A carta mais feliz de minha vida

Eu sei. O blog, essa ferramenta ameaçada, deve ser dinâmica e atualizada com regularidade. Mas sou rebeldezinha, e quanto mais me falam para acompanhar a “tendênça” (no caso, tendência inversa: ninguém liga pra blog; tens que ligar), mais recuo. Além do mais, fiquei viciada em quase todos os joguinhso do facebook. É sério. Daí, fiquei algum tempo sem internet e, quando a deusa-net voltou, fui capinar roça perdida e recuperar pratinhas virtuais. Deu preguiça de blog. Ao quadrado.

Só que tem coisa demais pra falar. Tipo o espetáculo desse ano.

ankhcartazblackgr

Vamos por partes. Minha escola passou pela delicada situação de saída de uma professora muito querida por suas alunas, o que gerou um desequilíbrio em toda a coisa. Mas as energias acabam se equilibrando em algum momento e, por fim, temos agora a equipe dos meus sonhos: professoras adultas, experientes e abertas a experimentações com a dança. Uma coisa leva a outra. Levou-me a conhecer a Laura, que agora dirige esse espetáculo comigo. Laura estuda teatro e dança há anos, além de conhecer iluminação e cenografia. Ou seja, esse espetáculo certamente será mais sensorial do que os anteriores.

Isso requer tempo, energia e corpo. Porque construir um espetáculo cansa intelectual e fisicamente. Ainda mais quando se trata de uma criatura ambiciosa como eu, que quer mostrar que a dança é coisa pra gente que curte dança e não apenas para os entes queridos do elenco. Compriiiiida conversa. A continuarsh.

.

Daí que fizemos um chá na escola. Foi tãaaaao gostoso! Mahmoud tocou. Padma dançou. Eu dancei. Várias alunas dançaram. Foi muito legal. O chá é uma estrutura muito estimulante porque podemos dançar o que der na telha. E bateu na minha telha uma música classiquíssima cantada pelo Abdel Wahhab chamada “Ana we azeb we Hawek”. Naftalina total, mas tão doce e boa de dançar…

.

Daí que recebi uma carta linda da minha aluna que resumiu absolutamente tudo sobre a minha dança naquele chá. E gostaria de compartilhá-la com vocês (ela autorizou). Vejam se não é o maior elogio que uma professora poderia receber em sua vida:

Roberta,

Na última segunda-feira, enquanto lavava a louça, distraída, mergulhada em meus pensamentos, meu irmão me perguntou: “Porque você está sorrindo?”. Até então não havia percebido que sorria. Mas logo que me dei conta de que era possível sim, que estivesse a sorrir com minhas lembranças, respondi: “Estou me lembrando de ontem”. E logo ele me lançou um olhar cúmplice e um sorriso malicioso, como quem imagina que eu estivesse a remoer lembranças de momentos íntimos com alguém. Então lhe expliquei: “Estou me lembrando da apresentação da minha professora”. E ele pode compreender o que eu só entendi segundos depois.

Enquanto ensaboava os pratos, me veio em mente o momento exato em que você estava dançando e o sentimento que guiava meus olhos, que tentavam, ao mesmo tempo, acompanhar cada um dos seus movimentos, bem como os olhares dos outros espectadores. Orgulhosos da professora que se apresentava, minha vontade era poder falar para todo mundo: “Vejam, é minha professora. Olha como ela é bonita, graciosa e talentosa. Estou aprendendo tudo com ela para, quem sabe um dia,  eu  também possa dançar assim”. Obviamente tais palavras não foram pronunciadas; única e exclusivamente porque o bom senso impera nessas horas; ainda que por um “tris”. Entretanto a satisfação fica estampada na testa e nos olhos de cada aluna presente, para quem quiser ou puder perceber.

Não é para menos. Ali, diante dos nossos olhos, está dançando aquela que nos instiga, semanalmente, a aprender a dançar a tão admirada e difícil arte da dança do ventre. Para algumas, um desejo recente, para outras um sonho de infância e, para todas, uma realização pessoal. Porém, independente da história, cada aluna vê em sua professora mais do que aquela que a ensina a dançar, mas alguém que a inspira constantemente e fazer da dança o ar que respira. A interiorizar cada acorde para que os movimentos não sejam comandados apenas pela mente, mas, sobretudo, pelo coração. Porque dança é emoção.

Ao ver-te dançar, com tanta graça, leveza, charme e simpatia, é impossível não se orgulhar e, por frações de segundo indagar: “Será que algum dia eu dançarei assim?” E mesmo com nossa resposta interior tão duvidosa, naquele instante, a admiração nos traz a certeza de que, de alguma forma, talvez pelo milagre de uma osmose, a gente possa incorporar alguns movimentos, pelo simples fato de ser tua aluna.

Então, em casa, após considerar que a própria apresentação poderia ter sido infinitamente melhor, ao invés de uma cara feia e aborrecida, o irmão desavisado encontra no rosto da irmã aprendiz um semblante risonho, feliz… E, ao contrário do que ele imagina, não se trata de lembranças de uma noite de amor ou algo parecido, mas que tal expressão fora despertada pela memória de um outro tipo de emoção, vivida no dia anterior: a professora leve, a bailar uma doce canção. Uma linda combinação de movimentos, casados perfeitamente com uma melodia suave, displicente, como quem fala com os gestos: “Não estou a dançar para mostrar tudo o que sei, mas a permitir que meu corpo e minha alma dancem, felizes, essa música para vocês”.

Eliz

Lindo. E ela dançou no chá. Sabe o mais cruel? Não vi. Vi os ensaios, a vejo semanalmente. Mas eu não estava lá na hora em que eu realmente precisava ver. Ossos do ofício. Ou se curte ou se dirige. Cruel é a produção de arte e cultura. Mas, olha. Sei que ela quebrou tudo pelo que outras duas profes me contaram. Mais ainda: sei que tudo correu muito bem pelo sorriso das pessoas ao cruzarem as portas da escola e recolherem suas sombrinhas.

Anúncios

10 comentários sobre “A carta mais feliz de minha vida

  1. Faz tempo que eu não venho aqui, a última vez foi você relatando o orgulho de ser professora. Então, acho que só venho aqui me emocionar.

    Sabe, que além de lindo, o texto me deu uma vontade louca de ter uma professora para admirar.

    Beijos e bora cultivar nossas fazendinhas também!

  2. Com certeza, você é Professora. (P maiúsculo, fia). E tenho certeza de que mereceu esta declaração.

    beijo, continue, continue, continue…

    Vivi

  3. que bacana, Roberta! beijo em vc e na aluna! e olha, to contigo: ou se curte ou dirige…esse ano vou dançar apenas UMA dança em meu espetáculo! to confiando no elenco…e vou ficar nos bastidores..ossos do ofício! sorte pra ti, tudo de melhor!! e segue em frente… coisa linda de carta!

  4. Com toda a merde que ainda se acha no meio da dança, não tem nada mais FELIZ, mais feliz de verdade, do que a relação entre professora e aluna que se acham uma para a outra. Conheço bem essa felicidade.^_^
    Saudades de ti, gatona. Beijos.

  5. Rô!! que saudades imensas de ‘te ler’. Um dos blogs que me vinham na cabeça sempre que pensava no meu ‘abandonadinho’- como vc, fui conquistada por outras coisas..twitter é a coisa!
    Sabe, ando com uma saudade danada de coisas simples assim. dançar porque é bom, porque é lindo, pq merecemos. Ultimamente ando ‘avoada’, sistemática demais, perdida em novidades que não metocam totalmente. E bateu A saudade agora de dançar algo de alma.
    Obrigada por reaver.
    beijos imensos.
    boa sorte no espetáculo!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s