Depois do avançado vem o que?

Em janeiro o Ayuny vai lançar seu método. É. Método para o ensino da dança do ventre. Já começamos a aplicá-lo parcialmente, ao menos no tocante às diretrizes gerais para o desenvolvimento da aluna e as regras de mudança de nível. Em nossa escola organizamos o aprendizado da aluna nos seguintes níveis: básico A e B, intermediário A e B e avançado. Nenhuma novidade nisso. O método não revoluciona aí, mas sim no conteúdo que se espera que uma aluna apreenda para a mudança de nível.

O mais importante não tá bem aí. O importante é que as turmas não mudam de nível como um todo; a aluna é que muda de turma/ professora. E isso desata um pouquinho de chororô. Pelo que pude aferir, mais das professoras do que das alunas. Expliquei às minhas alunas de iniciante logo no início: vocês irão se desenvolver e passarão para outra professora. “Ah, não!”, “Ah, fom!”, “Ah, nem!” Até que elas viram a carinha da próxima profe e ouviram mais um pouco sobre a cuidadosa seleção de profes da escola e tal e coisa. Daí se empolgaram e ficaram felizes.

Só que a maior parte das professoras que conheci nessa vida se apega mais às alunas do que estas a elas. Já rolou comigo. Quando comecei a alçar vôo rolou desconforto; quando alunas alçam vôo dá aquela dorzinha de saudade. É isso aí mesmo, assim é a vida, que é uma loucura, um eterno aprendizado [/Narcisa].  É importante mudar de professora sim. É primordial, principalmente depois do intermediário. Porque a bailarina vai se formando. Se fica com a mesma “tia” a vida toda, vira um pastiche dessa tia. Não desenvolve estilo próprio, leitura musical própria, coreografias próprias. Vira tudo uma cópia da professora. Ruim, né? Você não quer pra você. Vai querer isso para suas alunas? Não.

Então aí começa outro dilema: a idéia de subir para o avançado ou para o inter B não agrada a algumas alunas. Talvez por medo da resposabilidade para algumas, já que nesses níveis espera-se que as alunas já esbocem autonomia. Mas na maior parte das vezes eles têm medo de que a brincadeira acabe. Porque é bom demais só ficar fazendo aulinha. Bão demais encontrar a mesma turma, dançar sem muita preocupação. E aí a dúvida: “depois do avançado vem o que?”

Vem o que você quiser. Vem mais aulas. Vem a possibilidade de ir fazer aulas na turma que quiser porque a professora X tem um estilo único e interessante de ensinar. Vem a possibilidade de fazer aulas com um músico que vai te virar de cabeça para baixo. Vem a possibilidade de enfrentar ainda mais aulas e se tornar uma professora. Ou você pode simplesmente continuar dançando, cada vez mais autônoma, na escola ou fora dela.

Parece cliché, mas é uma verdade: não há professora que não precise mais de estudos. Estudar sozinha a vida toda não é uma opção. Precisamos a todo o momento aferir nossa capacidade e apreender novas maneiras de dançar, entender a dança, ensinar. A professora ou qualquer outra profissional da dança que não segue tomando aulas estagna. Estagnada, como seguir cativando?

17 comentários sobre “Depois do avançado vem o que?

  1. Uhum, é isso aí, li seu texto como aluna e como agora-prof!
    Durante todos esses anos pude experimentar exatamente o que você escreveu; de fato, a gente se apega à prof e o contrário também é verdadeiro. Contudo, hoje, mais madura talvez, posso dizer que a aluna que estuda numa Escola entende [precebe] que o corpo docente organizado e integrado visa ao mesmo objetivo e qualquer prof que seja vai dar o melhor de si para aquela aluna. É lógico que cada aluna é uma cliente e tem um objetivo com a dança, e por isso temos uma missão muito mais complexa que apenas mostrar como se dança. Nosso dever é ensinar bem, oferecer o melhor serviço, fazê-la capaz de olhar pra si e dançar. Assim esta aluna vai se integrar à Escola como um todo, porque se sentirá parte dela. Ela crescerá na dança, nos seus propósitos e uma mudança de turma é pra lá de natural. O segredo [se é que ele existe] é passar às alunas segurança de que a equipe tem condiçoes de oferecer a mesma qualidade técnica em toda e qualquer turma, porque somos um corpo de professoras, não meras prestadoras de serviços.
    Quanto ao que existe depois do avançado, a linha é mais ou menos a mesma. Quando “se chega lá”, concordo que seja preciso desenvolver novas técnicas, reescrever repetório, compartilhar e conhecer conhecimento. A dança é organismo vivo, senão o alimentamos, ele morre!

  2. Adorei, Ró. Essa mentalidade de orgulho diante da afirmação “só tive uma única professora”, precisa mudar Já tive 3 professora e faço workshops e oficinas com Deus e o mundo. Acho ótimo experimentar outros padrões de movimentos, de possibilidades e de leituras. Recomendo. Depois que mudei de professora (nas duas vezes), a minha dança só melhorou.

  3. Oi Roberta, tudo bem? Sempre acompanho seu blog!
    Aqui em meu espaço eu faço a passagem de nível desta forma, me sinto bem, me sinto responsável pelo resultado das alunas também, querendo que elas evoluam sempre e com qualidade. Infelizmente, aqui temos o problema da aluna ter humildade para aceitar que a amiga dela vai passar de nível pois já está preparada e ela não, muitas veem isso pelo nível do ego e não pela dança propriamente dita. Por mais que ela seja orientada sobre os pontos que devem ser melhor trabalhados, é complicado… aí é possível até que ela saia da escola, vá para outra que ela vai passando fácil, independente de dançar corretamente ou não. Paciência…
    Outras, quando saem do “quadradinho” de repetir o que a professora faz, não seguram a onda de terem que criar a sua personalidade, criar uma dança própria…
    Lendo as colocações de seu post e, nestes dois casos, sempre me pergunto: será que a aluna quer realmente ser uma bailarina plena?

    Beijos beijos

  4. Oi Roberta!
    Além da dança sou professora de Espanhol do CNA, e esse “rodízio” de professores faz parte da política interna da empresa. No começo ficava triste de me despedir deles, mas entendi que era necessário para que não viciassem em meu sotaque, meu modo de falar ou mesmo na minha voz. Acredito que o mesmo se aplique na dança, e por isso achei o máximo que você colocasse isso em prática, pois funciona.
    Afinal precisamos lembrar que nosso maior objetivo como educadoras é o crescimento dos alunos, e não a encheção de ego que importa a muita gente.
    E por incrível que pareça, sempre indico às minhas alunas, não só outras professoras de DV, mas também outros estilos de dança e atividades corporais, pois quanto mais longe é nosso horizonte, mais rico é nosso caminho.
    Parabéns pela iniciativa!

    Um beijo.

  5. Rô que bacana isso! eu e as professoras do estúdio sempre tentamos falar a mesma língua, a gente tem rascunhado um método, mas pra falar averdade o que saiu mesmofoi o sistema de avaliação, pelo menos isso. adorei a idéia e realmente é importante essa mudança, esses novos ares. faz bem pra todas, alunas e professoras.
    beijão e sucesso!

  6. Não sou e não serei professora. Optei por ser eterna aluna. E como aluna, dou o meu pitaco.

    Eu concordo que devemos ter várias professoras. Estou na quarta, sem contar os works. Só que eu acho que EU devo determinar a hora de me separar de cada uma delas, não a escola. Bastante pessoal, certo?

    Estou no grupo das alunas que adoram aprender, mas não almejam a profissionalização. Para mim aprender o novo é interessante, mas mais interessante é retomar e aperfeiçoar. Para mim, depois do avançado não precisa vir nada.

    E quanto a virar carrasca perto do espetáculo, que é do outro post, mas mais alguém falou a respeito: a meu ver, é tudo que um grupo não precisa. As alunas já estão tensas com a apresentação, com o conseguir figurino. A coreografia numa apresentação de escola devia ser uma oportunidade legal de entrosamento e diversão, não uma busca insana de perfeição. Mas em geral, todas as professoras pegam o chicote na véspera. Por esse motivo, há muitos anos não me apresento em grupo – estou voltando esse ano. Pessoal, de novo. Mas acho que é sempre algo legal pra se pensar.

    Beijocas

    Veja bem, Samara. Uma coisa que costumo dizer às minhas alunas é que o figurino deve ser a última de suas preocupações. Porque subir ao palco linda e se achando ótima e dar vexame, isso sim deveria ser uma preocupação. Espetáculo é tenso mesmo. Não estou falando de chá e de pequenos shows, mas de um evento com uma platéia grande. A participação é opcional e todas as professoras se empenham em preparar as alunas para que esse momento seja organizado, bonito e, claro, bom de se ver. O entrosamento acontece, claro, nas aulas e ensaios. Pode ter certeza de que minhas alunas se curtem e fizeram boas amizades e parcerias em meio à minha marra. Como afirmei em meu post, as alunas pressionadas para a perfeição da execução não são as de nível iniciante e sim aquelas interessadas em aprender a dança continuamente. E a maior parte nem pensa em se profissionalizar. Mas quer fazer bonito sobre o palco.
    Quanto à proposta pedagógica do Ayuny, trata-se de uma recomendação. Se a aluna preferir seguir mais um tempo com a professora X, não há problema. Mas ela precisa receber a recomendação da escola. Não há nenhuma imposição na mudança de nível ou de professora.

  7. Sou estudante de dança do ventre e ainda não posso afirmar se serei professora desta bela arte, mas sinto-me inteiramente privilegiada em estudar em uma escola que sempre se preocupa, em preparar profissionais qualificadas, antes de lucrar com o ensino da dança do ventre, mesmo que a maioria esteja ali apenas para dançar lindamente por aí.

    Mesmo sem saber se levaria jeito para a coisa ou se teria talento, antes de iniciar meus estudos, fiz uma minuciosa pesquisa para escolher a escola que poderia me oferecer duas coisas: ensino qualificado, tradição, compromisso e respeito aos profissionais e estudantes da área, o que me levou ao Ayuny. E ao decidir adotar tal metodologia, só posso me sentir ainda mais orgulhosa de mim por ter feito tal escolha. É gratificante estudar em um lugar onde as alunas, independente de suas aspirações futuras, são tratadas de com carinho, respeito, e, sobretudo, como futuras profissionais.

    Ao contrário do que disse nossa colega Samira, penso que, qualquer que seja a aspiração da aluna, é de extrema importância que as professoras do estúdio indiquem em qual nível a aluna deve continuar seus estudos. Isso se chama compromisso com o ensino e respeito ao dinheiro que é pago por elas. Agora, se a aluna, por apego às colegas de turma e à querida professora, preferir continuar onde está, essa equivocada opção pode e é sempre aceita. Contudo, como uma turma é formada tanto por alunas que levam a sério o aprendizado, como por aquelas que vêem na dança do ventre apenas uma fonte de diversão, uma metodologia séria e consciente deve ser aplicadas à todas, deixando que cada uma escolha o que lhe convir o bom senso.

    Quanto ao fato de não ter de vir mais nada depois do nível avançado, também entendo como, no mínimo, uma falta de entendimento da colega. Pois, na minha modestíssima opinião, mesmo que a intenção de uma estudante não seja lecionar, estudos posteriores e constantes sempre melhoram o nível da bailarina; tenho observado isso na dança daquelas que estão sempre estudando, mesmo não tendo se profissionalizado.

    É fato que professora sempre terá o que transmitir à sua aluna e a gente sempre se apega, tanto à sua mestra como ao seu talento. Eu que o diga. No início de 2010 vou fazer o teste para saber em que nível devo continuar meus estudos. Ainda não sei o que vou ouvir da banca. E, também, não sei, caso escute que o melhor para mim é ir para o nível posterior, se terei coragem de deixar, agora, de aprender todo o rico arsenal de ensinamentos que minha professora tem a me transmitir. Mas sei que faz parte da vida evoluir. E o poder e dever de escolha são umas das principais virtudes humanas e obrigações da vida adulta. E para exercê-los, é preciso, acima de tudo, que se conheça as opções.

    Se uma aluna tem como satisfação pessoal simplesmente aprender o suficiente para dançar no aniversário da vovó e nos adoráveis chazinhos da escola, a escolha é dela. Entretanto, reitero e parabenizo o Ayuny por provar o que o resultado de minhas pesquisas encontrou: um estúdio sério, capacitado para formar profissionais qualificadas, capaz de descobrir talentos, lapidá-los e mostrar a essas alunas que depois do avançado o céu é o limite. E ainda conseguir transmitir às demais o prazer de estudar pelo simples prazer de dançar e de ter o direito de se aposentar no nível avançado, ainda que sem avanços consideráveis em suas técnicas.

  8. Sou uma quixotesca incorrigivel. Ainda acredito que a aluna é o melhor termometro para saber seu nível. Que antiquado, não?
    Aliás, tudo o que eu acredito é completamente antiquado. A aspiração e o esforço das professoras e profissionais deve mesmo estar sempre acima de tudo. A excelência técnica.
    Como se diz aqui nos pampas: me larguem de mão, que não tenho jeito.

    Beijos a todas.

  9. Não penso que é antiquado a aluna achar que ela mesma pode determinar o nível em que deveria estar. Pelo contrário. Mas considero irresponsabilidade de uma escola não ter profissionais que vejam talentos serem desperdiçados em níveis abaixo de onde poderia estar sem, ao menos, saber que já poderia estar ir adiante. Como disse, a escolha é de cada uma, mas a orientação tem de ser para todas. Eu, por exemplo, sozinha não saberia do meu potencial, não fossem as professoras para me dizerem que, talvez, eu posso ir longe.
    Como cada um é cada um, penso ser coerente que todas sejam orientadas, mas que sim, cada uma suba os degraus no tempo que o bom senso lhes mostrar conveniente. É o livre arbítrio sendo exercido com a ajuda do conhecimento.

  10. Hum, achei bem legal Ro. Um método que atenta sobretudo à individualidade de cada aluna – defendo isso sempre! E acho que isso cria um comprometimento maior, pois vc sabe que concorre com vc mesma (nhe, não gosto do termo ‘concorre’ usado p/ a aprendizagem, mas vá lá, vc entendeu). Vê-se cada uma como única, com peculiaridades distintas e demandas idem. Muito bom, acredito.
    Na minha opinião, estudar fontes diferentes é essencial pois dá uma noção mais clara de como construir a própria dança e desenvolver a própria ‘marca’. Vou fazer um contraponto com a pedagogia. Se eu estudasse apenas Piaget (que apesar de ser o fodão das correntes teóricas sobre oa ssunto, não é o único e deixa algumas lacunas), desconheceria outras teorias que me ajudariam muito na minha prática docente. Por exemplo, como deixar de considerar o que Wallon e Winnicot falam sobre a relação corpo X aprendizagem se me fixasse apenas nas teorias piagetianas? Ficaria uma ação capenga ao meu ver, meio limitada.
    Que bom saber existe na dança espaços como o Ayuny, que acredita nessa forma livre de aprendizado. Desenvolvendo a autonomia de suas bailarinas! É bailarino autônomo é bailarino que CRIA!

    Beijo carinhoso nessa cabecinha cheia de ideias excelentes!

    Vivi Amaral

  11. Pensamento invejável! Bom seria se não houvesse aquela vontade de ser sempre superior a quem tá no ramo a menos tempo. Professoras que querem ensinar TUDO que sabem pras aluas e se sentirem realizadas vendo estas alunas se tranformando em bailarinas de verdade, do portão da escola para o mundo.

  12. Como fiz aulas pouco tempo, fico sem saber em que nível eu parei…
    Quanto tempo em média, uma aluna fica em cada nível?… O que especificamente costuma ser ensinado em cada nível?… Estou meio perdida com essas coisas na hora de me inscrever em workshoops, não sei bem qual seria o meu nível. Se vc pudesse me auxiliar com alguma coisa mais específica…

    Bjus

  13. Essa coisa de nível é extremamente complicado. Já tentei separer o esquema do nível, rotulando como todas fazem, mas na verdade não funciona tão bem, pois o nível a que se atribuem não tem um limite certo, se aqui a gente dá um work pra avançado, tem quem seja do intermediário apanhando pra pegar, se faz pro intermediário, tem quem esteja mais à frente também, tendo que esperar pelas outras. O mais complicado é que muitas não sacam que dentro do básico, tem muita novidade. Tanto em termos didáticos quanto em execução de movimento.
    Venho pensando neste assunto mais e mais e acho que vale a pena a escola ter um posicionamento, sim, pois às vezes é bom uma segunda opinião para então determinar com mais segurança a mudança de estágio. Acho que, tendo como objetivo a evolução, podemos tanto atravessar o meio de campo, quanto atolar a chuteira, hehehe!
    Beijos!!!

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