Nossa amiga etiqueta

Tanta regra, tanta imposição! Essa é uma dança livre, sem regras ou fronteiras, pode-se fazer o que quiser, não? Não é bem assim. Essa é, sim, uma dança mundializada, transnacional; generosa, é praticada e ressignificada por qualquer pessoa que se proponha a dançá-la, mas não prescinde de cuidados. Cada uma de nós, praticantes, é responsável por sua imagem e há pequenos gestos que devem ser passados adiante para que a prática dessa dança conquiste o espaço e o respeito que merece. Além do estudo da história da dança, o apuro técnico e a entrega artística, devemos prestar atenção à nossa amiga etiqueta. Tem questões éticas no miolo, claro, mas essas foram tão banalizadas nesse meio – a maioria das que propagam códigos de ética são as mais anti-éticas – que prefiro pensar em atitudes elegantes, simplesmente. Proponho aqui cinco singelas dicas. Vamos a elas? Yallah:

1) Diga-me como se portas após o palco…

samiapesVocê dançou. Se dançou bem, está feliz; se dançou mal, está triste. Pode estar cansada, pode estar eufórica. Como todas no show, você está sujeita a mil sensações e pode ter feito das tripas coração para subir ao palco. Mas é aconselhável manter a postura de bailarina por todo o tempo em que estiver caracterizada como artista (i.e., alguém que apresentou um show para um público). Assim, se é convidada para o evento de alguém, esteja preparada para permanecer lá, de preferência com um sorriso no rosto, até os agradecimentos finais. Por diversas vezes vi bailarinas usarem o palco e saírem correndo para outro compromisso – mormente um evento familiar. Não ficar até o final é desrespeitoso. O que nos leva ao segundo tópico:

2) Suba ao palco somente se estiver preparada

cropped-ro4.jpgComo bem nos lembra minha querida amiga Paula Braz, você, querida artista, é uma prestadora de serviços. Como tal, deve dedicação ao público que paga para ver um bom show. Aluna que falta aula, ensaio, professora que apresenta leitura musical mal-feita por falta de estudo… Não teve tempo de estudar a música? Como assim? Tive uma conversa interessante com uma menina na escada de incêndio no Mercado Persa (a.k.a. fumódromo) deste ano. Ela estava ansiosa, era iniciante e iria se apresentar pela primeira vez em público. Cara, como uma professora coloca uma aluna iniciante sobre o palco de um evento como esse? Não seria mais apropriado promover pequenos eventos para amigos e família antes? Estrear para um público que espera excelência é ser jogada aos leões. Fuja, aluna! Run for your life! Mude, professora! Aprenda a cuidar de quem confia sua autoestima a você.

3) Figurino é para o palco! 

IMG_2462

Contenha sua vontade de exibir aquele figurino lindo para todos na rua. Pega mal demais. Use uma abaya, que é basicamente uma capa, para circular de figurino fora do palco e dos bastidores. Pode até improvisar um véu enrolado se não tiver algo mais apropriado. “Mas o corpo é meu, exibo como quiser!” Sério que sair vestida de bellydancer é sua proposta política? Logo em dia de show? Para não achar que é moralismo meu, dá só uma olhada na opinião de outra pessoa do meio, a Vera, aqui, ó. Se apruma, menina!

4. Quem é a professora, afinal?

success_1902_06_a

Essa é para as estudantes. Não corrija ou tente “ajudar” a coleguinha durante a aula sem ser solicitada. Aliás, se a colega pedir ajuda, ofereça o esclarecimento de que há uma professora em sala de aula justamente para ajudá-la. Além de ser um nicho perfeito para a proliferação de boatos e mal-entendidos, essa “ajuda” atrapalha a aula, desautoriza a professora e pode levar a enganos/erros/lesões. Afinal, a professora é a responsável pelo ensino e bem-estar de todas da turma.

5. Guarde sua arrogância para você.

maximo

Porque aconselhar a abandoná-la não é minha praia. Quem nunca? Mas dá para segurar a onda, ainda mais se você é considerada uma referência em qualquer coisa. Se a dica anterior foi para as singelas estudantes, essa é para os medalhões da dança. Cuidado com o modo como se refere ao trabalho do outro. Lembro-me perfeitamente de minha primeira visita a um bem-conceituado centro de dança em SP, anos e anos atrás.  Eu e minha aluna fomos recebidas pelo proprietário que, enquanto nos regalava com poses para fotos, perguntou onde estudávamos. Contei que era professora e imediatamente ouvi: ” Ra ra ra, engraçado como em Brasília só tem professora!”. Fiquei muda. O que essa pessoa sabia a meu respeito? Nada. Mas se julgou no direito de duvidar/ironizar minhas afirmações. Para esse sujeito, professora provavelmente eram apenas as que ele conhecia. Podre. Passei por outras demonstrações gratuitas de arrogância, inclusive esse ano, no MP. Mas esse exemplo é o que melhor ilustra a) a desinformação quanto o nível de profissionalização em outros centros de dança fora de SP, b) o despreparo de profissionais nacionalmente conhecidos no trato com o público e c) a arrogância pura e simples de muitos desses profissionais.

Enfim, queridas bailarinas, essa é minha pequena contribuição para um mundo melhor.

Anúncios

Brincando de escolinha. Ou qual é o real valor do seu trabalho?

Muito já se falou da leviandade de algumas mulheres que começam a atuar em meios profissionais seja ensinando ou dançando. Pessoas que não estudaram o suficiente ou se dedicaram o suficiente para preencher funções que exigem necessariamente estudo e dedicação são alvos de queixas e reflexões há tempos. Mas a falta de comprometimento pode ser mais grave: pode ser sistêmica, irreflexiva e desleal.

Fazer um show profissional é coisa séria: precisa apresentar uma dança segura, madura e eficiente, como exige o campo do entretenimento remunerado. Precisa se fazer bonita: ter um figurino fino, ser pontual, portar uma maquiagem impecável, cabelos em ordem. Precisa saber fazer bom uso dos acessórios, pois todos os contratantes querem bailarinas que dancem com véu, espada e o que mais fizer de sua festa um evento memorável e de bom gosto. Não é fácil ser bailarina profissional. Preparar-se para garantir o brilho do evento dos outros exige uma formação continuada e dedicada. Um show desses não pode ser baratinho. E já falei sobre esse assunto há tempos.

Dar aulas, por sua vez, é ainda mais complicado. A professora de dança do ventre tem por função não apenas transmitir técnica e criar seqüências. Ela é também um espelho do corpo da outra. A professora dessa matriz de movimento inspira, indica e incute valores que dizem respeito ao feminino; a sala de aula é, afinal, um espaço de trocas de idéias entre mulheres e a figura da professora é central.

Além do possível papel ideológico (trata-se, enfim, de um meio bastante heterogêneo), todo profissional da educação é responsável pelo bem-estar de seus alunos enquanto estão sob seus cuidados. Isso inclui saber como conduzir uma aula, do alongamento ao relaxamento. O serviço contratado é proporcionar dança, mas também bem-estar. Um exemplo bem banal é saber se a aluna tem histórico de labirintite na família antes de achar que sua dificuldade em executar seqüências de giros é fruto de falta de exercício. É saber escolhar as palavras para explicar, para relaxar, para brincar e para falar sério. Saber adaptar o movimento e a aula em si às necessidades de cada aluna é resultado de observação, atuação, dedicação.

Uma professora de dança do ventre de qualidade não se forma da noite para o dia e não é fruto de cursinhos de formação genéricos, que, no mais das vezes, batem na mesma tecla: seqüências clássicas de Reda, conhecimentos básicos de acessórios, decoreba de ritmos, uma bobagem ou outra de anatomia e zero noção de didática e sensibilidade em sala de aula. Mas essa é uma conversa deveras comprida para esse pequeno retorno ao blog.

Essa professora que compreende, ensina e se dedica fez aulas regulares (matriculada em um estúdio) por pelo menos três anos. No mínimo. Nesse período, deve ter consumido pelo menos dois workshops por ano para se manter atualizada. Varou noites estudando, pesquisando, procurando compreender (e não simplesmente decorar) ritmos, estilos e nuances da dança. Consumiu figurinos, acessórios, vídeos, música. Certo dia, conseguiu começar a ensinar. Seguiu ensinando. Quanto ela recebe por todo esse investimento financeiro, intelectual e emocional?

A maior parte dos estúdios que conheço pratica parceria sobre mensalidade por aluna. A escola atrai as alunas e as distribui de acordo com a disponibilidade de cada cliente. Assim, obviamente, as professoras com horários mais procurados e maior carisma (leia-se habilidade para manter as alunas interessadas) têm maior retorno. Mas todas sabem quanto vão receber e que aquele valor não será uma ninharia com base no valor da mensalidade cobrada. Mesmo que essa mensalidade seja tristemente baixa relativamente a outras atividades físicas. Todavia, é uma professora valorizada.

Não consigo compreender, porém, como uma professora pode aceitar dar aulas para turmas lotadas recebendo porcentagem sobre uma mensalidade simbólica. Isso acontece quando a escola inscreve-se em sites de compra coletiva. Mensalidades de dança do ventre a R$30 em uma cidade que tem um dos metros quadrados mais caros do Brasil. Não estou nem falando do meu lado, o de proprietária e diretora de escola. Isso pode ficar para outro momento. Estou pensando unicamente no lado fraco da corda. A professora que se convence de que vai, sim, ser bacana, trabalhar com turma lotada por, sei lá, três meses, e receber algo em torno de R$60 por mês/turma, se muito.

Uma profissional do pilates me contou indignada sua experiência com uma dessas promoções. Ela recebia R$15 por aluna (são aulas individuais, para piorar). Pilates exige um estudo muito aprofundado. A pessoa é formada em fisioterapia (que, em Brasília, não é oferecida pela UnB, ou seja, ela precisou pagar caro por sua formação) e recebia esse valor por hora trabalhada. As alunas não ficavam: pulavam de oferta em oferta.

A professora de dança do ventre que topa ser parceira do estúdio que trabalha com sites similares acredita, de fato, que essas alunas de cupom vão seguir estudando? Que pagarão a mensalidade regular ao fim da promoção (há promoções com duração superior a seis meses)? Essa mensalidade pagará a gasolina para chegar até o estúdio, pelo menos? Dá vontade de rir e chorar, juro.

Há tantas perguntas e o tema é interminável. Mas o que queria mesmo com esse texto era levantar a bola desse tipo de discussão: a professora de dança do ventre presta um serviço a seu próprio ego ou ao legado da dança? Se prestam ao próprio ego, por que é professora, em se considerando que uma das premissas do educador é a negação do egoísmo? E, principalmente, se os estúdios especializados não valorizam financeiramente a dança do ventre e ficam brincando de escolinha, quem o fará?

Vai uma dancinha aí?

É tão bom ter uma bailarina linda, perfumada, bem-vestida e talentosa iluminando nosso evento, não é? Mas pagar por ela é ruuuuim. Imagina, ela só tem que… dançar! Como ousa cobrar por isso? Ainda mais essa dança tão fácil, é só sacodir!

Imagino que seja isso o que se passa na cabeça de alguém que liga para contratar a bailarina e pechincha ou simplesmente sugere um cachê ínfimo. Hoje fiquei tão boquiaberta que a pobre da promotora de eventos teve que ouvir um rio de ironia. Vou tentar transcrever o telefonema, editando as partes repetitivas:

– Alô, to falando aqui de Goiânia; é que vai ter um lançamento imobiliário (opa! Construtora tem dinheiro) aí e a gente gostaria de uma ou duas dançarinas.

– Claro, temos várias bailarinas em nossa escola. Quando será o evento?

– Então, mas deixa eu te falar: eu conversei com a fulana e ela falou para ligar para você; a gente tem um problema de caixa, daí eu queria saber se você não tem uma aluna…

– Trabalhamos apenas com profissionais. Quanto você tem reservado para o cachê da bailarina?

– Ah, temos ½ X.

(segurando o riso) Olha, isso é a metade do valor praticado pelas bailarinas.

– Então, menina! É por isso que a gente queria ver se você não tinha uma aluna…

– Não; temos bastante cuidado com a imagem da escola e da dança, por isso apenas profissionais são contratadas. (Misto de tristeza e indignação crescendo em meu peito) Você certamente encontrará meninas que aceitarão dançar por esse valor, mas cuidado: pode estragar seu evento. E dá tanto trabalho fazer um evento, não é?

– É verdade. (segura, que agora vem a pérola) Mas você não aceitaria indicar alguém nem que seja pela divulgação da escola?

– Olha, fulana, a construtora não me venderia o apartamento pela metade do preço como permuta pela divulgação, não é mesmo?

– He he he… não.

– Então.

– Ai, então você tem o telefone de outra escola?

– Não posso fazer isso, fulana. Dá uma olhadinha no google, que você acha rapidinho.

 

Impressionante.

Todas juntas somos fortes…

Tem música que não se interpreta sozinha. Tentando encontrar alguma música para o meu solo me deparo com clássicas como “Khatwet habibi”. Não consigo visualizá-la interpretada no corpo de uma bailarina somente. É uma música que precisa de volume, de corpo de baile. Tem uma voz solo e uma voz plural. Parece-me tão claro que me assombraria assisti-la no corpo de uma artista somente.

***

Na verdade, já vi uma bailarina dançando, a Suhaila Salimpour. Mas era muito diferente: era um vídeo e não uma performance em palco e talz.

Do desconforto plástico

Há tempos estou para comentar sobre a estética na dança do ventre. É uma dança que nos faz mais vaidosas, fato. Nos sentimos mais seguras e queremos externar isso. Já vi alunas se transformando drasticamente depois de poucos meses de dança: de insegura e (aparentemente) desleixada a mulher forte e cuidada. Claro, estou falando aqui do campo do endereçamento ao outro: mais desenvolta ao falar, cabelos com corte moderno – algumas vezes com nova cor – unhas, modo de se vestir… Não dá para dizer muito sobre uma revolução sólida na esfera íntima sem uma pesquisa direcionada, entretanto.

E sabemos que há muita expectativa – e cobrança – em torno da imagem da bailarina profissional. “Bailarina não pode isso, bailarina não pode aquilo, nem aquilo outro”. Fumar, beber, falar palavrão? Não, não pode. Unha nua, olheira, ausência de maquiagem, roupinhas confortáveis, chinelo de dedo e cabelo sem escova ou babyliss também não combinam com bailarina. Tem que estar sempre linda e cheirosa. Uma fada. Sempre entendi que essa postura deveria ser cobrada apenas em sala de aula ou quando com o figurino. Mas não é por aí que costuma pensar nossa comunidade de dança, como pode ser aferido em alguns foruns do orkut e artiguinhos por aí (preguiça de procurar link agora).

O controle sobre a imagem da bailarina profissional é tão pesado que a maioria acaba se transformando tanto que muitas vezes custamos a acreditar. A primeira das incursões ao body modification começa no mais evidente signo de identidade de gênero: os seios. Lábios e maçãs do rosto costumam ser o alvo das próximas visitas ao consultório. O próximo passo é a terrível e perigosíssima lipoaspiração.

Junto com a Samara tentei por um tempo manter um blog sobre os riscos das intervenções cirúrgicas com fins estéticos não essenciais, o Panóptico Feminino. A vida acabou tomando outros rumos, perdi a senha e jamais consegui retornar. O objetivo era fazer um clipping com poucos comentários, uma especie de painel mórbido da cirurgia plástica feminina. Não é preciso muito esforço para ver que esse é um mercado poderosíssimo e perverso. Por que então as mulheres se submetem a isso com tamanha temeridade?

A resposta é bem óbvia e repetitiva: por causa dos modelos de feminino que nos enfiam goela abaixo. Nenhuma mulher aceitaria de bom grado a insersão de uma prótese de material suspeito em seu corpo por volição própria – a não ser que tenha passado por mastectomia radical ou que tivesse um sério problema de desenvolvimento mamário. Sentimo-nos mal com nosso corpo porque nos é dito cotidianamente que esse corpo não é bom o suficiente. Nunca será, na verdade. Basta ver os horríveis sites de fofoca que apontam, quase babando de prazer sádico, a celulite de uma modelo de passarela ou um traço de gordura sob o umbigo de uma atriz. Um mundo alucinado de photoshops e autotunes.

Assisti ontem a um filme com um mote interessante: no futuro, as pessoas já não operam atividades de qualquer tipo, incluindo sexo e o uso de drogas. Quem faz isso por elas são suas réplicas robóticas, os “substitutos”, operadas pelo ser humano no conforto do seu lar. As réplicas são todas belas e podem tudo, sem acarretar riscos para os humanos (mais ou menos, como mostrará o filminho, num roteiro bem lambão).  As pessoas vivem felizes não se expondo ao olhar alheio; em suas casas, estão sempre de pijamas, descabeladas, sem maquiagem. Elas finalmente podem interagir sem o julgamento do outro, já que todos escolhem “substitutos” com concordância com as regras estéticas de seu mundo. Surreal, né? Ou nem tanto?

Na dança do ventre as mulheres parecem se angustiar por não parecerem com uma bailarina-modelo: em época de espetáculo é muito comum ver que as que não colocam próteses internas apelam para as externas. Há soutiens com tanto enchimento que custa-se a acreditar que um seio humano consiga se espremer lá dentro. Querem ficar com os seios altos, cheios e vigorosos. Ainda não vi em Brasília quem seja masoquista o suficiente para espremer os seios como a Randa, por exemplo. Mas já ouvi gente dizer que acha lindo.

Creio que devemos valorizar nossos corpos e chamar atenção para pontos positivos. Afinal, somos regidas por esse padrão estético e é praticamente impossível escapar de toda a sua interpelação. Afinal, logo na dança do ventre, onde deveríamos nos sentir mais livres, acabamos por nos deixar engolir pelo estresse do corpo perfeito.

Bom senso é a medida. Se dói, se incomoda, se perturba, recuso.

De personalidades, doçuras, rudezas e melindres

Sempre me disseram que tenho “personalidade forte” e que eu não sou uma pessoa “fácil”. Não entendia bem a que aspecto da minha personalidade se referiam como forte ou difícil.  Era por falar muito, sobre qualquer tema que me interessasse? Era por ter opinião sobre sobre as coisas e pessoas? Era por não me adequar muito ao esquema mocinha-unha-feita-que-não-fala-palavrão? Acho que, vindo de quem vinha, personalidade forte e gênio “difícil” queria dizer que o melhor que eu deveria fazer à sociedade seria me retirar para um mosteiro ou similares cenobíticos.

De fato, não correspondo ao padrão machista de femininidade. Falo palavrão a torto e a direito. Por que não deveria? Não sou de mimimi. Não gosto de beijinhos e frufrus. Por que deveria gostar? Não quero ter filhos. Acho que a humanidade está de final. Não sou de fazer unha, detesto salão de beleza, não gosto de shopping e compro apenas o básico, quando necessário. Não leio auto-ajuda e me entedio com livros mal-escritos como Código Da Vinci e outros arrasam-quarteirão. Não tenho nenhum item cor-de-rosa ou de oncinha no meu armário (fora roupas de dança do ventre, onde o rosa impera). Meu celular é antigo e só vou trocar quando estragar. Gasto meu dinheiro com livro, comida boa, itens de papelaria e vinho. Quase não uso perfume e maquiagem, para mim, é blush e rímel. Só. Ou seja, sou uma mosca na sopa do marketing para mulheres, que vende a imagem da mulher fútil, consumista e narcisista.

No entanto, considero-me bastante feminina. Apenas não sou infantil. Não gosto que me chamem de “Robertinha”, nem que me façam mimos demais. Gosto que falem comigo como a mulher adulta que sou e falo com as mulheres no mesmo tom. Uma das estratégias sexistas é infantilizar a mulher e me choca ver que meu modo direto assusta algumas mulheres. Aparentemente algumas mulheres se ofendem com meu modo de me endereçar ao mundo. Não aprovam minha agência. Isso não apenas me entristece; isso me dá raiva (e ter raiva não é algo esperado em mulheres).

Enfureço-me porque cada vez que uma mulher se melindra com as posturas firmes está a um só tempo ratificando a pedagogia-padrão do feminino e rejeitando a agência feminina. Essa pedagogia que nos ensina, desde crianças, a falar pouco, baixo, com escolha cuidadosa de palavras (evitando palavras “difíceis” ou constrangedoras), em tom macio. A sentar-se sempre de pernas fechadas e a se movimentar o mínimo possível. A ficar em casa e evitar beber, pois fica feio a uma mulher sentar em um boteco ou ficar dando banda na rua. A cuidar de sua aparência o máximo possível, pois a mulher é um bibelô. A gostar de crianças para criar gosto pela maternidade. A consumir muito. A trocar beijinhos e mimos. A procurar um homem que dê “segurança” (ou seja, que tenha um emprego fixo, carro novo e aparência comportada). A amar a dupla jornada. A se ofender por qualquer coisa.

E não sei bem o porquê, mas a dança do ventre, parece-me, tende a valorizar esses supérfluos femininos. Muita gente busca a dança do ventre para “resgatar o feminino”. Mas a impressão que tenho é de que os itens femininos que as mulheres conseguem acabam sendo os mais superficiais. Poucas são as que vêm que o feminino está além de um corte de cabelo. Ser feminina e resgatar algum poder de gênero é também aprender a ser uma mulher adulta e desconfiar das armadilhas da imagem feminina midiática.

Leiam mais, mulheres. Ofendam-se com as coisas certas. Reconhecer seu inimigo é importante e, juro, não deixa a gente feia.

A vergonha na dança

Li dois textos sobre corpo em blogs amigos. Um, da Lu Arruda sobre alimentação e boa forma; outro, da Luana Mello, sobre o belo. Ambos e uma proposta da Charô – que há alguns meses me enviou uma foto de uma bailarina obesa e sugeriu um post – me motivaram a letrar minha perspectiva sobre a relação corpo-dança.

guerro11

Aos 32 anos eu certamente não tenho o mesmo tônus muscular de uma adolescente. Como a maior parte das mulheres, tenho minhas reservas de gordura. Também como as colegas, há momentos em que me acho horrível, apesar de ter o corpo flexível e desperto. Porque sou, como todas, interpelada pelas imagens midiáticas. Não há como escapar do grande discurso; seu alcance é amplo e, por repetição, tem poderosa fixidez. O controle do corpo atinge homens também, mas sua grande vítima é a mulher, por toda a história pregressa de vigilância sobre o feminino. As mulheres adoecem mais. Bulimia, anorexia, fibromialgia e tendinite, patologias que emerge da relação corpo-mente, incidem mais em mulheres. Ou seja, nossos corpos têm adoecido nossas mentes.

guerro3

Essa é uma conclusão interessante da psicanalista britânica Susie Orbach. Ela argumenta que, enquanto as primeiras descobertas de Freud ressaltaram o poder da mente sobre o corpo, atualmente vemos que a preocupação com o corpo tem afetado a mente: se antes as patologias mentais se refletiam no corpo, atualmente, na era da obsessão pela imagem, o corpo fora do padrão ocasiona os disturbios psicológicos. Veja a entrevista de Orbach ao programa Milênio, da Globo News, aqui. Um dos pontos mais importantes de sua fala é a relação entre a criação da baixa auto-estima e o consumo: adoecer as pessas dá dinheiro. O mercado da “beleza” é vasto e lucrativo. E, pelo andar da carruagem, ainda vai render muito.

De relativa facilidade técnica, a dança do ventre é conhecida pela democrática recepção a diferentes compleições. Em princípio, pessoas “fora dos padrões” conseguem se desenvolver na dança e executar todos os movimentos sem maiores dificuldades. No entanto, os corpos respondem de modo diferente aos movimentos. Um corpo com musculatura rígida vai ter efeitos mais “sequinhos” ao executar movimentos de trancos, por exemplo, ao passo que corpos mais flácidos e carnudos darão espaço para a reverberação do movimento. Corpos muito magros exigirão maior expansão na execução de certos movimentos. Giros e deslocamentos ágeis exigem alinhamento postural e boa distribuição do peso, o que se torna difícil para obesos. Tremidos delicados aparecem com mais dificuldade em bailarinas extremamente magras, enquanto os shimmies amplos às vezes parecem poluídos em mulheres de quadris muito largos. Como a dança do ventre não apresenta um código coreográfico fechado, basta às bailarinas escolherem seu repertório de acordo com seus objetivos.

guerzamzam

É, portanto, uma dança muito generosa, pois os movimentos podem sempre ser adequados à intenção do corpo em dança. À excessão do balé, não conheço nenhuma outra dança que exija uma determinada conformação corporal para sua prática. Agora, o essencial deste debate deveria ser a relatividade do belo. Nem tudo que é pintado como referencial de beleza é unânime.  O padrão de beleza da mídia apresenta elementos que, para mim, são feios. Há movimentos e tendências na dança do ventre que não considero bonitos. Essa característica humana – a autonomia, o livre pensar – deveria ser sempre nosso guia.

roensaio9-compac

A dança do ventre deveria, portanto, nos proporcionar bem-estar. Mas insistimos em nos refletir em corpos ratificados por comerciantes. É uma dura luta, travada diariamente. Auto-estima é um elemento melindroso de nossa subjetividade. Danificá-la seriamente é bastante fácil.