Do desconforto plástico

Há tempos estou para comentar sobre a estética na dança do ventre. É uma dança que nos faz mais vaidosas, fato. Nos sentimos mais seguras e queremos externar isso. Já vi alunas se transformando drasticamente depois de poucos meses de dança: de insegura e (aparentemente) desleixada a mulher forte e cuidada. Claro, estou falando aqui do campo do endereçamento ao outro: mais desenvolta ao falar, cabelos com corte moderno – algumas vezes com nova cor – unhas, modo de se vestir… Não dá para dizer muito sobre uma revolução sólida na esfera íntima sem uma pesquisa direcionada, entretanto.

E sabemos que há muita expectativa – e cobrança – em torno da imagem da bailarina profissional. “Bailarina não pode isso, bailarina não pode aquilo, nem aquilo outro”. Fumar, beber, falar palavrão? Não, não pode. Unha nua, olheira, ausência de maquiagem, roupinhas confortáveis, chinelo de dedo e cabelo sem escova ou babyliss também não combinam com bailarina. Tem que estar sempre linda e cheirosa. Uma fada. Sempre entendi que essa postura deveria ser cobrada apenas em sala de aula ou quando com o figurino. Mas não é por aí que costuma pensar nossa comunidade de dança, como pode ser aferido em alguns foruns do orkut e artiguinhos por aí (preguiça de procurar link agora).

O controle sobre a imagem da bailarina profissional é tão pesado que a maioria acaba se transformando tanto que muitas vezes custamos a acreditar. A primeira das incursões ao body modification começa no mais evidente signo de identidade de gênero: os seios. Lábios e maçãs do rosto costumam ser o alvo das próximas visitas ao consultório. O próximo passo é a terrível e perigosíssima lipoaspiração.

Junto com a Samara tentei por um tempo manter um blog sobre os riscos das intervenções cirúrgicas com fins estéticos não essenciais, o Panóptico Feminino. A vida acabou tomando outros rumos, perdi a senha e jamais consegui retornar. O objetivo era fazer um clipping com poucos comentários, uma especie de painel mórbido da cirurgia plástica feminina. Não é preciso muito esforço para ver que esse é um mercado poderosíssimo e perverso. Por que então as mulheres se submetem a isso com tamanha temeridade?

A resposta é bem óbvia e repetitiva: por causa dos modelos de feminino que nos enfiam goela abaixo. Nenhuma mulher aceitaria de bom grado a insersão de uma prótese de material suspeito em seu corpo por volição própria – a não ser que tenha passado por mastectomia radical ou que tivesse um sério problema de desenvolvimento mamário. Sentimo-nos mal com nosso corpo porque nos é dito cotidianamente que esse corpo não é bom o suficiente. Nunca será, na verdade. Basta ver os horríveis sites de fofoca que apontam, quase babando de prazer sádico, a celulite de uma modelo de passarela ou um traço de gordura sob o umbigo de uma atriz. Um mundo alucinado de photoshops e autotunes.

Assisti ontem a um filme com um mote interessante: no futuro, as pessoas já não operam atividades de qualquer tipo, incluindo sexo e o uso de drogas. Quem faz isso por elas são suas réplicas robóticas, os “substitutos”, operadas pelo ser humano no conforto do seu lar. As réplicas são todas belas e podem tudo, sem acarretar riscos para os humanos (mais ou menos, como mostrará o filminho, num roteiro bem lambão).  As pessoas vivem felizes não se expondo ao olhar alheio; em suas casas, estão sempre de pijamas, descabeladas, sem maquiagem. Elas finalmente podem interagir sem o julgamento do outro, já que todos escolhem “substitutos” com concordância com as regras estéticas de seu mundo. Surreal, né? Ou nem tanto?

Na dança do ventre as mulheres parecem se angustiar por não parecerem com uma bailarina-modelo: em época de espetáculo é muito comum ver que as que não colocam próteses internas apelam para as externas. Há soutiens com tanto enchimento que custa-se a acreditar que um seio humano consiga se espremer lá dentro. Querem ficar com os seios altos, cheios e vigorosos. Ainda não vi em Brasília quem seja masoquista o suficiente para espremer os seios como a Randa, por exemplo. Mas já ouvi gente dizer que acha lindo.

Creio que devemos valorizar nossos corpos e chamar atenção para pontos positivos. Afinal, somos regidas por esse padrão estético e é praticamente impossível escapar de toda a sua interpelação. Afinal, logo na dança do ventre, onde deveríamos nos sentir mais livres, acabamos por nos deixar engolir pelo estresse do corpo perfeito.

Bom senso é a medida. Se dói, se incomoda, se perturba, recuso.

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13 comentários sobre “Do desconforto plástico

  1. Pois é. Recusar o que não é nosso pra entrar no padrão e ao mesmo tempo não ficar xiita a ponto de recusar todas aquelas coisinhas que realçam a beleza para ficar mais de bem consigo mesma é uma equação difícil entre bom senso e coragem. Eu ainda morro lutando.
    Beijos.

  2. Xi, flor de maracujá….Esse assunto dá uma tese.Uma não, várias.
    Penso assim… Podemos ter uma cabeça boa, mega resolvida. Mas é um esforço hercúleo ser totalmente imune ao discurso da mídia e, consequentemente, das pessoas (que vão pelas ideias da mídia, dâ).
    Como vc diz no post, há que se ter um bom senso. Ok se cuidar, melhorar o que pode ser melhorado. Preocupa-me o exagero, quando a pessoa se torna prisioneira de sua obsessão e deixa de curtir a vida em nome de algo que não vai satisfaze-la (e não satisfaz mesmo, conserta-se uma coisa, logo acha-se outra prá arrumar e assim vai…).
    Também estranho esse comportamento no meio da dança, justamente da DV, onde as mulheres seriam “numa primeira noção” mais desencanadas com esses mandos e desmandos da mídia. Mas é que acontece o seguinte, veja se vc concorda comigo: Quanto mais íntima da DV uma mulher fica, se sente mais dona de seu corpo e mais ciente do controle que cosegue obter dele. Mas ao mesmo, na outra janela, começam a vir os apelos da profissionalização, do apresentar-se em público e aí, o foco é outro: o da imagem pessoal, da boa aparência.
    É um dilema: cedo ou não cedo? Como humanos eternamente dependentes do reconhecimento alheio, cedemos.
    É foda, fia. Concordo com vc.
    Beijóquis.
    Vivi

  3. Amei!!!
    E isso é um assunto tão delicado, porque sabemos que não dançamos bem qdo não estamos nos sentindo bem com o nosso próprio corpo. Entretanto, se se sentir bem significa está dentro dos padrões estéticos aceitáveis, a paz para dançar se traduz em muita academia, cirurgia plástica e afins…

  4. Olá, infelizmente por não poder seguir seu blog, perco muitos textos seus que quando chega um na minha mão, nunca me decepciona.

    Nem vou comentar sobre cirurgias e afins, mas sobre a aparência de uma bailarina profissional fora dos palcos.

    Ensino desde o início a importância da boa aparência e dos bons modos em um evento de dança. É fundamental!

    Eu bebo e falo muito palavrão, mas só quem sabe disso são meus próximos. Costumo dizer a elas, como aprendi com minha professora, devemos ser deusas dentro e fora do palco.

    De que adianta arrasar lá em cima se quando você desce parece que vc está indo pra feira?

    Beijos e parabéns como sempre!!!

  5. Flor, por mais que concorde com vc em tudo que disse, sei que daqui há alguns minutos vou me pegar me olhando troto no espelho e pensando se aquela roupa nova amarela vai cair bem com essas gordurinhas, sabe? Isso é social, está enraizado na gente que só mesmo muito divã e senso crítico para nos fazer maneirar. Tenho tido grandes problemas com o espelho quando tenho que dançar. E sempre me dou conta que esses prblemas estão relacionados ao estereótipo de bailarina magrinha e sem celulite. É difícil se manter fora dessa nóia. Ainda tô aprendendo.

  6. Ai, galera. Preciso falar . . .
    Primeiro: obrigada Ro pelo texto magnífico.
    Agora, de boa – já estive em muitas situações físicas, digamos assim. Vou dizer que você não precisa estar fora do padrão pra se sentir insegura. A época que mais fiz sucesso eu estava beeeem longe do padrão, inclusive aquele que vocês imaginam. Eu dançava descabelada mesmo, deixava marcar minhas gordurinhas quando fazia básico egípcio e deixava minha bunda tremer.
    Autoconfiança é tudo e tesão dançando é tudo. As pessoas querem ver gente de verdade que tem coragem de ser o que é.
    Ressalva: Tudo tem um equilíbrio – tanto que sofri as consequências no meu corpo e na minha saúde quando outros problemas se manifestaram e claro – nosso desempenho cai sim. Quando você engorda 3 quilos por semana – como aconteceu no meu caso.
    Mas na época em que eu estava super magra, rigorosa e extremamente disciplinada – hoje vejo as fotos e percebo a dimensão da coisa – eu me achava super gorda. Muitas vezes dançava morrendo de medo de balançar uma coisinha a mais. Cuidado! Todas nós somos de carne, osso e o mais vulnerável: sentimentos e emoções.
    Transtornos alimentares (e de imagem) podem ser escondidos e negligenciados por muitos anos, a gente mesmo se engana.
    Hoje, só quero me respeitar, me tratar bem e encontrar equilíbrio.
    Valeu, meninas.

  7. Como já disseram, mesmo sendo bem resolvido é desgastante receber todas essas informações sobre como o nosso corpo deveria ser. No mercado brasileiro eu acho que essas intervenções no rosto ainda são menores, comparando com as cantoras e artistas libanesas.
    Percebo que a obsessão com o corpo é maior. A barriga, os seios, a celulite etc…
    Pra se sentir bonita a gente quer pertencer a esse seleto grupo de mulheres incríveis…Mas o que eu acho mais triste na dv, nas mulheres em geral, é a habilidade que temos em destruir a imagem alheia. Não entendo como possa ser divertido para algumas detonar o corpo das outras. E no caso da dv isso acontece sempre, principalmente, com aquelas que estão ainda mais fora do padrão. A lingua fica ainda mais afiada. Triste!

  8. Oi, Rô! Estamos com transferência de pensamento, porque escrevi um texto parecido sobre vaidade feminina mais ou menos no mesmo dia que vc! Mas não relacionado à dança de ventre. Tem muita coisa que não entendo sobre dv (olha só que chique, eu usando abreviação, como se eu soubesse o que é dv), e o seu blog é o único que leio sobre o assunto. Tudo que sei sobre dv é através de vc. Olha só o tamanho da sua responsabilidade! Abração!

  9. moça, muito legal o post. caí aqui por acaso, e concordo contigo. comecei a fazer aula faz duas semanas e ainda não tenho coragem de ir de barriga de fora – por que? minha barriga é linda, tem umas gordurinhas e um umbigo, hehe! é dificil demais a gente não se deixar levar pelas expectativas do mundo. mas fica mais fácil quanto mais pensamos, discutimos e lemos sobre isso. obrigada! beijo.

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