Folk, show, contemporaneidade (essa malvada)

foto: Al-Ahram weekly
foto: Al-Ahram weekly

Lembra que eu tinha inventado de coreografar uma dança fallahi? Pois segui mesmo em frente e, em julho, as meninas vão dançar com jarro e tal. A música é bem óbvia, do Metkaal Kenawe. Porque dentre outras dificuldades em se estudar folclore está a escassez de acervo musical. Encontrei ótimas músicas caipiras do Egito, mas poucas com apelo pra palco. E o palco, minha amiga, é determinante na dança.

Uma coisa é dançar em casa, sozinha, ou num chá com as colegas. Outra coisa é se apresentar em restaurante. E ainda outra é mostrar os dentes no palco. Sozinha você pode entrar em transe com o mizmar e ninguém mais vai se incomodar. Quando você vai entreter o alheio, aí o folclore mostra sua face maligna. Como eu disse alhures, folclore é aquela coisa meio sem limite: a) você pode ser apenas uma na roda; se você se cansar, outra pessoa entra no jogo; b) as músicas são repetitivas; c) a equação tempo-diversão é absolutamente diferente do experienciado na lógica comercial.

Então fechamos com nosso amigo Kenawe e começamos a coreo. Comé que vai ser o jarro? Eu sugeri usarmos moringas, pelo formato bonito mesmo. Qualquer coisa desde que seja significativamente grande. Coisa feia é ver aquelas apresentações com jarrinho de flor. Deprê. Se você vai buscar água lá longe, que carregue um vasilhame de respeito (tudo bem que área rural em geral usa atualmente vasilhas de plástico pouco românticas para carregar água. Triste, real, nada poético, pouco provável de se transpor em um show de dança do ventre). Daí vêem as dúvidas: puxa, e se for pesado demais e machucar o ombro? E se a gente fizesse um molde em gesso, que é mais leve? E se usássemos ânforas? Ficamos de pensar direitinho e resolver nas próximas semanas. A apresentação é só em julho.

E a roupa, minha gente? Ó, nego lá do interior do Egito usa galabeya bem fechada e larga.  E o figurino eternizado pelo Mahmoud Reda, com trancinhas, camisolão com babadinho na ponta e estampa tosca não ajuda. Acertamos então uma galabeya bem bellydance, justinha na parte superior e soltinha embaixo. Na boa? Sem culpa.

faltaaguagiza

Sinceramente me pergunto quanto ao real status do folclore na dança do ventre. Como me disse outro dia a Lid, dança do ventre é fun, pura diversão. Não dá para ficar pressionando. Se eu for tentar reproduzir a realidade folclórica egípcia sobre um palco, em primeiro lugar não haveria muito o que se apresentar: como no Brasil, poucos aspectos folclóricos campesinos sobreviveram à pauperização da área rural, à massificação do entretenimento e à migração dos jovens para os grandes centros urbanos. Algumas tradições que celebramos na dança do ventre simplesmente não existem mais, como o meleah laff. As egípcias não usam mais o meleah, como mostra essa breve notícia do Al Ahram. A busca pela água não é nada romântica. As pessoas sofrem. Enfim.

A discussão, claro, é bem mais complexa do que podemos resolver em um post de blog. E ando bastante mal-humorada. But the show must go on [/Queen]

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5 comentários sobre “Folk, show, contemporaneidade (essa malvada)

  1. Excelente!
    Obrigada pelo link para o Al Ahram.
    Meu doutorado mudou um pouco, estou pesquisando menos o mundo árabe. Mas notícias são sempre bem vindas!
    Beijos.

  2. A minha opinião é o ensino de folclore egípcio e o de dança do ventre são coisas completamente dissociáveis. Muitas vezes, o ensino de folclore me parece apenas uma ferramenta para fazer o curso de dança do ventre se diversificar mais. Em minhas aulas, tento focalizar em 1)Estudo da música (noções de teoria musical mesmo, o que é melodia, harmonia, intrumentos usados, tipo de percusão, leitura percursiva, estrutura da música de expressão árabe, ritmos, etc). Afinal esta nossa dança é: transpor em marcação física de um dos tipos de música mais complexos da humanidade; 2) limpeza de movimentos e coordenação (desde ensinar a aluna a andar no ritmo até fazê-la coordenar braços e quadril). Juro que só isso já passa da mísera hora-e-meia da aula. Quando a aluna me pergunta sobre o que tal movimento representa, ou onde tal coisa se originou, eu digo que ensino a dança do ventre, não dança folclórica – que apesar de poder haver alguma origem folclórica nela, a DV como conhecemos é uma dança de entretenimento. Eu opto pela DV fun, pela DV do brilho, pela DV da musicalidade contemporânea porque essa é a dança que mais me representa, é a dança que eu vejo e da qual participo. Eu defendo a DV como expressão artística, como libertação, como a antítese do cânon. Mas deixo claro pra aluna que sou só uma professora entre milhões, e que se ela quiser estudar dança folclórica, que há profissionais no mercado que investem nisso, mas que essa é ooooooutra dança. Enfim, visãozinha do meu umbigo, talvez. Beijos!

    1. Ai, adoreeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiii!
      É muito bom ver posicionamentos claros, sem culpa…
      Concordo com você.
      Mas ainda tem muita gente confusa com relação a isso. A dança do ventre ainda é tida como folclore e julgada como tal dentro de grandes festivais no Brasil.
      Moro em Rio das Ostras, no Rio. Aqui sediamos um Festival Internacional que tráz gente boa e também é assim.
      No sindicato ainda somos folclore!!!!!!!!!!

      Beijoca!

      Acho que por todos os lados qualquer dança que não tenha se fincado fortemente na Europa é “étnica”, logo, folclórica. Acredito que esta seja uma visão bem estreita da capacidade coreográfica das culturas em geral.
      Mil beijos!

  3. Sobre o jarro – experimenta fazer de papel machê, Rô. Usa um vaso, ou mesmo um jarro p/ o molde (dependendo vc incrementa mais) . O papel machê fica leve a vc pode dar efeito de cerâmica através da pintura (usa a tinta cor de telha).

    Bão, eu penso que folclore árabe, com raras exceções (ou talvez nenhuma), fica show de bola quando é dançado em grupo… Bailarina dançando Khaleege sozinha, na minha opinião é sem graça, assim como jarro. Salva-se candelabro e raqs al assaya, mas tem que ser fera no manejo da bengala ou do bastão prá ficar interessante e se sustentar na cena. Bom, isso é o que eu penso.

    Se dança folclórica brasileira é um troço melindroso prá se apresentar, a árabe eu penso que é mais ainda, pelos motivos óbvios – não ser uma manifestação da nossa cultura. Penso ser sempre necessário uma explicação do que vai ser feito, sobretudo quando for mostrado p/ público leigo. Já vi público sair chocado com um khaleege achando que era santo baixando na bailarina (tá, vamos dar um desconto que a bailarina era um tanto insegura e surtada).

    Por isso sou muito a favor daquela explicaçãozinha, didática mesmo, antes de uma apresentação de folclore. Até porque, informação nunca é demais, verdad?

    beijos xuxu.

    Vivi

  4. Oi

    vendo alguns blogs, muitas já escreveram sobre DV x Folclore, inclusive eu.

    Para mim, é claramente que os dois são dissociáveis e isso deve sempre ficar claro pras alunas.

    Mas como ensinar DV apenas sem passar pelo saaid, khaliji ou baladi que estão presentes em todas as rotinas clássicas?

    A DV foi criada como uma dança de entretenimento sim, mas a colocação da parte folclórica foi justamente feita para caracterizá-la como uma dança árabe e que possui particularidades.

    Hoje, acho que é possível ensinar as duas coisas (já fiquei pensando sobre isso) mas é importante estimular que as alunas procurem também profissionais mais experientes com folclore.

    Beijos

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