícula no mar de perdas múltiplas resultantes da pandemia.

(Pausa pra política, habibiti: pandemia, bora lembrar, possivelmente resultante da agressão à biodiversidade e agravada pelo absoluto descompromisso com os direitos humanos)

Queixa registrada com quase sucesso, o que fazer? Além de usar máscara e exigir vacina e responsabilização de dirigente genocida, ficar em casa o máximo possível e fazer aula virtual, né? Pelo menos você aprende a dançar, conhece uma música diferente, não fica com as cadeira dura, apoia as profes e previne varizes.

Um comentário sobre “Bolhas

  1. Pois é. Acho que as pessoas tiveram o direito de reagirem como puderam/quiseram; afinal, pandemia não é coisa do dia-a-dia. Eu basicamente, só faço aula online hoje em dia porque não gosto do formato da cidade onde moro. A gente ajusta como dá.

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