A vergonha na dança

Li dois textos sobre corpo em blogs amigos. Um, da Lu Arruda sobre alimentação e boa forma; outro, da Luana Mello, sobre o belo. Ambos e uma proposta da Charô – que há alguns meses me enviou uma foto de uma bailarina obesa e sugeriu um post – me motivaram a letrar minha perspectiva sobre a relação corpo-dança.

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Aos 32 anos eu certamente não tenho o mesmo tônus muscular de uma adolescente. Como a maior parte das mulheres, tenho minhas reservas de gordura. Também como as colegas, há momentos em que me acho horrível, apesar de ter o corpo flexível e desperto. Porque sou, como todas, interpelada pelas imagens midiáticas. Não há como escapar do grande discurso; seu alcance é amplo e, por repetição, tem poderosa fixidez. O controle do corpo atinge homens também, mas sua grande vítima é a mulher, por toda a história pregressa de vigilância sobre o feminino. As mulheres adoecem mais. Bulimia, anorexia, fibromialgia e tendinite, patologias que emerge da relação corpo-mente, incidem mais em mulheres. Ou seja, nossos corpos têm adoecido nossas mentes.

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Essa é uma conclusão interessante da psicanalista britânica Susie Orbach. Ela argumenta que, enquanto as primeiras descobertas de Freud ressaltaram o poder da mente sobre o corpo, atualmente vemos que a preocupação com o corpo tem afetado a mente: se antes as patologias mentais se refletiam no corpo, atualmente, na era da obsessão pela imagem, o corpo fora do padrão ocasiona os disturbios psicológicos. Veja a entrevista de Orbach ao programa Milênio, da Globo News, aqui. Um dos pontos mais importantes de sua fala é a relação entre a criação da baixa auto-estima e o consumo: adoecer as pessas dá dinheiro. O mercado da “beleza” é vasto e lucrativo. E, pelo andar da carruagem, ainda vai render muito.

De relativa facilidade técnica, a dança do ventre é conhecida pela democrática recepção a diferentes compleições. Em princípio, pessoas “fora dos padrões” conseguem se desenvolver na dança e executar todos os movimentos sem maiores dificuldades. No entanto, os corpos respondem de modo diferente aos movimentos. Um corpo com musculatura rígida vai ter efeitos mais “sequinhos” ao executar movimentos de trancos, por exemplo, ao passo que corpos mais flácidos e carnudos darão espaço para a reverberação do movimento. Corpos muito magros exigirão maior expansão na execução de certos movimentos. Giros e deslocamentos ágeis exigem alinhamento postural e boa distribuição do peso, o que se torna difícil para obesos. Tremidos delicados aparecem com mais dificuldade em bailarinas extremamente magras, enquanto os shimmies amplos às vezes parecem poluídos em mulheres de quadris muito largos. Como a dança do ventre não apresenta um código coreográfico fechado, basta às bailarinas escolherem seu repertório de acordo com seus objetivos.

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É, portanto, uma dança muito generosa, pois os movimentos podem sempre ser adequados à intenção do corpo em dança. À excessão do balé, não conheço nenhuma outra dança que exija uma determinada conformação corporal para sua prática. Agora, o essencial deste debate deveria ser a relatividade do belo. Nem tudo que é pintado como referencial de beleza é unânime.  O padrão de beleza da mídia apresenta elementos que, para mim, são feios. Há movimentos e tendências na dança do ventre que não considero bonitos. Essa característica humana – a autonomia, o livre pensar – deveria ser sempre nosso guia.

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A dança do ventre deveria, portanto, nos proporcionar bem-estar. Mas insistimos em nos refletir em corpos ratificados por comerciantes. É uma dura luta, travada diariamente. Auto-estima é um elemento melindroso de nossa subjetividade. Danificá-la seriamente é bastante fácil.

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12 comentários sobre “A vergonha na dança

  1. Deixa eu contar um caso rapidinho: uma conhecida minha foi para uma audição e teve nota ruim no quesito figurino pq este não valorizava seu busto que é pequeno. Até aí, td bem, né? Mas olha o que a avaliadora (até meio famosa no universo bellydance) escreveu “se não tem peitos como eu, compre-os!”. Tá bom ou quer mais?

    Que coisa horripilante. Pesadelo, hein? Ela largou mão disso, né?

  2. Só um comentário aparentemente bobo: – Identifiquei-me demais com o vido da Kitchen Baladi. Por isso que meu serviço não sai.

    Hahahahahahahhahhhahaahjhfjahj
    ^_^
    E é por isso que a cozinha deveria ficar ao encargo dos maridos, uai!

  3. Um texto cuidadoso e comedido, como vem sendo tudo ultimamente.
    Acho que certas discussões feitas por mulheres é que são vergonhosas. Enfim.

  4. Oi, Roberta! Vir aqui é certeza de encontrar assuntos da maior relevância! Essa discussão sobre estética da bailarina não tem fim e daria inúmeros desdobramentos. Amo o estilo da Maria Aya! Há outros vídeos dela no youtube dançando em shows. Voltei nesta semana com um blog novo. Está tudo meio tosquinho ainda, mas vou arrumar aos poucos. Qdo tiver tempo dê uma passada por lá. Beijos, Vera

    Querida, que bom ver você de volta ao mundo virtual da dança! Já tô lá no seu blog, peraí!
    Beijos mil!

  5. 1. Olá, parabéns atrasado pelos 5 anos de yallah. Lembro do blog todo dia pois escuto Leilah e o sujeito fala entrefrases: yallah, yallah…

    2. Vi a entrevista com a Orbach. Amei!

    3. Acho que estou ficando mais madura em relação ao corpo. Perdi 17 quilos até agora e mesmo estando acima do peso ainda (malditos 9 quilos a mais), tenho começado a me sentir mais segura. Percebendo que corpo de miss nunca vou ter.

    4. Mas dá uma bagunça na cabeça às vezes. Minha professora é mega magra e nem sempre o que ela faz com o corpo dela, consigo reproduzir com o meu.

    5. Adorei o post. Muito merci viu!

    6. Beijo, fui!

  6. Falou e disse Roberta, gostei muito do post, eu penso bastante parecido com você.
    Muito bacana também o vídeo, adorei o fundo da cozinha e o lance das luvinhas hehehe.
    bjocas

    Essa moça é muito boa! Esse é o vídeo dela de que mais gosto, mas ela tem outras performances muito boas!

  7. Cada corpo uma sentença. E cada dança também ^^

    Esse é o bom da DV. Nós temos uma liberdade que outras danças não têm… o único infortúnio é quando esta liberdade é levada muito em conta e se transforma em relaxamento, e dança pobre.

    ótimo voltar e passar aqui ^^
    bjooo grande!

    Boa! De fato, pode-se facilmente relaxar na dança por medo de ousar.

  8. boa reflexão e achei muito interessante sua observação sobre o tipo do corpo e como isso delineia os movimentos. mas preciso dizer: amei, acima de tudo, seu cabelo cheio de ondas. parabéns por isso tbm, chega de tanta chapinha (eu uso, as vezes, mas tenho me sentido bem em assumir meus cachos)
    beijocas!

    Ai, Lu, mas o trabalho que tem me dado manter os cachos sadios me deixa doeeeeente! Hohohoho. Acho que vou de fato apelar pra escovex. Fooon.

  9. Muita coisa a se falar a respeito de vários posts, mas isso fica pruma mesa num encontro qualquer dia desses. Agora só uma opinião(aonde me permite).
    Corpo em forma não é beleza, corpo em forma é saúde. Grande parte vem do modismo, mas grande parte também vem da necessidade.
    Pra gente que dança é de extrema importância a (maldita) musculação pra manter a força múscular, cuidando principalmente, também, dos joelhos. Mas enfim…é “letrinha” demais pra pouco espaço. Ririri
    Beijoca

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