Nossa amiga etiqueta

Tanta regra, tanta imposição! Essa é uma dança livre, sem regras ou fronteiras, pode-se fazer o que quiser, não? Não é bem assim. Essa é, sim, uma dança mundializada, transnacional; generosa, é praticada e ressignificada por qualquer pessoa que se proponha a dançá-la, mas não prescinde de cuidados. Cada uma de nós, praticantes, é responsável por sua imagem e há pequenos gestos que devem ser passados adiante para que a prática dessa dança conquiste o espaço e o respeito que merece. Além do estudo da história da dança, o apuro técnico e a entrega artística, devemos prestar atenção à nossa amiga etiqueta. Tem questões éticas no miolo, claro, mas essas foram tão banalizadas nesse meio – a maioria das que propagam códigos de ética são as mais anti-éticas – que prefiro pensar em atitudes elegantes, simplesmente. Proponho aqui cinco singelas dicas. Vamos a elas? Yallah:

1) Diga-me como se portas após o palco…

samiapesVocê dançou. Se dançou bem, está feliz; se dançou mal, está triste. Pode estar cansada, pode estar eufórica. Como todas no show, você está sujeita a mil sensações e pode ter feito das tripas coração para subir ao palco. Mas é aconselhável manter a postura de bailarina por todo o tempo em que estiver caracterizada como artista (i.e., alguém que apresentou um show para um público). Assim, se é convidada para o evento de alguém, esteja preparada para permanecer lá, de preferência com um sorriso no rosto, até os agradecimentos finais. Por diversas vezes vi bailarinas usarem o palco e saírem correndo para outro compromisso – mormente um evento familiar. Não ficar até o final é desrespeitoso. O que nos leva ao segundo tópico:

2) Suba ao palco somente se estiver preparada

cropped-ro4.jpgComo bem nos lembra minha querida amiga Paula Braz, você, querida artista, é uma prestadora de serviços. Como tal, deve dedicação ao público que paga para ver um bom show. Aluna que falta aula, ensaio, professora que apresenta leitura musical mal-feita por falta de estudo… Não teve tempo de estudar a música? Como assim? Tive uma conversa interessante com uma menina na escada de incêndio no Mercado Persa (a.k.a. fumódromo) deste ano. Ela estava ansiosa, era iniciante e iria se apresentar pela primeira vez em público. Cara, como uma professora coloca uma aluna iniciante sobre o palco de um evento como esse? Não seria mais apropriado promover pequenos eventos para amigos e família antes? Estrear para um público que espera excelência é ser jogada aos leões. Fuja, aluna! Run for your life! Mude, professora! Aprenda a cuidar de quem confia sua autoestima a você.

3) Figurino é para o palco! 

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Contenha sua vontade de exibir aquele figurino lindo para todos na rua. Pega mal demais. Use uma abaya, que é basicamente uma capa, para circular de figurino fora do palco e dos bastidores. Pode até improvisar um véu enrolado se não tiver algo mais apropriado. “Mas o corpo é meu, exibo como quiser!” Sério que sair vestida de bellydancer é sua proposta política? Logo em dia de show? Para não achar que é moralismo meu, dá só uma olhada na opinião de outra pessoa do meio, a Vera, aqui, ó. Se apruma, menina!

4. Quem é a professora, afinal?

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Essa é para as estudantes. Não corrija ou tente “ajudar” a coleguinha durante a aula sem ser solicitada. Aliás, se a colega pedir ajuda, ofereça o esclarecimento de que há uma professora em sala de aula justamente para ajudá-la. Além de ser um nicho perfeito para a proliferação de boatos e mal-entendidos, essa “ajuda” atrapalha a aula, desautoriza a professora e pode levar a enganos/erros/lesões. Afinal, a professora é a responsável pelo ensino e bem-estar de todas da turma.

5. Guarde sua arrogância para você.

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Porque aconselhar a abandoná-la não é minha praia. Quem nunca? Mas dá para segurar a onda, ainda mais se você é considerada uma referência em qualquer coisa. Se a dica anterior foi para as singelas estudantes, essa é para os medalhões da dança. Cuidado com o modo como se refere ao trabalho do outro. Lembro-me perfeitamente de minha primeira visita a um bem-conceituado centro de dança em SP, anos e anos atrás.  Eu e minha aluna fomos recebidas pelo proprietário que, enquanto nos regalava com poses para fotos, perguntou onde estudávamos. Contei que era professora e imediatamente ouvi: ” Ra ra ra, engraçado como em Brasília só tem professora!”. Fiquei muda. O que essa pessoa sabia a meu respeito? Nada. Mas se julgou no direito de duvidar/ironizar minhas afirmações. Para esse sujeito, professora provavelmente eram apenas as que ele conhecia. Podre. Passei por outras demonstrações gratuitas de arrogância, inclusive esse ano, no MP. Mas esse exemplo é o que melhor ilustra a) a desinformação quanto o nível de profissionalização em outros centros de dança fora de SP, b) o despreparo de profissionais nacionalmente conhecidos no trato com o público e c) a arrogância pura e simples de muitos desses profissionais.

Enfim, queridas bailarinas, essa é minha pequena contribuição para um mundo melhor.

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Folk, show, contemporaneidade (essa malvada)

foto: Al-Ahram weekly
foto: Al-Ahram weekly

Lembra que eu tinha inventado de coreografar uma dança fallahi? Pois segui mesmo em frente e, em julho, as meninas vão dançar com jarro e tal. A música é bem óbvia, do Metkaal Kenawe. Porque dentre outras dificuldades em se estudar folclore está a escassez de acervo musical. Encontrei ótimas músicas caipiras do Egito, mas poucas com apelo pra palco. E o palco, minha amiga, é determinante na dança.

Uma coisa é dançar em casa, sozinha, ou num chá com as colegas. Outra coisa é se apresentar em restaurante. E ainda outra é mostrar os dentes no palco. Sozinha você pode entrar em transe com o mizmar e ninguém mais vai se incomodar. Quando você vai entreter o alheio, aí o folclore mostra sua face maligna. Como eu disse alhures, folclore é aquela coisa meio sem limite: a) você pode ser apenas uma na roda; se você se cansar, outra pessoa entra no jogo; b) as músicas são repetitivas; c) a equação tempo-diversão é absolutamente diferente do experienciado na lógica comercial.

Então fechamos com nosso amigo Kenawe e começamos a coreo. Comé que vai ser o jarro? Eu sugeri usarmos moringas, pelo formato bonito mesmo. Qualquer coisa desde que seja significativamente grande. Coisa feia é ver aquelas apresentações com jarrinho de flor. Deprê. Se você vai buscar água lá longe, que carregue um vasilhame de respeito (tudo bem que área rural em geral usa atualmente vasilhas de plástico pouco românticas para carregar água. Triste, real, nada poético, pouco provável de se transpor em um show de dança do ventre). Daí vêem as dúvidas: puxa, e se for pesado demais e machucar o ombro? E se a gente fizesse um molde em gesso, que é mais leve? E se usássemos ânforas? Ficamos de pensar direitinho e resolver nas próximas semanas. A apresentação é só em julho.

E a roupa, minha gente? Ó, nego lá do interior do Egito usa galabeya bem fechada e larga.  E o figurino eternizado pelo Mahmoud Reda, com trancinhas, camisolão com babadinho na ponta e estampa tosca não ajuda. Acertamos então uma galabeya bem bellydance, justinha na parte superior e soltinha embaixo. Na boa? Sem culpa.

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Sinceramente me pergunto quanto ao real status do folclore na dança do ventre. Como me disse outro dia a Lid, dança do ventre é fun, pura diversão. Não dá para ficar pressionando. Se eu for tentar reproduzir a realidade folclórica egípcia sobre um palco, em primeiro lugar não haveria muito o que se apresentar: como no Brasil, poucos aspectos folclóricos campesinos sobreviveram à pauperização da área rural, à massificação do entretenimento e à migração dos jovens para os grandes centros urbanos. Algumas tradições que celebramos na dança do ventre simplesmente não existem mais, como o meleah laff. As egípcias não usam mais o meleah, como mostra essa breve notícia do Al Ahram. A busca pela água não é nada romântica. As pessoas sofrem. Enfim.

A discussão, claro, é bem mais complexa do que podemos resolver em um post de blog. E ando bastante mal-humorada. But the show must go on [/Queen]

Algumas opiniões

Há um tempo, respondi a um post na comunidade Dança do Ventre com Liberdade no orkut. O tópico era “Por que a DV ainda é tão amadora?” e conclamava os membros a responderem a algumas pergundas. Respondi lá, mas o tópico michou. São questões interessantes, por isso posto aqui minhas respostas e sigo com mais comentários.

Certamente esta é apenas minha humilde (pero no mucho) opinião. Mas é o pontapé de um debate que pode ser muito interessante.

Vamos lá:

1. “Por que o meio da DV ainda é tão amador?”
Essa é a mais complexa. Acho que a comercialização da dança como apoio terapêutico tem alguma responsabilidade nisso. A falta de estruturação de um curriculum (uma faca de dois gumes) e a absoluta ausência de controle na especialização, idem.

Essa parece ser a questão que mais inquieta as bailarinas sérias, gente que realmente se dedica à dança, gosta dela e quer vê-la crescer. Quando falo de estruturação de curriculum e ausência de controle na especialização, também me inquieto. Porque a dança agora parece ter concretamente se transnacionalizado (é apropriada e “modificada” por diferentes nacionalidades), mas ainda se presta tributo à sua origem árabe. Poucas realmente negam essa origem. E transformá-la a ponto de fazer dessa dança uma prática de academia (como o balé) seria ratificar a expropriação.

2. “Por que ainda se diz que essa dança é da deusa sagrada?”
Porque tudo que é “oriental” acabou sendo sacralizado ou associado à não-racionalidade em vários meios de comunicação, desde muito e a partir do século XVIII especificamente (Ó o Said aí, gente! Opa, ó o Weber também aí, gente!).

Deixo esse debate das afinidades sagradas para outro momento. É muito chato.

3. “Por que ainda se fala da presença do troço do sagrado feminino como se fosse uma entidade da dança?”
Idem. Mas também porque, em nossos tempos, as pessoas sentem-se livres para associar quaisquer símbolos que estejam à mão com quaisquer outras tradições (que também estejam à mão).

Idem.

4. “Por que não se valoriza a bailarina de dança do ventre como se valoriza a bailarina do ballet clássico?”
Vamos todas ler “Orientalismo”? Tem uma edição em pocket da Cia das Letras baratinha.

Resposta pedante, eu sei. Mas é sério, não se responde a esse tipo de questão sem uma boa estudada na história política das relações entre os chamados oriente e ocidente. É tudo bastante mais complexo do que parece. Não se trata de o balé “desprezar” a dança do ventre. Tampouco é culpa de um suposto amadorismo desta última contra a superespecialização da primeira. O imaginário sobre a dança do ventre foi construído pela intelectualidade européia através da comparação (sempre desequilibrada) com suas próprias instituições. Entre elas, o balé.

5. “Por que ainda tem bailarina que dança de graça?”
Principalmente, por falta de estímulo das professoras ou mesmo das academias onde fazem aulas. Se as professoras promovessem chás, saraus, oportunidades para que as meninas se apresentassem e se formassem como bailarinas, apoiadas e orientadas por alguém com mais experiência, isso não seria tão freqüente.

Acho que é isso aí.

6. “Por que os espetáculos de dança do ventre são de uma mesmice sem fim?”
Porque não são espetáaaaaculos de verdade. São mostras de dança com a apresentação das turmas da academia. Raras são as bailarinas que de fato constróem espetáculos, com argumento, encademento, tema e coesão entre coreografias. Isso é dificílimo de conciliar, quando se trata de uma academia, com várias turmas, várias professoras, cada uma com um conteúdo a ser trabalhado.

Isso é uma questão à qual quero voltar com um post compriiiido…

7. “Se todo mundo quer respeito na dança, por que fazem roupas de buracos imensos, sutiãs esturricados, saias de fendas no pescoço?”
Porque o respeito à dança não está diretamente relacionado à pouca roupa da bailarina. No ballet clássico, mostra-se a bunda (muito bem embalada, claro, mas ainda assim, de collant!) todo o tempo; no ballet moderno, temos performances quase nuas.
Não há relação.

Também considero este um tema importantíssimo. Porque vou te contar: ô mundinho moralista este da dança do ventre. Vixe!

8. “Por que muito pouca gente discute dança de forma inteligente e sem bitolação de deusa ou de que todos temos que pensar igual, como se fossemos uma irmandade?”
Mistéeeeeeerio….

Sobre roupas, notícias mal dadas e dois vídeos

Ontem fui à nossa 25 de Março comprar itens para o atelier. Tecidos loucamente lindos, lantejoulas, vitrilhos, cristais, strass, linhas, bojos, araminhos e coisas automotivas que nem em meus mais obscuros sonhos eu imaginava que fizessem parte da produção dos diáfanos figurinos de dança do ventre. E ontem eu entendi direitinho o porquê dos preços aparentemente delirantes de nossas roupitchas. É tudo caro para chuchu. Sério, você sabe quanto custa um pacote de Jablonex? Porque isso é outra coisa que aprendi: roupa profi tem que ser feita com jablonex, porque a miçanga ou o vitrilho importados simples (não, não há produção nacional, pelo jeito) descascam, são irregulares, não fica bão mesmo. Pois é. Sabe quanto custa? Muitíssimo. E o tal do acoplado (coisa para fazer alguns sutiãs e cinturões)? Uma fortuna. Sabe aquela telinha que a gente usa nos macacões para aula e em algumas roupas? Uma fortuna. Vivendo e ficando sabendo.

* * *

E aquela reportagem sobre as dançarinas brasileiras presas no Líbano sob acusação de prostituição me incomodou muito. Porque é tosca demais, nada informativa. E não atualizaram. Jornalismo de boteco, que não informa, só sobressalta. Estavam indo para um festival de dança e música em Baalbek e vinham de Dubai. Foi só o que a reportagem falou. Não sei de mais nada. Nem sabia que eram bailarinas do ventre até receber mensagem encaminhada por uma bailarina brasileira conhecida justificando o acontecido, afirmando ter sido uma armação, que alguém havia denunciado fraudulentamente suas colegas à Interpol. Mas suspeitamos que a Interpol não chega prendendo sem uma investigação minuciosa. Podem errar, claro. O negócio é que, pelo sim, pelo não, fica muito chato para as que trabalham sério, vão lá, cumprem seus contratinhos e voltam para o Brasil com mais bagagem depois de terem suado muito e aturado gerentes toscos. Prostitutas há em todo lugar. Não condeno prostitutas. Condeno a confusão de imagens em uma dança já tão mal-compreendida. Certamente, pela reportagem, o cidadão comum, consumidor de dança do ventre, dificilmente se toca de que é um bafão desse meio. Mas quem é de dentro sabe, se emputece e, pior, fica com menos da metade de uma informação. Lixo.

* * *

Tem um documentário bacana feito pela National Geographic com a Soraya de protagonista. Muito legal messs. Tem instruções para assistir.

1. Clica nesse link.

2. No menu à direita, clica em “Videos by category”.

3. Menu à direita, clica em “Travel and Cultures”. Uma nova janela abrirá.

4. Clica em “culture”.

5. Clica em “arts and entertainment”.

6. Aparecerão alguns videozinhos à direita. O da Soraya chama-se “Cairo Belly Dancers”

Agora, minha impressão do vídeo. Ele se propõe a ser meio que uma introdução à história da dança do ventre. E vem com aquela lenga-lenga de origem milenar e de dança surgida de um exercício pélvico. Me impressiona muito ver esse tipo de dado solto repetido à exaustão. Porque o chato de ter formação em pesquisa é isso: a gente não se encanta fácil por qualquer fragmento de informação. Tem que ter fundamentação teórica e empírica, senão é só artifício literário de segunda mão. E eu, paladina da justiça, da bondade e da beleza, interessada que sou em trazer à tona o lastro cultural e político da dança do ventre como um bem contemporâneo, quase me desespero ao ouvir esse tipo de merde fantasia.

Maneiríssimo terem mostrado a loja mais tradicional de fabrico de alaúdes. A reportagem é superficial, mas dá para ter uma noção de como já foi popular e fervilhante a rua Mohammed Ali. O vídeo dá também uma visão geral de como o crescente conservadorismo religioso tem visto a dança do ventre (outra coisa: a palavra “haram”, traduzida pela reportagem como tabu, é melhor entendida como “não-permitido”; faz oposição a “halal”, que se traduz por “permitido”).

Estranhos tamanquinhos a Soraia usa durante as aulas, não?

Adorei ver a Lucy de antigamente, por míseros segundos, inserida no vídeo. É o trechinho de um excelente documentário da Natgeo de meados dos anos 90 chamado “Cairo Unveiled”. O melhor de todos, que nunca mais encontrei em lugar nenhum. Emprestei minha fita de vídeo a um amigo e bau-bau. Nunca mais vi.

O vídeo é curtinho, mas bacana por ter como protagonista uma de nossas profissionais mais amadas – e, de longe, a mais bem-sucedida.

* * *

E tem já um videozinho do “Jadid”, show do Ayuny. É o tribal da Ana Luiza, uma de nossas lindas professoras. O público se amarrou. A Ana, além de fantástica bailarina do ventre, é uma excelente performer. Artista mesmo, que se transforma em personagens no palco.

Olhaí:

Teremos um dvd, com imagens profissionais, mas ainda não foi entregue.

Vai rolar…

Quermesse Baladi

Do que se trata? Um domingo para passear, ver roupas de dança velhas e usadas, bijoux e outras coisinhas que nos fazem felizes, assistir dança do ventre, jogar tarot, comer comidinhas, prosear, encontrar gente… Ou seja, coisas que se fazem em uma quermesse baladi!

Quando? Dia 22, domingueira!

Quanto custa? Nadica de nada! É entrada franca, minha irmã!

E qual é a outra motivação? Bandeirinhas coloridas espalhadas pela escola, uai. Bailarinas lindas dançando. Comidinhas gostosas baratim, roupas lindas para admirar e comprar. Precisa mais do quê? Deixa de ser preguiçosa!!!!

Tão tá. Ondié quié esse trem? No AYUNY! Fica na rua das noivas: 305 Norte, Bloco B, subsolo. A partir das 15:00.

* * *

Ciclo de Oficinas do A Y U N Y

O que é? Sua oportunidade para otimizar suas férias!
Como vai ser? Em todos os finais de semana do mês de julho, uma nova maneira de viver a dança. Conteúdo elaborado com responsabilidade por profissionais qualificadas.

Que horasss? Todas as aulas acontecem das 15:00 às 18:00 – três horas de duração. Cursos com certificado assinado pela equipe AYUNY.

E quais são os cursos? Confira a programação:

05 (sábado) – Os ritmos folclóricos e a música clássica: Saidi, Khaligi e Ayubi.
Professora: Andréia Paula

06 (domingo) – Técnicas de dança contemporânea para dança do ventre I: Espacialidade, trajetórias e improvisação.
Professora: Sabrina Faria

12 (sábado) – Baladi e Shaabi: como reconhecer e dançar os dois estilos de dança popular egípcia.
Ro Salgueiro Professora: Roberta Salgueiro

13 (domingo) – Técnicas de dança contemporânea para dança do ventre II: Cambrés, giros e posturas.
Professora: Sabrina Faria

19 (sábado) – Construção de coreografia: como dosar seus movimentos com o ritmo, a melodia e a harmonia da música árabe.
Professora: Roberta Salgueiro

Ana Luiza20 (domingo) – Taksim: como dançar ritmos e movimentos lentos equilibrando sensualidade e elegância.
Professora: Ana Luiza Amaral

26 (sábado) – Véu: giros e deslocamentos dentro da música clássica
Professora: Roberta Seabra

Aisha27 (domingo) – Técnicas de quadril para solo de percusão: tremidos, marcações inovadoras, breaks e deslocamentos
Professora: Aisha Dincer

Investimento:
Valor unitário: R$ 80,00
Dois cursos: R$ 140,00 (divide-se em 2 vezes, se pago com antecedência)
Três cursos: R$ 180,00 (divide-se em 2 vezes, se pago com antecedência)

Tem mais motivação? Tem. Estude com nossas profissionais. Tradição não tem preço.

Mais informações: 8173 6317 – 3340 4291
CLN 305 Bloco B subsolo – asa norte
www.ayuny.com.br
ayunyestudio@gmail.com

De salto alto

Sapato de salto é um super fetiche. E tem mesmo um visual incrível. A musculatura fica toda ouriçada, ressaltando o desenho da perna. Bonito mesmo. E tem o lance do poder, né? Essa coisa de estar nas alturas. E na dança do ventre, que é o que nos interessa aqui?

Um amigo egípcio defende calorosamente o salto. Esconde a sujeira do pé, diz ele. E deixa a dançarina mais elegante. Claro, espera-se que a moça saiba portar um sapato assim. Porque poucas coisas são tão feias quanto mulher de salto alto e joelho dobrado. Toda troncha. Se andar com salto é difícil, imagina dançar. Pois dia desses uma colega fez um show com salto e foi muito mal. Perdia o equilíbrio, teve medo. Mas não assumiu, claro. Disse que sentia-se tonta com alguma outra coisa qualquer. Mas a real é que ela gosta de imitar se inspirar em outra dançarina que só usa salto. Não dá conta do recado. Daí fica sofrendo.

Não é um caso único, claro. Pra piorar, a dançarina do ventre usa qualquer scarpinzinho de bico fino que acha bonito. Não tem o hábito de comprar sapatos para dança. Que são feitos com um propósito: proporcionar segurança pra menina. É fechado atrás, fica firme no pé. Mas enfim. De onde surgiu isso? Por que algumas usam e outras não?

Pelo que entendi até agora, essa é uma dança descalça. Pelo menos no Egito. Os sapatos vieram um pouco depois, com a abertura de espaços para apresentação de dança, as casas noturnas. Depois de bastante Hollywood na veia. O público desses espaços, composto por europeus, alguns poucos americanos e ainda menos funcionários públicos nativos europeizados, gostavam de um pouco mais de “glamour”. Diz-se que Samia Gamal foi a primeira a usar saltos. Falam que é porque queira mostrar que estava bem de vida e que podia pagar pela moda “civilizada”. Pode ser. Mas acho é que o principal dado na história é que Samia Gamal foi a mais hollywoodiana das estrelas dessa época. Entendeu direitinho o que agradava aos ocidentais. Não foi à toa que conseguiu papéis no cinema ocidental. Depois dela, vi poucas egípcias portando saltos.

RandaHoje é simplesmente uma escolha. Acho que reflete a expectativa da dançarina com seu público e com a imagem que gostaria de passar. As libanesas, que gostam muito do padrão europeu, dificilmente deixam de usar salto. As brasileiras que trabalham no golfo, idem, porque espera-se delas um show de beleza, principalmente. Dançarina nesses lugares tem que ser bonita, magra, bem-vestida e chique, além de dançar direitinho. No Egito parece ser um pouco diferente. Não consigo visualizar Suheir Zaki de sandália alta. Já vi uma Fifi travada sobre saltos. Dina já entrou de salto e livrou-se dele rapidinho. Não combina muito com o espírito baladi, livre e solto desse país africano.

Eu não tenho nada contra. Fico de queixo caído quando vejo dançarinas tocando o terror sobre 15 centímetros. Mas não uso. Não é minha praia.

O Palco

Já chorei apresentando seminário na universidade. De outra vez, travei. Não chorei, mas também não consegui continuar a apresentação. O professor ficou com pena. Morri de vergonha. Morro de vergonha até hoje de falar em sala de aula, apresentar trabalho. Lecionar é outra história. Fico com vergonhinha no começo, mas logo me sinto em casa. Você vai conhecendo os alunos e certamente conhece melhor o tema. É diferente de chegar lá e apresentar, na tora, o resultado de seu trabalho. Tem que ser logo e sem enrosco. Na aula é tudo mais macio.

Acho que é por isso que muitas vezes sentimos que dançamos melhor em sala de aula do que no palco. Porque o palco é um pânico mesmo. Minha última apresentação foi bem mais-ou-menos. “Ah, foi lindo!”, dizem os amigos e colegas, todos super políticos ou simplesmente bonzinhos. Só Marido deu a real: você dança mais que aquilo (ele também fez uns comentários menos benvindos sobre minha roupa e meus pneus, mas isso é outra história). Claro que tem dia que você chega lá e arrasa. Mas sempre pode rolar algum desconforto. Ou é a experiência do palco em si – você lá na frente, sozinha, diante de um público, seja lá qual for – ou você pisa na saia, ou você perde o equilíbrio ou simplesmente não sabe pra onde olhar.

A gente aprende com os erros. De meu último show, aprendi que a saia tem que ser mais curta. Não caí não; só fiquei insegura, com medo de pisar na bainha. Daí a dança ficou toda contida, meio com cara de coreografia “dos outros”. Sua roupa tem que ser sua amiga, não um motivo de distração. Porque tudo o que você precisa num palco é concentração e ensaio. Tive ensaio pra chuchu, mas comprei a roupa de última hora e subestimei o potencial de insegurança que uma barra comprida tem.

Pra onde olhar é outra coisa chatinha para quem está pouco habituada ao palco. Porque ficar pensando nisso tambem distrai. Dança do ventre tem muito a ver com contato direto; às vezes dançar no nível do público tem suas vantagens – você tira muito de sua expressão da interação com o público (bom… tem público que dá vontade de chorar…). No palco, somos nós e a música. Olhar pra onde? O ballet clássico aí tem a manha: pra frente, lá em cimão, onde ficam os técnicos de luz e som, sabe? Não sou muito boa nisso, de olhar ao longe, mas sei que é A estratégia para quando você está centralizada no palco, em uma coreografia mais distante. Acho que se sua coreografia prevê idas estratégicas à beirada do palco, então devemos nos comunicar com a galera do gargarejo. Mas isso vale mais para baladi, shaabi, performances mais soltas.

Mas a real é que todo mundo fica inseguro quando sobe num palco. Do profissional mais experiente à menina que ouve um “merde” pela primeira vez. Porque o palco é também uma espécie de banca. Você mostra seu melhor, às vezes vacila, mas na maior parte das vezes tudo sai bem. Como na banca, há os que te apoiam e também, escondidinho na platéia, vai ter quem te julgue brabo. Metáforas fora, palco dá frio na barriga como o dão momentos importantes da vida. E todo mundo fica com medinho. Tem gente que diz que não; que tá tremendo é de frio. Mas a gente sabe que isso é só charme.