Não me pagaram, tá?

A Gilded Serpent, minha revista preferida sobre dança do ventre, tá bombando. Ó:

Uma leitura interessante sobre o fusion.

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Um esfoço de inventário do trabalho de estrangeiras no Cairo.

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Uma entrevista com Farida Fahmy revela o que ela realmente pensa sobre a atual Reda Troupe.

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Leila, uma bailarina americana muito inteligente e que dança no Cairo fala sobre os diferentes públicos da dança e nos lembra que dançamos sempre para bailarinas, diferentemente do mundo árabe, onde a dança é entretenimento para não-profissionais. Muito bom. Vai aí um destaque para se pensar:

Orientalists generally pick the shiny parts of whatever Arab object catches their eye, and leave the rest in the cultural muck.

Espetáculos: melhor com eles!

Finalmente um arremedo de férias! Minhas últimas aulas serão nessa quinta. Depois, relaxo ao menos uma semana com o celular desligado e volto ao trampo. Com mais tranquilidade e a esperança de novidades que sempre vem com a virada do ano. É, o tempo de quem produz dança destoa da temporalidade média: meu ano acaba quando acaba o espetáculo. O deste ano foi lindo, lindo, lindo, lindíssimo. Sério. Bom mesmo. Sou crítica, chata. E achei muito, muito bom, apesar de todo o descabelo que foi, desde setembro.

Parece loucura, mas produzir um evento me faz envelhecer e rejuvenescer ao mesmo tempo. É uma tensão alucinada, que só se vai nos momentos iniciais do espetáculo. Porque depois das cortinas abertas, baby, não há muito o que fazer além de contornar pequenas bobagens. Estresse sério mesmo rola é antes. Duvida? Então puxa o tapetinho porque lá vem história.

Todo mundo junto!

O espaço

Em primeiro lugar, para produzir um evento de grande porte – neste espetáculo contamos com um elenco de 78 pessoas – é necessário pensar o onde. Havia um teatro maravilhoso na cidade onde tradicionalmente produzíamos nossos espetáculos. Entramos nos trâmites tradicionais em junho, pensando em realizar o evento no primeiro sábado de dezembro e tivemos a reserva da pauta confirmada. Em fins de setembro cancelaram todas as pautas. Por que? Não se sabe. Sei apenas que não foi apenas conosco. De todo modo, o estrago estava feito. Em cima da hora, como conseguir pauta? Contratempos são, felizmente, também oportunidades para novos contatos e situações: conseguimos a pauta do Teatro da Escola Parque, o primeiro teatro de Brasília. Menor (370 lugares contra 500 do teatro anterior), mais antigo, mas com cadeiras maravilhosas, poltrononas, bem ao estilo que não existe mais, que prioriza conforto. A chateação foi que precisaríamos nos contentar com uma quinta-feira, dia morto para Brasília, cidade de funcionários públicos. Ça va.

Eu e a linda Liz!

A configuração do espetáculo

Cansada, fim de doutorado, estressada, precisei ainda lidar com saída de professoras e de uma colaboradora importantíssima para a realização do evento. Eu estava sozinha de verdade. Eu e o Alex, que tem por função cuidar da parte bruta: o financeiro. Sem funcionários e colaboradores. Assim, contava com as professoras para não tumultuarem o meio-de-campo. Muitas foram excelentes, mas há as meninas que não se dedicam tanto e que embromam loucamente para enviar as músicas e mesmo para entender a proposta do espetáculo. Passei perrengue, passei raiva, aprendi.

As alunas

Pela primeira vez, precisei dançar com as minhas alunas. Uma de minhas alunas adoeceu na penúltima semana antes do espetáculo. Minhas coreografias são feitas com desenhos que levam em conta cada uma das meninas, suas potencialidades e dificuldades. Ou seja, ou eu mudaria todo o desenho coreográfico ou assumiria o papel da moça. Lá fui eu. Isso gerou um estresse extra, afinal, fazer a coreo para o corpo do outro não é a mesma coisa de executá-la bem. Além do mais, nunca havia me apresentado com grupo antes. Fiquei insegura e com medo de prejudicar as meninas. Mas nem conto: me diverti horrores!!! Errei. Mas tava com a cara boa, nem acho que fez tanto feio assim. De todo modo, é aquela coisa: minha perspectiva mudou; consigo ver melhor agora a posição das alunas.

O computador

Meu computador caiu, quebrou e morreu. Siiim! Quatro dias antes do espetáculo. O computador com tudo, absolutamente toda a minha vida dentro. Aprendi mais uma coisa: quando o bicho tá pegando e acontece uma coisa como essa, a única opção é relaxar. Simplesmente deixar a coisa rolar.

Equipe porreta!

E a coisa rolou. Teve mais chaturinhas e preocupações assombrosas. Mas, amiga, o show foi tão bom, tão bom, que só consigo pensar na analogia do parto: não importa quanta dor e medo a coisa acarretou, se o resultado foi algo vivo e lindo.

Amani

Por acaso fui atrás de um determinado vídeo da Amani e acabei encontrado o que mais queria rever. Graças à L ory, que colocou lá pra todo mundo ver, a chjuventude moderna bellydance pode apreciar a técnica e graça dessa libanesa absoluta que consegue ser forte e doce a um só tempo. Ela faz tosqueiras em várias performances e as despista com movimentos muuuuito poéticos. Entorta a leitura musical.

Nesse vídeo aí embaixo ela é simplesmente linda, sensual, doce e autêntica. Sinto muita falta de referências como ela na dança do ventre de 2010.

E aí vai um baladi da moça (não, não é meu preferido, assim como o da Saida também não é. Pra baladi curto mesmo é dança egípcia, fechadinha e tal e coisa):

Como foi…

…a Mostra AYUNY de Dança do Ventre e Folclore Árabe 2010?

Tudo indicava que seria sofrível. Baixa venda de ingressos antes do evento, divulgação fraquíssima (no último ano do doutorado, perdi um pouco o foco e sequer publiquei o cartaz aqui, em meu próprio blog), poucas turmas da escola participando, professora que se machucou… No dia do evento foi o vamo-que-vamo de sempre: estamos na chuva pra molhar mesmo, então não vamos deixar a peteca cair. Mas a tensão ainda estava no ar: os camarins, colados ao palco, não podiam ser utilizados durante o evento, pois poderia atrapalhar a iluminação. Sendo um teatro menor (250 lugares), não tinha walkie-talkie. Gelei. Mas tudo correu bem, mais do que bem.

Lotou. As pessoas vieram! Fiquei tão feliz… Todas entenderam o lance dos camarins e acabaram se ajudando,  curtindo. Sem o walkie-talkie, todo mundo entendeu que a entrada tinha que ser feita na horinha no blackout, sem atrasos, e que tinha que sair do palco voado. E funcionou. Tudo na paz, cada profe cuidando de suas pupilas, as professoras em alunas em palco se ajudando e as convidadas super queridas e sem frescuras!

Acabou sendo um dos melhores shows do Ayuny. Sem estresse, com muita alegria e simplicidade. Quero que seja sempre assim, em clima de colaboração e a simplicidade de se festejar a dança.

Recebemos a Paula Braz, de São Paulo, para uma apresentação na Mostra e um work de tribal no domingo. Que pessoa doce, simpática, competente e querida! Fez uma apresentação poderosa e o work dela foi muito bom! A parte teórica foi bacana demais, ela explicou tin-tin por tin-tin o desenvolvimento do estilo e as nunces interpretativas. Estamos pensando em um projeto mais amplo. Torço para que role!

Outra convidada super especial foi a Nara Faria, artista daqui, do DF, que quebra tudo em sua dança sem rótulos. Não é tribal, não é dança do ventre, não é contemporânea. É uma dança híbida, bonita e poderosa.

Enfim, como disse a Iris, superou muito as expectativas para uma mostra.

Dancei “Basbousa”, uma música popular de que sempre gostei. Improvisada, livre e solta. Só não gostei do meu vestido. Definitivamente, não foi feito pra mim, me deixa atarracada. Aposentei o coitado na hora. Minhas alunas dançaram direitinho, apesar de eu ter sentido falta de energia e sorrisos da parte delas. A Liz deu um show com suas alunas com lindos vestidos dourados, cada uma enrolada em seu meleah. Gamila iluminou geral com sua galabia amarela. Foi tudo bonito mesmo. E simples, tranqüilo, redondinho. Talvez a energia do lugar, mas prefiro acreditar que tenha sido crédito da energia da gente mesmo, professoras, alunas e convidadas.

A Amanda, professora da escola e pessoa super-mega-ultra querida, também escreveu as impressões dela em seu blog: http://passoecontrapasso.blogspot.com/2010/05/mostra-de-danca-do-ayuny.html

Coreografia, orgulho e afins.

Peeeense em um movimento muito difícil de sair em uma coreografia cujo tempo de ensaio foi de aproximadamente 3 meses. Esse foi o tal do rodo. Imagino que esse movimento tenha um nome melhor definido em alguma outra dança – vou perguntar depois pra Gamila – mas pra gente funcionou esse mesmo. É quando as bailarinas, alinhadas, se deslocam juntas, para trás, sem perder a forma. Foi punk. Até na passagem de palco rolou minhoquinha. Mas o palco tem uma mágica louca que faz com que as coisas mais tensas dêem muito certo (por outro lado, coisinhas simples, como ficar na posição até o apagar das luzes, podem não funcionar como o esperado).

Inteligentes e cooperativas!
Inteligentes e cooperativas!

O resultado me encheu de orgulho. O rodo saiu certinho. A dança foi toda bonita e emocionante. O mérito não é todo meu, claro. Nem somente de cada uma. O mérito é do espírito do grupo.  Entendi isso melhor depois que fui fazer uma aula com a Gamila, colega professora que se debruça seriamente no estudo da dança. Ela estava aplicando uma técnica bacanérrima de improvisação em grupo e começamos a conversar sobre suas possibilidades: um grupo não afinado consegue improvisar junto? “Dificilmente” foi sua resposta.

Não havia improviso ali. Minhas alunas dançaram uma coreografia – composta por mim e entremeada de trechos compostos por elas em uma tarefa de aula. Todavia, para que a coisa funcione bem, precisa haver cumplicidade e confiança. Dançar com alguém de quem não se gosta é uma tarefa dificílima. Com pouco tempo de ensaio, então, seria impossível.

Todas juntas são flecha e arco!

Não é o mesmo grupo da coreografia do jarro. Mas as que ficaram trataram de receber muito bem as novas colegas e o clima de amizade e cooperação foi essencial para o sucesso da dança. Muito orgulho. De mim, delas e da boa relação que a dança pode proporcionar. Dançar só vale a pena assim.

Depois do avançado vem o que?

Em janeiro o Ayuny vai lançar seu método. É. Método para o ensino da dança do ventre. Já começamos a aplicá-lo parcialmente, ao menos no tocante às diretrizes gerais para o desenvolvimento da aluna e as regras de mudança de nível. Em nossa escola organizamos o aprendizado da aluna nos seguintes níveis: básico A e B, intermediário A e B e avançado. Nenhuma novidade nisso. O método não revoluciona aí, mas sim no conteúdo que se espera que uma aluna apreenda para a mudança de nível.

O mais importante não tá bem aí. O importante é que as turmas não mudam de nível como um todo; a aluna é que muda de turma/ professora. E isso desata um pouquinho de chororô. Pelo que pude aferir, mais das professoras do que das alunas. Expliquei às minhas alunas de iniciante logo no início: vocês irão se desenvolver e passarão para outra professora. “Ah, não!”, “Ah, fom!”, “Ah, nem!” Até que elas viram a carinha da próxima profe e ouviram mais um pouco sobre a cuidadosa seleção de profes da escola e tal e coisa. Daí se empolgaram e ficaram felizes.

Só que a maior parte das professoras que conheci nessa vida se apega mais às alunas do que estas a elas. Já rolou comigo. Quando comecei a alçar vôo rolou desconforto; quando alunas alçam vôo dá aquela dorzinha de saudade. É isso aí mesmo, assim é a vida, que é uma loucura, um eterno aprendizado [/Narcisa].  É importante mudar de professora sim. É primordial, principalmente depois do intermediário. Porque a bailarina vai se formando. Se fica com a mesma “tia” a vida toda, vira um pastiche dessa tia. Não desenvolve estilo próprio, leitura musical própria, coreografias próprias. Vira tudo uma cópia da professora. Ruim, né? Você não quer pra você. Vai querer isso para suas alunas? Não.

Então aí começa outro dilema: a idéia de subir para o avançado ou para o inter B não agrada a algumas alunas. Talvez por medo da resposabilidade para algumas, já que nesses níveis espera-se que as alunas já esbocem autonomia. Mas na maior parte das vezes eles têm medo de que a brincadeira acabe. Porque é bom demais só ficar fazendo aulinha. Bão demais encontrar a mesma turma, dançar sem muita preocupação. E aí a dúvida: “depois do avançado vem o que?”

Vem o que você quiser. Vem mais aulas. Vem a possibilidade de ir fazer aulas na turma que quiser porque a professora X tem um estilo único e interessante de ensinar. Vem a possibilidade de fazer aulas com um músico que vai te virar de cabeça para baixo. Vem a possibilidade de enfrentar ainda mais aulas e se tornar uma professora. Ou você pode simplesmente continuar dançando, cada vez mais autônoma, na escola ou fora dela.

Parece cliché, mas é uma verdade: não há professora que não precise mais de estudos. Estudar sozinha a vida toda não é uma opção. Precisamos a todo o momento aferir nossa capacidade e apreender novas maneiras de dançar, entender a dança, ensinar. A professora ou qualquer outra profissional da dança que não segue tomando aulas estagna. Estagnada, como seguir cativando?