Arte e entretenimento

O potencial artístico da dança do ventre é largamente desprestigiado. Por quem? Por nosso próprio meio, como muitas de nós percebemos. Estava hoje negociando a vinda de uma artista para ministrar curso às praticantes brasilienses e nos assombramos com o quão pouco podemos cobrar pelas aulas. Não podemos fazer um preço além do mercado, claro. O problema é que o mercado andou contra as artistas da dança: se há dez anos pagávamos 250,00 por um workshop de 4 horas com uma bailarina de ponta, hoje o preço médio é de 150,00, se muito.

Por que? Tem tanta bailarina poderosa assim no mercado? Não. O que está acontecendo é uma acomodação de mercado dolorosa. Alguns grupos comerciais estabelecem um preço para shows e oficinas e o resto segue em frente, cabeça baixa, acreditando que ou se adapta ao mercado ou se morre. A discussão, na verdade, é bastante mais profunda do que a simples imposição dos grupos majoritários sobre o mercado.

Para ilustrar, cito um tema que se mostrou polêmico novamente no blog da colega Vera, o Ammar al Binnaz. Ela traduziu um texto publicado na Gilded Serpent que, de modo bastante duro, informa às leitoras que o mercado é cruel em relação ao corpo da artista e que, se querem ser profissionais, o melhor é que se adequem a ele.  Ok. Tenho um comércio de dança do ventre: uma escola. Nessa escola atuam profissionais e muitas delas são bailarinas que oferecem seu trabalho para shows particulares. Sei bem o que o público leigo quer em uma festa: uma artista bonita e talentosa.

Meu questionamento ao texto e aos comentários que se seguiram à sua publicação no blog da Vera relaciona-se ao nosso próprio entendimento sobre a atuação da profissional da dança. O texto claramente limita a atuação profissional à performance sob a batuta do contratante. Isso, per se, exclui 90% das praticantes da dança. Para ser profissional eu preciso me apresentar em clubes, restaurantes e festas particulares? Se sim, eu não seria uma profissional.

Sabendo-me profissional, me recuso a acatar tamanha limitação. Uma mulher que ensina, estuda e coreografa para o corpo do outro não é uma profissional da dança do ventre? Claro que sim! Uma bailarina que dança apenas nos espaços em que pode se expressar artisticamente (chás, mostras, espetáculos) não é profissional? Claro que sim!

Nosso problema, como bem a Shaide colocou nos comentários daquele post, é que acabamos por nos acomodar e, com isso, ensinamos nosso público a acatar a estética em detrimento da arte. Não, na verdade, não fizemos isso tudo sozinhas: os homens árabes ativos no meio da dança do ventre, na verdade, têm muita responsabilidade na marginalização da dança como um todo e no barateamento da dança do ventre feita pelas brasileiras em particular (não sabia disso? Então leia esse artigo aqui, ó. Se vc não consegue visualizar, vá à biblioteca da sua universidade, que deverá permitir o acesso). Essa sim, é a verdade cruel.

Que bem faz à praticante novata da dança dizer a ela que, para ser bem-sucedida, precisa estar “em-boa-forma” (um termo ridículo)? Não compreendo. NÃO PRECISA SER MAGRA PRA DANÇAR. Hello!!!!! Desculpe gritar assim, mas é um pensamento que me assombra de tão tacanho, acomodado e perigoso.

Cara, simplesmente dançe e difunda seu entendimento sobre a dança. Dane-se o restaurante, dane-se o contratante que acha caro pagar pela artista, danem-se as festinhas de aniversário de 80 anos que pedem uma gostosa. Afe!!!! Pensando em mercado, de fato, não se produz arte.

P.S.: cabeçalho bonito, né? Presente da Vivi, essa mulher linda, poderosa e uma verdadeira amiga da dança do ventre!

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11 comentários sobre “Arte e entretenimento

  1. Oi, Roberta

    eu participei da discussão dizendo que concordava com o texto e mesmo lendo seu comentário lá e seu texto agora, mantenho minha opinião.

    É claro que só participar de eventos, coreografar, trabalhar como a Camilla D’amato trabalha (esqueci o nome, mas aperfeiçoa profissionais), ter uma escola, dar aulas, workshops fazem parte da profissão e não impede ninguém de viver de uma dessas coisas.

    A questão foi centrada sim em restaurantes e eventos particulares e eu ainda mantenho minha opinião porque em quase 11 anos de Dv (como aluna e como professora) eu NUNCA ouvi do público leigo (de diferentes públicos em diferentes épocas, inclusive antes d’O Clone) que gordinhas/feiinhas/esquisitas era uma coisa bonita de se ver, pelo contrário.

    Pensamento tacanho? Pode ser, mas essa não foi a questão. A questão é de é assim e precisamos lidar com isso; eu coloquei aparelho nos dentes ano passado para quê? Eu tava com problemas de mordida? Não.

    Qual a solução? Acostumar o público com bons trabalhos, independente do peso para que o leque de opções seja maior.

    Beijos e excelente discussão!!!

  2. Não tenho dúvida de que você seja profissional. Aliás, profissionais como você que escolhem onde se apresentam são os que mais me atraem.

    Porém, para quem quiser dançar em bares, restaurantes e afins, a coisa funciona como o texto que a Vera traduziu. E já senti isso na pele. Infelizmente. Por isso eu só danço em lugares onde as pessoas querem ver dança e não uma gostosa (coisa que não sou) rebolando. E como só faço aulas, não tenho uma academia e essas apresentações em teatro são bem escassas, eu não me considero profissional.

  3. Acredito que o custo de vida aí em Brasília deva ser mais alto, porque aqui em Minas, a Carlla Sillveira iria oferecer workshoops mensais com Lulu, Jade el Jabel, Tarik e ela própria, nessa faixa de 250 pra três horas com a Lulu (promoção de 150 pra quem contratasse 6 aulas no mínimo) e uns 200 pra três horas com os outros e 100 na promoção.
    Eu estava animada a fazer as aulas com a Lulu, mas por falta de público acho que cancelou o curso todo.
    Acho que você vai discordar, mas acho que estava salgado. Justo mais salgado.
    Não desmerecendo vocês profissionais, claro, mas levando em consideração a realidade brasileira onde a maioria não ganha muito.
    Acho que subir o preço não é questão de terem se acomodado, mas de ter consciência da compatibilidade com os salários de outras pessoas.
    Mas como você mora em Brasília, acho que também faz diferença, porque a renda de vocês aí é maior.
    Talvez uma saída seria as profissionais determinarem um preço de acordo com a região que visitam. De repente o que é muito em um lugar, em outro é pouco.

    Abraços.

  4. “…ensinamos nosso público a acatar a estética em detrimento da arte”.
    Sabe, o ser humano vai esquecendo o valor das coisas conforme ele se distancia delas.

    Minha mãe é costureira, assim como minha vó, minha tia, minhas vizinhas… E eu sei o valor desse trabalho. Mas vem gente reclamando de pagar R$5,00 pra fazer a barra de uma calça jeans, já que com um pouco mais que isso se compra uma calça nova na gôndola do Wal-Mart.

    A agulha só espeta o dedo de quem borda na vida.

  5. Walkiria, perfeito exemplo. Eu sinto muito pelo quanto desvalorizadas estão certas profissões tão bonitas e importantes.
    Como profissional, eu entendo os dois lados e fico meio dividida. Primeiro, por que quando se trata de mercado, sempre haverá a exigência estética superior ao fundamental. Fica muito difícil incutir no coletivo que a ordem inicial que introduz certas atividades não seja a aparência, pois faz parte de um “todo harmônico” esperado. Acho que a aparência é o que chama a atenção para o que automaticamente deveria ser ainda melhor artisticamente, e a competência artística seria o que mantém esta atenção. Não podemos ser hipócritas de negar que existem padrões preferenciais. Me considero um tanto fora destes padrões e percebo que demora-se muito mais tempo para alcançar certa evidência e ter oportunidades de expor a “verdadeira face”, mas claro que me considero profissional mesmo assim. Apenas não posso exigir que, mesmo sabendo dançar, não me achem gorda ou feia, é um risco que se corre, e o desleixo nesse aspecto, preciso assumir. Não acho que seja desestimulante correr atrás da “boa forma” para dançar. Acho que é uma coisa que, se de forma saudável, é muito benéfico em todos os sentidos. A boa forma a que me refiro é o equilíbrio: no fundo sabemos que a magreza ou a gordura, até mesmo a plástica, em excesso, não são sinais de saúde. Não acho isso tacanho, nem acomodado. Pelo contrário, acomodado é quem não quer se mexer pra melhorar e embelezar sua expressão: a dança merece dedicação neste sentido também. Mas isso é só minha opinião…
    E quanto aos valores, percebi claramente a diferença. Ficou ainda pior pra quem vive da dança. Mas ao mesmo tempo, não deixa de ser natural para um mercado que se expandiu tão rápido. Tudo que deixa de ser novidade ou exclusividade, sofre uma queda no valor, não interessa qual a atividade. E talvez a quantidade de concorrência venha justamente da falta de direcionamento na sala de aula. A arte é para todos, mas para sair dando aula, deveria-se ter senso crítico e práticas bem mais apuradas por parte da aluna e exigidas por sua professora. O público está menos restrito, as “profissionais” se multiplicaram como coelhos…então pergunto: seria o nosso objetivo? Imaginávamos esse boom, nos velhos tempos? Estamos preparados para lidar com tal situação? não temos nenhuma responsabilidade nisso?

  6. É isso, Ró. Concordo com a Dai. E concordo com o texto da Gilded.
    E vejo uma divisão clara: mercado x arte.
    Eu quero fazer arte, ainda que não atenda aos parâmetros do mercado.
    Tem quem queira apenas o mercado, ainda que sua dança seja enlatada e seja difícil se falar em arte dessa maneira.
    E tem pessoas que vão continuar insistindo que os dois podem caminhar juntas. Como vc, por exemplo.
    Não desista. Acho que esse movimento é necessário e dou o maior valor. Mas acredito que pra mudar o pensamento vigente, é preciso uma transformação social muito maior e, sinceramente, sem querer lhe desanimar, não vejo luz no fim do túnel. É preciso coragem para seguir esse caminho. Por isso, faço as minhas reverências a você.
    Eu, particularmente, que não vivo financeiramente de dança, prefiro continuar na minha posição confortável: faço minha arte. Não pretendo emagrecer, ter barriga de tanquinho, nem deixar o cabelo crescer. Também não vou dançar as músicas da moda para agradar ninguém. Vou me vestir cheia de saias volantes e mostrar minimamente meu corpo. Dançarei minhas músicas com chiado de tão velhas quando me der na telha. Farei experimentações inovadoras quando sentir vontade. Dançarei o que vai a minha alma. Não pretendo me adequar e inserir passinhos da moda, ainda que tenha que pagar o preço de nunca ser vista como uma profissional do meio.
    Sei que isso é rebeldia. Aliás, um dos elementos fundamentais para essa tal transformação social que, acredito, poderá culminar na possibilidade de outro olhar sobre a nossa dança. Persisto, mas não tenho grandes ilusões, amiga…

    E o meu layout tb foi Vivi que fez!
    É chique ter amiga que sabe mexer em photoshop, viu? Risos!

  7. Sobre valores, concordo que o tempo jogou contra a bailarina neste quesito e acho que a coisa funciona mesmo como a Lory comentou, tem gente que quer pagar menos e ponto, a qualidade não é o mais importante neste caso. Em muitos casos, também ocorre da bailarina se sujeitar a ganhar menos para ter mais trabalho.
    Eu acho R$ 250 muito salgado para minha realidade financeira e pelo papel que a dança tem em minha vida atualmente. Gamal Seif, que é o melhor professor que já tive de dança, tem qualidade para cobrar R$ 500 mas custa R$ 250 um aulão de 6 horas com ele e sei que cada vez é mais difícil trazê-lo, justamente pq muitas pessoas tbém não pagam este valor.
    Sobre a questão profissional eu concordo com suas reflexões, também achei o texto da Gilded tendencioso a rotular profissional apenas bailarinas performáticas. Também não acato esta limitação.
    Para mim a questão profissional funciona assim, se é remunerada, contratada, seja por performance, seja por aula, é uma profissional. Simples!
    Se é uma boa profissional, se tem embasamento técnico e conhecimento, se apresenta didática, estética, aí são outros quinhentos…
    Quanto à questão estética x arte eu acho que somos nós as trouxas que aceitamos as imposições do mercado. Como bem colocou a Daiane é preciso fazer uma escolha e assumi-la.
    Eu não atuo mais profissionalmente, mas isto ocorre pq não estou mais aplicando minha energia na profissão, não estou mais dando aulas e só danço quando sou convidada por amigas e onde estou afim, sem remuneração. No entanto, isso não me torna amadora, vez que conhecimento e vivência não se perdem. A qualquer momento posso atuar no mercado profissional se assim desejar, afinal continuo meus estudos, me movendo e amando esta arte. Meus cabelos curtos e meu sobrepeso não são fatores que me impediriam, mas essa mentalidade geral do povinho bellydance de se enquadrar, ah, isso sim, dá uma preguiça de lidar!
    Já passou da hora das bailarinas deixarem de ser gado, de seguir tendências e modinhas de passos, de roupas, de se “adaptar” ao mercado. Artista sem personalidade não tem futuro, depois não adianta culpar a balança.

  8. sei la nao me sinto menos valorizada que qualquer profissional que lide com cultura nesse pais, sou delegada da cadeira de dança no minc por sergipe e tb lido comprojetos artisticos e culturais nas area de artes visuais e isso é geral, realmente não vejo que seja um privilégio da dv.
    depois mercado é mercado, arte é arte sao 2 coisas distintas, se um necessita do outro ha de se consiliar, mas essa discução é mais velha que andar pra frente e mais insoluvel que a questão do ovo e da galinha
    ruim é se trabalhar com cultura e arte nesse pais, a dv é só mais uma das modalidades a mingua

  9. Quando vejo que muitos se coformam com os mandos e desmandos de um tal ‘mercado’, ao qual atribuem o sucesso ou insucesso de suas carreiras, eu me pergunto: tanta submissão aceita espaço para a criação?

    Bem… Podem discordar, mas entendo que para quem deseja ser artista, o conformismo pode ser muito perigoso.

    Ro, como sempre você trazendo textos bem feitos, com reflexões que merecem ser debatidas. Ainda que apenas alguns tenham compreendido o real cerne de sua reflexão. Mas dias melhores virão. Enquanto isso, continue – continuaremos – escrevendo!

    bjks.

    (PS: ‘gradecida por aceitar meu ‘mimo’! rs)

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