Brincando de escolinha. Ou qual é o real valor do seu trabalho?

Muito já se falou da leviandade de algumas mulheres que começam a atuar em meios profissionais seja ensinando ou dançando. Pessoas que não estudaram o suficiente ou se dedicaram o suficiente para preencher funções que exigem necessariamente estudo e dedicação são alvos de queixas e reflexões há tempos. Mas a falta de comprometimento pode ser mais grave: pode ser sistêmica, irreflexiva e desleal.

Fazer um show profissional é coisa séria: precisa apresentar uma dança segura, madura e eficiente, como exige o campo do entretenimento remunerado. Precisa se fazer bonita: ter um figurino fino, ser pontual, portar uma maquiagem impecável, cabelos em ordem. Precisa saber fazer bom uso dos acessórios, pois todos os contratantes querem bailarinas que dancem com véu, espada e o que mais fizer de sua festa um evento memorável e de bom gosto. Não é fácil ser bailarina profissional. Preparar-se para garantir o brilho do evento dos outros exige uma formação continuada e dedicada. Um show desses não pode ser baratinho. E já falei sobre esse assunto há tempos.

Dar aulas, por sua vez, é ainda mais complicado. A professora de dança do ventre tem por função não apenas transmitir técnica e criar seqüências. Ela é também um espelho do corpo da outra. A professora dessa matriz de movimento inspira, indica e incute valores que dizem respeito ao feminino; a sala de aula é, afinal, um espaço de trocas de idéias entre mulheres e a figura da professora é central.

Além do possível papel ideológico (trata-se, enfim, de um meio bastante heterogêneo), todo profissional da educação é responsável pelo bem-estar de seus alunos enquanto estão sob seus cuidados. Isso inclui saber como conduzir uma aula, do alongamento ao relaxamento. O serviço contratado é proporcionar dança, mas também bem-estar. Um exemplo bem banal é saber se a aluna tem histórico de labirintite na família antes de achar que sua dificuldade em executar seqüências de giros é fruto de falta de exercício. É saber escolhar as palavras para explicar, para relaxar, para brincar e para falar sério. Saber adaptar o movimento e a aula em si às necessidades de cada aluna é resultado de observação, atuação, dedicação.

Uma professora de dança do ventre de qualidade não se forma da noite para o dia e não é fruto de cursinhos de formação genéricos, que, no mais das vezes, batem na mesma tecla: seqüências clássicas de Reda, conhecimentos básicos de acessórios, decoreba de ritmos, uma bobagem ou outra de anatomia e zero noção de didática e sensibilidade em sala de aula. Mas essa é uma conversa deveras comprida para esse pequeno retorno ao blog.

Essa professora que compreende, ensina e se dedica fez aulas regulares (matriculada em um estúdio) por pelo menos três anos. No mínimo. Nesse período, deve ter consumido pelo menos dois workshops por ano para se manter atualizada. Varou noites estudando, pesquisando, procurando compreender (e não simplesmente decorar) ritmos, estilos e nuances da dança. Consumiu figurinos, acessórios, vídeos, música. Certo dia, conseguiu começar a ensinar. Seguiu ensinando. Quanto ela recebe por todo esse investimento financeiro, intelectual e emocional?

A maior parte dos estúdios que conheço pratica parceria sobre mensalidade por aluna. A escola atrai as alunas e as distribui de acordo com a disponibilidade de cada cliente. Assim, obviamente, as professoras com horários mais procurados e maior carisma (leia-se habilidade para manter as alunas interessadas) têm maior retorno. Mas todas sabem quanto vão receber e que aquele valor não será uma ninharia com base no valor da mensalidade cobrada. Mesmo que essa mensalidade seja tristemente baixa relativamente a outras atividades físicas. Todavia, é uma professora valorizada.

Não consigo compreender, porém, como uma professora pode aceitar dar aulas para turmas lotadas recebendo porcentagem sobre uma mensalidade simbólica. Isso acontece quando a escola inscreve-se em sites de compra coletiva. Mensalidades de dança do ventre a R$30 em uma cidade que tem um dos metros quadrados mais caros do Brasil. Não estou nem falando do meu lado, o de proprietária e diretora de escola. Isso pode ficar para outro momento. Estou pensando unicamente no lado fraco da corda. A professora que se convence de que vai, sim, ser bacana, trabalhar com turma lotada por, sei lá, três meses, e receber algo em torno de R$60 por mês/turma, se muito.

Uma profissional do pilates me contou indignada sua experiência com uma dessas promoções. Ela recebia R$15 por aluna (são aulas individuais, para piorar). Pilates exige um estudo muito aprofundado. A pessoa é formada em fisioterapia (que, em Brasília, não é oferecida pela UnB, ou seja, ela precisou pagar caro por sua formação) e recebia esse valor por hora trabalhada. As alunas não ficavam: pulavam de oferta em oferta.

A professora de dança do ventre que topa ser parceira do estúdio que trabalha com sites similares acredita, de fato, que essas alunas de cupom vão seguir estudando? Que pagarão a mensalidade regular ao fim da promoção (há promoções com duração superior a seis meses)? Essa mensalidade pagará a gasolina para chegar até o estúdio, pelo menos? Dá vontade de rir e chorar, juro.

Há tantas perguntas e o tema é interminável. Mas o que queria mesmo com esse texto era levantar a bola desse tipo de discussão: a professora de dança do ventre presta um serviço a seu próprio ego ou ao legado da dança? Se prestam ao próprio ego, por que é professora, em se considerando que uma das premissas do educador é a negação do egoísmo? E, principalmente, se os estúdios especializados não valorizam financeiramente a dança do ventre e ficam brincando de escolinha, quem o fará?

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3 comentários sobre “Brincando de escolinha. Ou qual é o real valor do seu trabalho?

  1. Duas ideias vem à minha mente depois de ter lido o texto: deslealdade com o próprio investimento e falta de ética com o meio. Mas vou começar a minha fala lembrando de uma questão: o que leva alguém ser professora de dança? Vocação ou necessidade de um rendimento mais ou menos estável para bancar seus gastos na própria dança? Ou os dois? Mas se for os dois, qual pesa mais? O lado que a balança pender vai dizer muito como será a postura desta profissional. Oferecer aulas a 30 pilas pode dar certo no 1º, 2º mês… Mas uma hora as contas chegam, as alunas se cansam, partem para outra oferta “peixe urbano” e….. ??? Acredito que este tipo de marketing funciona como chamariz, porém…. a manutenção do público que chega através deste chamariz é um outro capítulo. Aí é que a gente vê quem se mantém.

  2. Oi, Roberta, estamos felizes com sua volta!

    Vivi, no meu caso, a vontade de dar aulas veio de necessidade de um rendimento mais ou menos estável para bancar seus gastos na própria dança e automaticamente quando eu decidir tirar o DRT e me assumir como profissional.

    Infelizmente. Hoje, eu oriento minhas alunas de forma diferente: eu digo que se quer ser profissional para ganhar R$ 100,00 no restaurante, tudo bem, mas dar aulas é outra coisa. Tem que ter disponibilidade para estudar constantemente e se preparar para ser cobrada de forma cruel.

    Enfim. Sempre levei esse lance de dar aulas serio, mas hoje isso é uma das coisas mais importantes para mim.

  3. Ró, pra mim isso tudo é irracional. Eu não vivo de dança, mas quando cobro cachê ou dou aula NUNCA, em hipótese alguma, cobro abaixo do valor do mercado – porque eu bem sei quanto meus estudos, figurinos, acessórios, workshops e maquiagens me custaram.
    Eu não entendo dar aula quase de graça. Se quer fazer caridade, vai ser voluntária em uma comunidade. O que não falta é moça pobre, moradora de Subúrbio, precisando de uma oportunidade assim.
    Pra mim, essa lógica que vc relatou parece mais uma tentativa de quebrar o próprio mercado. A princípio, a dona da escola anunciada acha que vai conseguir, por causa do baixo custo, angariar alunas de outras escolas. Ela pode até conseguir. Mas o mundo dá voltas.
    Primeiro que nenhuma aluna que leve a dança a sério, escolhe professora pelo baixo custo. Segundo que manter uma mensalidade tão baixa assim, além de prejudicar a concorrêcia, prejudica a própria escola – que não conseguirá sobreviver por muito tempo nesse esquema.
    Eu acho que isso tudo é um tiro no pé. E de fuzil. Não tem reparo, não, fa. E destrói tudo que está junto.

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