A dança ruim

roahlam

Eu já saí do palco fazendo muxoxo. Voltei ao camarim arrasada. “Que merde de dança; que lixo”. Desabei na cadeira e fiquei lembrando dos piores momentos. Cinco minutos depois eu já estava de pé e animada, pois minhas alunas iriam dançar. Dançaram muito bem, a apresentação delas foi linda, elogiada e tal e coisa. Terminei a noite feliz, claro. Afinal, meu trabalho tava salvo. Mas ficou aquela sensação de fooon. Até chegar o dvd. Assisti, achei fraquíssima. Não tão horripilante quanto tinha-me parecido no dia do show. Tava simplesmente fraco. Tinha um braço morto ali; a apresentação tava pesada. Ou seja, não gostei mesmo. Assisti o vídeo mais algumas vezes e percebi coisas boas. Fui vendo mais umas vezes e captando o que tinha de bom. Por fim conclui que não foi um desastre absoluto; apenas não foi bom. Mas também não foi uma desgraça total.

Não sei se é uma estratégia da auto-estima, mas aparentemente precisamos assistir a uma apresentação nossa várias vezes para nos convencermos de que talvez não tenha sido tão desastrosa quanto críamos. Porque no dia do show temos a impressão geral (ficou muito ruim; ficou muito bom); na primeira vez em que assistimos captamos apenas os furos (aquele braço morto, aquele tropeço, aquele shimmy fora de lugar, aquele giro sem eixo…). Depois que nos acostumamos com o que não nos agrada, começamos a perceber as coisas boas (fluidez, graça, leitura musical apurada, mãos, expressão…).

Autocrítica (cara, essa coisa de reforma ortográfica matou minha fluidez de escrita) é essencial nesse meio. Sem ela, estamos sujeitas ao constrangimento. Ter noção do que está bom ou ruim é também uma garantia social. O famoso desconfiômetro. Percebemos quando algo está fora de lugar, por mais distorcida que seja nossa autoperspectiva. Não ouvimos bem nossa voz e não conhecemos nosso olhar*.  Com nossa dança podemos ter uma experiência mais ampla, mas ainda assim pouco nítida: sentimos o corpo, não apenas vemos o corpo. Só que mesmo o sentir é mediado por nossa experiência social. Por isso a sensação da saída do palco é tão ambígua e pouco confiável. Geralmente é amplificada. Se sentimos que foi péssimo, provavelmente só foi ruim. Se achamos que foi estonteante é provável que tenha sido um bom show.

Autocrítica é bom. Só que ela também não pode nos amarrar. Dancei mal? Tudo bem; da próxima, faço melhor.

*”Onde está seu corpo de verdade? Você é o único que só pode se ver em imagem, você nunca vê seus olhos, a não ser abobalhados pelo olhar que eles pousam sobre o espelho ou sobre a objetiva (interessar-me-ia somente ver meus olhos quando eles te olham): mesmo e sobretudo quanto a seu corpo, você está condenado ao imaginário.” Barthes, Rolland. Rolland Barthes por Rolland Barthes. São Paulo: Estação Liberdade, 2003:48.
Anúncios

13 comentários sobre “A dança ruim

  1. Oi lindona, curti seu relato, comigo sempre acontece o contrário, eu saio do palco achando o máximo e quando vejo o vídeo acho um lixo, a sensação sempre é melhor do que o que eu vejo depois.
    Adorei esse trecho do Rolland Barthes, sempre penso isso e me dá uma agoniazinha esquisita.
    bjocas

  2. Querida Roberta! Esse post caiu como uma luva para mim!

    Dancei numa Festa Árabe na última sexta-feira, e saí do palco exatamente como vc descreve no início do texto. Estava muito frio, apesar de eu me aquecer antes, congelei com as janelas abertas bem nas minhas costas (estamos em épocas de gripe A aqui no RS, lugares com aglomerações devem ser ventilados ao extremo). Minha dança ficou prejudicada, eu senti. Mas, na próxima, eu danço melhor! 😉

  3. Putz, que lindo esse post. Vc é tão corajosa, porque dificilmente a maioria das profissionais que conheço admitiriam uma coisa dessas. Já vi muitas bailarinas profissionais perderem o equilíbrio em dado momento da dança, o que para mim não diminuiu em nada o conjunto do show, mas vai uma amadora perder o equilíbrio que vai se descabelar até a morte. Da última vez que dancei um solo na festa da ecola o véu enrolou em dado momento, mas consegui recuperar e tudo pareceu sair bem no final. O jeito que o povo aplaude é um bom termômetro pra gente perceber se a dança rolou legal, não é? Mas não foi “uma dança perfeita”. Quando vir o vídeo sei que vou me descabelar de raiva, mas vc me deu coragem. Dane-se, da próxima vez farei melhor. Barthes é sempre bem-vindo! Bjos

  4. Eu não acredito em dança perfeita – no que diz respeito a mim- mas confesso que ando amarrada pelo fracasso das minhas últimas performances. A luta é feroz e a autocrítica tá vencendo.

    Beijos.

  5. Comigo acontece como com a Elaine. A cada vez que vejo, aparecem mais os defeitos. Uca! E a Laila tem razão, vc está linda na foto. Põe o vídeo no tube pra gente. Bjos, flor.

  6. uma vez marido me disse: “mas porque você assiste suas danças e só apontaos erros? você não achou nada legal aí??” issome fez parar pra pensar. tbm tenho esse ‘vício’, assisto mil vezes e só começo a gostar no final. acabei ficando meio noiada, desconfiando até dos elogios da platéia. agora, penso assim: fazer bonito, emocionar e, acima de
    T-U-D-O: me DIVERTIR. tem ajudado!! rsrs…adoro suas escrita – e eu não vou seguir a reforma, foda-se. – e gostei muito do teu traje!
    =]

  7. Ok, ok. Pra quem estava no camarim quando vocês chegaram a impressão era de que o mundo havia acabado ali. Não foi bem assim.
    Braços caídos, pés tortos, atmosfera “ai que saco!” tudo isso acontece, mas nada disso serve pra terminar de se enfiar no poço. Muito pelo contrário: servem para afiarmos nossa consciência corporal. A autocrítica é, com toda certeza, necessária; ela nos promove o crescimento. Contudo, blá-blá-blá a parte, descontando todo seu perfeccionismo, acho que vc deve considerar as variáveis que geraram o braço esquecido, o giro fora do eixo etc. Você estava dirigindo aquele show, estava preocupada com o andar da carruagem, com platéia, com encerramento, com suas alunas, com snujs, com n coisas. Tem como entrar no palco como se nada estivesse acontecendo? Rô, vc é um ser humano lindo de viver, que luta para manter “acesa a chama”! Então, cara, sejamos mais tolerantes… puts, vcs fizeram um shaabi super classudo, meu! Ficou lindo, minha gente! Palmas pra elas!!!

    PS. Nem vem dizer que sou boazinha… se tivesse ruim eu falava na boa! Minha língua é maior que eu! ahahahahahah

  8. Ah, esqueci de dizer, Dna Salgueiro: observe atentamente a fotografia! A senhora sorri fitando o público e começa a marcação de quadril com a pontinha do pé. E aí, o que a senhora me diz? nhammmmmmmm!!!!
    Não tô enchendo sua bola não, mas quem ama a dança segue o princípio: “procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem”! É aquela história, o bonito está no olho de quem vê!!!
    Em novembro todas faremos muito melhor que em junho [e eu tentarei abrir mais meus braços e não pisar na saia.]!

  9. Nada a ver com o post: Roberta Salgueiro, vim apenas agradecer publicamente tudo o que você me ensinou e ensina. Te devo uma grande. Beijos.

    Hummm… precisamos marcar um mega encontro no Skype pra você explicar melhor naonde é que eu te ensinei alguma coisa que você já não soubesse!

  10. Adorei de verdade essa foto!
    Um dos vestidos mais simples e lindos que já vi!

    Ele deixa qualquer uma gostosona, Érika. Tem um corte bacanão!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s