Randa

Acho que não tenho uma simples crítica à Randa. Acho que o que tenho é mesmo implicância. Porque fico achando que ela é uma simples cópia da Dina. Só que ela não é. Ela copia sim a Dina, e isso é fato: nas saídas para deslocamentos, quando joga o corpo ao estilo “bêbada”, na condução da banda para que priorizem a percussão, dando espaço para a leitura percussiva; na ousadia do figurino, na expressão demasiadamente dramática. Só que, como reprodução do passado, a Randa é excessiva. Ela exagera na leitura percussiva, na dramaticidade, na vulgaridade do figurino. Ela pegou tudo de questionável da Dina e explorou. E a bailarinada gosta. Fazer o que?

Mas ela tem coisas boas de fato. Esse vídeo abaixo é muito bom. Ela está muito bem. Cheia dos clichés dela mesma, mas captura nossa atenção como pouquíssimas bailarinas conseguem fazer. Comprei uma aula pirata dela dia desses e gostei tanto… enfim. Tô olhando pra ela com outros olhos. Espero ver mais, espero ver melhor. Espero, realmente, superar meus preconceitos.

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Insuportabilidade tamanha!

Voltei a trabalhar. A ranhetice retorna também, claro. Assisti hoje a um vídeo que, apesar do apuro técnico da bailarina, me inspirou a fazer a primeira listinha do ano:

As coisas mais insuportáveis da dança do ventre

1. Gritinhos sem ter fim

Preguiiiiiça de público débil mental que fica gritando quando a bailarina surge em cena. E quando ela faz um passo espetacular. E quando ela gira. E quando ela faz uma batida lateral. Afe. Se uma aluna minha dá um vexame desses em algum evento de dança do ventre, enfio minha cabeça num buraco. Porque, minha gente, isso é etiqueta. Pra que berrar? Um tal de “Lindaaaaaa!!!!” “Poderosaaaaa!!!!” “Maravilhosaaaa!!!!”. Menas.

2. Alegriazinhas sem ter fim

Bailarina que dança rindo sem parar, com a boca aberta. Nossa, que troço feio! Abrindo os olhinhos e levantando a sobrancelha. Nuuuuuh! Pulando feito cabrita. Nossa, que vergonha alheia!

3. Proibiçõezinhas sem ter fim

Um saco tantas proscrições: Bailarina não pode fumar. Bailarina não pode beber. Bailarina não pode reclamar. Bailarina não pode criticar. Bailarina não pode faltar ao salão. Bailarina não pode engordar. Bailarina não pode cansar. Até hoje. Vou fazer 14 anos de dança e é a mesma coisa. Respirar pode?

4. Modinhas sem ter fim

A coisa mais surreal de todas é a eliminação gradual da franja. Porque, né? Franja tá fora de moda. Se sua bunda não é muito dura, lascou, porque roupa boa mesmo é aquela grudada, que tá na moda agora porque a Randa usa. Aliás, você tem que estudar apenas movimentos percussivos porque a Randa tá por cima da carne seca e o lance dela é interpretar percussão. Também é moda usar uns arabesques e levantadas de perna gigantescas. Aliás, como na dança há poucas novidades, você pode inventar qualquer coisa meio ridícula, mas impactante e “diferente”. Geral curte. Eu não.

5. Videozinhos da Raqia sem ter fim

Caiu na minha mão o último (será? Pode ter lançado outro já). Caraca! Tudo igual. O mesmo ritmo comandando o mesmo movimento, com a mesma tônica e as mesmas bailarinas-alunas-dela toscas de doer. Aí vem um anúncio de que rola a Randa. A Randa só dança. Teve um com a Soraia em que rolava uma mini-aula, bacana. Esse só dá raiva.

*Aquele movimento comandado pelas pernas, como um mergulho lateral.

Última listinha do ano

Meu humor já esteve melhor. Estou gripada e irritada. Por isso vamos fazer uma listinha rabugentinha: bora então ver o que a Senhora Ro Salgueiro considera o cúmulo do boicote interno à dança do ventre.  É. Coisa de bailarina pra bailarina, que detona a imagem e o mercado da dança do ventre.

As piores besteiras que uma bailarina pode fazer

1. Vender seu show a preço de banana: Prática comum no cerrado, onde encontra-se a incrível espécie de bailarinas que dançam por 50 pilas.

2. Vender sua aula a preço de banana: Mensalidade por, sei lá, R$60. Paga o quê? Numa cidade onde o aluguel de uma salinha não sai por menos de R$1.000, o IPTU é altíssimo e a média salarial é assustadoramente alta. Aaaah, mas a pessoa não paga aluguel e pode, o que você tem com isso? Bom, isso se chama concorrência desleal.

3. Aceitar trabalhar em uma escola que cobra mensalidade baixíssima: A professora recebe porcentagem sobre a mensalidade. É assim que funciona na maior parte das escolas – há outras formas de contrato, como o aluguel do espaço, mas são raras. Tudo bem que dificilmente a pessoa vá viver de dança do ventre. Mas quando você topa trabalhar assim, você está concordando com a prática da concorrência desleal.

4. Fazer leva-e-traz: a bailarina passeia, qual mosca varejeira, entre escolas. Faz uma visitinha aqui, outra ali… participa de reunião aqui e ali… e leva informação daqui pra ali. Feíssimo.

5. Embromar a aluna na cara-dura: Dois meses para ensinar básico egípcio e camelo. Convence a aluna de que ela está lindíssima sacodindo um véu daqui pra ali. E que é importantíssimo praticar um pouco mais os oitos antes de passar para os deslocamentos. Aaaaah, a aluna já se desenvolveu um pouquinho? Então dá-lhe lavagem cerebral para que a aluna entenda que você é a única professora capaz de levá-la ao paraíso bellydance.

Nossa, que preguiça que a dança do ventre me dá às vezes.

Estrelismo

Assunto batido, eu sei. Mas a gente às vezes esbarra nos clichés tão brutalmente que deixa um roxo doído. Estrelismo não é apenas uma postura individual tola: a afetação de umas magoa e prejudica outras pessoas. Pra que serve ser descortez em um camarim? Por que desdenhar um convite? Qual é a vantagem de ser conhecida pela empinação do nariz? Acredito que muitas das estrelas da dança do ventre assim o são por terem perdido a capacidade de dimensionar as coisas. Dança do ventre é apenas um nicho. As “famosas” da dança do ventre são usualmente desconhecidas do público apreciador de arte. Tudo bem, isso acontece com outras práticas performáticas também. Mas parece que no meio da dança do ventre a coisa é patogênica – e olha que ouvi de um músico uma observação desse gênero. Mulherada se empolga mesmo dentro de um lencinho de crochet. Não compreendo bem. Pra mim, só merece o lugar de diva aquelas pessoas que realmente fazem de seu trabalho um elemento imprescindível para a arte em geral. Não adianta ser só uma boa bailarina ali, em sua província. Pra ser diva e exigir um tratamento diferenciado, minha amiga, tem que ser Umm Kalthoum, Edith Piaf, Souhair Zaki, Ella Fitzgerald, Clarice Lispector. Aliás, pode sim ser diva entre seus amigos. Não dá é para esperar que as pessoas todas à sua volta compreendam sua megalomania, já que você simplesmente não é… tipos… famosa. Né?

Sabe o que eu acho de estrelismo na dança do ventre? Coisa de jeca. Ser caipira tem lá seu charminho. Ser jeca é bem mais complicado.

Folk, show, contemporaneidade (essa malvada)

foto: Al-Ahram weekly
foto: Al-Ahram weekly

Lembra que eu tinha inventado de coreografar uma dança fallahi? Pois segui mesmo em frente e, em julho, as meninas vão dançar com jarro e tal. A música é bem óbvia, do Metkaal Kenawe. Porque dentre outras dificuldades em se estudar folclore está a escassez de acervo musical. Encontrei ótimas músicas caipiras do Egito, mas poucas com apelo pra palco. E o palco, minha amiga, é determinante na dança.

Uma coisa é dançar em casa, sozinha, ou num chá com as colegas. Outra coisa é se apresentar em restaurante. E ainda outra é mostrar os dentes no palco. Sozinha você pode entrar em transe com o mizmar e ninguém mais vai se incomodar. Quando você vai entreter o alheio, aí o folclore mostra sua face maligna. Como eu disse alhures, folclore é aquela coisa meio sem limite: a) você pode ser apenas uma na roda; se você se cansar, outra pessoa entra no jogo; b) as músicas são repetitivas; c) a equação tempo-diversão é absolutamente diferente do experienciado na lógica comercial.

Então fechamos com nosso amigo Kenawe e começamos a coreo. Comé que vai ser o jarro? Eu sugeri usarmos moringas, pelo formato bonito mesmo. Qualquer coisa desde que seja significativamente grande. Coisa feia é ver aquelas apresentações com jarrinho de flor. Deprê. Se você vai buscar água lá longe, que carregue um vasilhame de respeito (tudo bem que área rural em geral usa atualmente vasilhas de plástico pouco românticas para carregar água. Triste, real, nada poético, pouco provável de se transpor em um show de dança do ventre). Daí vêem as dúvidas: puxa, e se for pesado demais e machucar o ombro? E se a gente fizesse um molde em gesso, que é mais leve? E se usássemos ânforas? Ficamos de pensar direitinho e resolver nas próximas semanas. A apresentação é só em julho.

E a roupa, minha gente? Ó, nego lá do interior do Egito usa galabeya bem fechada e larga.  E o figurino eternizado pelo Mahmoud Reda, com trancinhas, camisolão com babadinho na ponta e estampa tosca não ajuda. Acertamos então uma galabeya bem bellydance, justinha na parte superior e soltinha embaixo. Na boa? Sem culpa.

faltaaguagiza

Sinceramente me pergunto quanto ao real status do folclore na dança do ventre. Como me disse outro dia a Lid, dança do ventre é fun, pura diversão. Não dá para ficar pressionando. Se eu for tentar reproduzir a realidade folclórica egípcia sobre um palco, em primeiro lugar não haveria muito o que se apresentar: como no Brasil, poucos aspectos folclóricos campesinos sobreviveram à pauperização da área rural, à massificação do entretenimento e à migração dos jovens para os grandes centros urbanos. Algumas tradições que celebramos na dança do ventre simplesmente não existem mais, como o meleah laff. As egípcias não usam mais o meleah, como mostra essa breve notícia do Al Ahram. A busca pela água não é nada romântica. As pessoas sofrem. Enfim.

A discussão, claro, é bem mais complexa do que podemos resolver em um post de blog. E ando bastante mal-humorada. But the show must go on [/Queen]

Cara, eu odeio!

Odeio site com musiquinha.

Ainda mais quando abro um monte de abas ao mesmo tempo e não sei de qual inferno sai o tal barulho. Não existe música de bom gosto quando você não quer ouvir música. Saio fechando tudo e xingando.

Site e blog (agora até orkut) de bailarina é o que mais adota essa praga.

(Pois é. Começo do mês e a TPM dando seu helôu-baby-yeah)

A muitíssimo dificílima tarefa de estudar folclore

Inaugurei o ano com o propósito de ensinar folclore para uma de minhas turmas. Sei lá por que me encantei com o fallahi (o ritmo) e quis aprender melhor a dancinha camponesa. Sim, falei isso mesmo: eu quis aprender a dançar fallahin. Porque sei o básico, o tradicional, que ninguém me ensinou. Aquela coisa borrada que acabamos por aprender sozinhas, via vídeo. E vou aprender enquanto ensino às minhas alunas.

A real é que quase ninguém confessa não ser autônoma em danças folclóricas. Galera dança saidi e, estourando, praticamente às cegas, dança de Alexandria, vulgo meleah laff. Não temos um ensino sistemático e confiável do folclore. O que aprendemos de khaligi até recentemente  – ou seja, antes dos massivos contratos de bailarinas brasileiras para o Golfo e de seus retornos produtivos; também antes da internet rápida – é risível. Sutileza zero. Há alguns anos comprei um vídeo de um especial musical khaligi onde a galera dançava e vi uma diversidade incrível na dança, inclusive com uma interessante variação de figurino. Vou tentar disponibilizar esse vídeo. De todo modo, a Polimnia Garro trouxe um khaligi bastante diferente e que vale a pena conferir.

Ou seja, aos poucos, mas muito vagarosamente, vamos conhecendo um pouco de outras danças fora a dança do ventre de palco à qual estamos acostumadas. O problema é: o que é folclore e o que é folclorização?

Gosto muito de folclore, talvez por minha formação. Mas, justamente por causa da antropologia, morro de medo da palavra tradição e de tudo que tem “folclore” por rótulo. Daí, estudando fallahi, preocupo-me, por exemplo, com a caracterização: as camponesas egípcias usam mesmo aquelas trancinhas? E os vestidos são mesmo espalhafatosos e coloridos? Será que usavam trancinhas e já não usam mais? Devo tentar pesquisar como é o visual característico da camponesa egípcia contemporênea? Se for muito diferente do que o Mahmoud Reda pregou (a imagem romantizada de um Egito puro, pero no mucho), será que as Suhailas-al-Shams-el-Hobs da vida vão entender?

Estamos acostumadas a entender como tradição versões congeladas ou “higienizadas” de danças populares. Isso acontece no Brasil também, nas poucas vezes em que vemos alguma apresentação de dança folclórica nacional. Porque folclore é coisa muito difícil de tranpor para palco, como bem problematiza o antropólogo Anthony Shay. Acabamos por fazer um retrato muito distorcido do que seria uma tradição.

Penso que o mesmo acontece no Egito e com as coisas de lá. Não tenho uma visão clara do que acontece na área rural egípcia. Não sei a quantas andam as festas populares depois da popularização da televisão. E da viscolycra, claro!