Dance Djá!

Há alguns meses me deparei com um dos produtos mais esdrúxulos do mercado de dança do ventre. Não, não estou falando das touquinhas bordadas. Também não me refiro àquele leque-que-vira-véu. O produto em questão é um tal “Kit Dança do Ventre”. Quem ainda vagueia pelo orkut vai entender melhor do que estou falando. Para quem não sabe, aí vai a transcrição do último spam que recebi:

Oi, tudo bem? Adquira agora mesmo o KIT DANÇA DO VENTRE (16 DVDs + um lindo porta DVDs + 1 DVD de Brinde)! Agora você vai aprender a dançar de verdade!!!
São 16 DVD’S com vídeo-aulas das melhores professoras do mundo. Não é sempre que você pode dizer que estudou com: JILLINA, SONIA, BOZENKA, AMAR GAMAL, SAIDA, LEYLA JOUVANA, DINA e HADIA. Digite o endereço abaixo em seu navegador sem espaços e com pontos:
Adquira pelo site: w w w mmmm . nnnn c o m b r
Obrigado pela atenção, abraços.

Viu? Fácil demais “dançar de verdade”. Basta ter um bando de dvd’s. Professora pra quê, minha gente? Bom mesmo é imitar passinho e sair dançando por aí. Afinal, os vídeos são absolutamente perfeitos e as professoras que os estrelaram já deveriam ter se aposentado, afinal, o serviço tá feito.

Vamos falar sério agora?

O assunto já é super batido. Ensino por vídeo deve ser um suplemento, a presença da professora é imprescindível e tal. Todas sabem. Então por que temos que sempre retornar a esse ponto? O que leva alguém a formular um produto como esse? Óbvio: a simples dedução de que há mercado para tal. Daí concluir, não tão brilhantemente, que não, nem todas sabem que o vídeo não ensina dança do ventre.

Sabemos de algumas pessoas bem sucedidas que afirmaram terem estudado exclusivamente por vídeo. São pouquíssimas e iniciaram sua formação em uma época em que a dança do ventre não contava com a rede estruturada de ensino que temos hoje. Posteriormente essas profissionais foram estudar com outras profissionais em carne e osso.

Situação mais complicada é quando se leva tão a sério o estudo via vídeo a ponto de colocá-lo em seu currículo. Uma colega estava comentando comigo outro dia que, conversando com uma menina, tinha ficado espantada com a quantidade de egípcias que haviam sido professoras dela: Dina, Najwa Foad, Fifi, Suheir Zaki (!)… Quando a colega perguntou sobre como tinha conseguido ser aluna de Suheir Zaki, a resposta foi ainda mais chocante: “uai, por vídeo”.

Bom, não dá para colocar isso em currículo, né? E essa é a mesma lógica que interdita o estudo via vídeo de um modo geral. Vídeo serve para estimular, aprender estilos, aprender leitura musical e compreender a lógica de alguns passos. Se eu fosse colocar no currículo a quantidade de bailarinas que eu sequei via vídeo…

Mas creio que o que mais me angustia nesse tipo de anúncio (na lógica do “aprender por vídeo”, em geral) é a pressa, a urgência em absorver logo o conteúdo e logo se tornar uma bailarina – ou pior, professora. Sem artesania, sem sedimentação do ensino, sem a importantíssima convivência de sala de aula. Tem coisa mais bacana do que comemorar o aprendizado de um movimento que saiu a duras penas? Comemorar com a colega, trocar dicas? O vídeo, solitário e sem antagonistas ou aliados, cumpre apenas aquele papel de reproduzir, reproduzir, reproduzir.

E a bailarina-de-vídeo talvez se torne isso: uma reprodução.

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13 comentários sobre “Dance Djá!

  1. Gata, divido total sua indignação. Recebo um spam desse por dia e o meu primeiro raciocínio foi esse, existe mercado… Isso é o mais triste. Mas depois pensei bem e acho que não existe um mercado tão abrangente e tenho certeza que isso vaza logo. É mais uma dessas tentativas de extrair dinheiro das apaixonadas por dança que estão dispostas a pagar o preço que for para aprender.

    Eu sou da época que enfiavam vídeos na gente guela abaixo e fato, a gente aprende muito com eles, mas só se eles forem apenas complemento mesmo. Pelo menos fico feliz que minhas alunas nasceram na fase dos workshops. Acho que se tornaram mais uma forma de pragmatismo descarado, mas pelo menos elas estavam com uma professora sempre observando, por mais tosco que fosse.

    Acho que as meninas da geração works estão mais ligadas nisso…

    Eu acho né, tudo achismo.
    Beijo

  2. é a velha história de fazer um atalho… aprende-se em curto prazo e entorta com tudo a longo prazo…rs…vídeos são bacanas, trazem novas idéias, mas acho que não ensinam nada não, apenas ilustram algo a ser praticado depois e em aula. não imagino alguém que aprenda a dançar sem ter uma professora corrigindo…céus! eu compartilho meus vídeos, adoro as novidades,mas sempre tenho uma horinha de aula particular, um curso pra me mostrar o quanto ainda sou pequenina na dança. uma pena nem todas terem essa auto crítica. e amei ter ‘desenterrado’ Walter Mercado, hahahaha ‘Dance DJaáaa’
    =]

  3. Acho que vai muito do bom senso de cada uma. Qualquer pessoa em sã consciência e sensatez sabe que não é possível aprender qualquer arte somente assistindo vídeos. Dúvidas surgirão, assim como dores e necessidade de maiores orientações. Por isso, a necessidade da professora, obviamente.

    Como foi dito, vídeos são um complemento e somente quem é imediatista acredita que é o melhor método de aprendizado. Entretanto, o tempo mostrará, sempre, que não é bem assim.

    Sempre estou a receber estes recados pelo orkut e sempre apago, rs

    Um beijo!

  4. Adorei!!!!!
    Realmente, não se aprende com os vídeos!
    Mas dá pra utilizá-los como recurso para manter a prática em casa, depois que já se tenha alcançado um certo conhecimento técnico dos movimentos e desenvolvido alguma consciência corporal.
    Parabéns pelo Blog!
    Estou atualizando o meu… Passe lá quando puder. Adicionei o Yalla à minha lista de blogs que acompanho. Vamos tentar criar uma rede.
    Abraço,
    Gamila.

  5. ‘E a bailarina-de-vídeo talvez se torne isso: uma reprodução.’

    Se a gente apertar ‘rec, será que ela grava? =p

    Mas num é menina? Se vídeo contar curriculo eu to melhor que Lulu e a Khan me pertence. Eu fico boba com essas ideias. Desde quando repetir movimento sem base técnica, sem correções, sem variações faz da moça uma profissa? é a mesma coisa que tentar aprender artes marciais assistinro Mortal Kombat. Há, nem assistindo um milhão de vezes. O máximo que vc vai conseguir é uma fratura na coluna e um galo na cabeça.
    é dose.

  6. Muito oportuno falar disso…
    Eu tenho vergonha quando recebo estes posts, e deleto na hora, fico com vergonha de ser bailarina profissional e os outros acharem que pode ser aprendida minha dança assim.
    Quanto descaso com a dança do ventre, as pessoas acham que é uma dança fácil e é tanta desvalorização que já me peguntei porque eu continuo me dedicando para dançar ela melhor se tem pessoas que dançam mal, só assistindo vídeos e ainda ganham cachês por aí para isso. Muitas amadoras se apresentam intitulando dança do ventre uma imitação barata… Não sei o que podemos fazer. Que triste.

  7. Cara tem muito workshop que da no mesmo que o video! a pessoa fica em cima do palco e vc copiando …
    porque o bacana da aula é que que vc tem o feedback da professora. Isso é importantissimo!!!! MUito muito muito. Mas se vc tem uma prof que fica dançando lah na frente e nem olha direito pras alunas (vou te dizer que tem!!!) , meu, dah quase na mesma de assistir um video, ateh pior ahahah porque o video vc pode voltar…e temaluna que sai igualzinho a professora, é nosso papel deixar espaço pra que a aluna crie sua propria forma de dançar tb senão tb criamos cópias!!
    Ah complicado falar dessas coisas comigo que trabalho com educação a distância, eu acho que pode se aprender com video sim! eh óbvio que não posso garantir que vc vai aprender de verdade ahahahah nao recomendo video para alunas iniciantes, só se for pra ver show, mas nao pra aprender a tecnica…
    Bem video é massa, mas feedback eh fundamental
    Viva nóis professoras!

  8. Adoro assistir vídeos de dança do ventre, inclusive os de vídeo-aulas, mas concordo os vídeos devem ser considerados apenas um complemento do aprendizado.
    Eu, por exemplo, faço aulas “de verdade” apenas uma vez por semana. No resto dos dias, utilizo os vídeo para reforçar o que foi dado em aula, para aprender coisas novas, etc. Acho que rendo mais assistindo a um vídeo e seguindo o que a bailarina famosa demonstra do que simplesmente repetindo em casa o que a professora ensinou.
    Os vídeos também podem ajudar com aqueles passos que “não saem”. Lembro quando eu não conseguia fazer o oito maia. A professora fazia e eu não conseguia “imitar”. Acabei aprendendo com a Ansuya, no Lavish Layers, onde ela explica bem explicadinho a técnica do movimento.
    Acredito que as aulas com professoras de carne e osso são indispensáveis, somente elas podem corrigir quando executamos um movimento de forma errada e que poderia até mesmo causar uma lesão. E a convivência com as colegas também acrescenta muito ao aprendizado.
    Mas, assim como não podemos ficar restritas aos vídeos, acho que também não podemos ficar restritas à professora (pelo menos não a uma única professora). Senão, o que acaba ocorrendo é a produção de uma bailarina-cópia. A professora deve incentivar a aluna a buscar novas fontes de aprendizado. E os vídeos acrescentam diversidade à nossa dança. Tu vais “pegando” um pouquinho do estilo de cada bailarina, além do da professora e acabas formando teu próprio estilo. É aqui que entram também os workshops. O problema é que em alguns o que ocorre é a sala lotada e a bailarina lá na frente demonstrando, sem nem olhar o que as alunas estão fazendo e corrigir os seus erros (por falta de tempo, excesso de gente, etc), resultando em quase a mesma coisa que o vídeo. “Feedback eh fundamental!”, com disse a Iris.
    Portanto, acho que aulas com professoras são imprescindíveis, mas videos e os workshops fazem um grande trabalho de complementação do aprendizado e enriquecimento da dança.

  9. Nossa muito legal essa sua idéia…do Walter Mercado….e o pior é que isso não acontece somente com aula-vídeo de professoras/bailarinas renomadas, mas com vídeos clips de artistas a la Shakira….

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