Amiga convidada

Este texto foi escrito por uma amiga muito querida, a Lid. Sua criatividade e capacidade de elaboração crítica são inspirações para mim. Espero que agite os neuroniozinhos de vocês também.

Aleijadinhos, Leões e a Dança do Ventre**

Por Lid Van Der Lans-Eneias*

Era 1989 quando fui a Ouro preto pela primeira vez. Tinha oito anos, fui com mamãe e a então esposa de um recentemente falecido tio meu. É a lembrança mais antiga que tenho de sentir o coração prestes a sair pela boca: as montanhas, as inativas estradas de ferro protestando silenciosamente pela saudade que sentiam do vapor dos trens, o negro agudo dos minérios, os despenhadeiros e curvas da estrada, a chegada de ônibus à cidadezinha que ainda não havia sido comida pelo desenvolvimento turístico da região. Os casarões velhos, as velhas nas portas oferecendo pouso, os velhos jogando dominó… tudo velho, velho demais e lindo demais pra uma menininha que nunca havia visto nada além do concreto e do plano moderno e corroido da Brasília em fins de anos 80.

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Essa foi também a primeira vez que me lembro de ter ido a um museu (havia qualquer coisa naquela cidade que não fosse museu?). Entramos na igreja de Nossa Senhora da Conceição, com seus detalhes em cor-de-rosa e ela lá no centro, a Conceição da qual me lembraria muito bem e que, sem dúvidas, também vivia num morro a sonhar. Atrás da Igreja ele me esperava, sentado, aleijado e triste. E veio falar com nosso grupo de três gerações de mulheres por meio de um senhor, porteiro, que vigiava bem sua arte.

O porteiro, que por poesia do destino também se chamava Antônio, nos conduziu à sua peça preferida no museu: Os Leões de Essa, que seriviam para sustentar caixões em dia de transporte de humanos para o lado de lá. É claro que me congelou a espinha pensar na quantidade de nobres caixões que foram repousados sobre a escultura (naquela época, a morte era para mim apenas uma senhora velha com um pacote de cosme-e-damião nas mãos querendo puxar papo). Agradeci ao S. Antônio a explanação sobre a utilidade do bicho, só que aquele leão não era leão nem em Ji-Paraná, nem em Ouro Preto: “Mas como isso pode ser leão, com essa cara de macaco, sem juba, com pata de gavião… de leão ele só tem o rabo!” Seu Antonio riu, e me contou que no tempo de Aleijadinho as pessoas não tinho muito acesso a livros, ainda menos acesso a fotografias e que, enfim, a Aleijadinho foram encomendados leões, mas ele não sabia o que seriam leões. Já o macaco e o gavião faziam parte do imaginário de Aleijadinho – que nunca saíra de Minas Gerais. O artista nada mais partira do seu referencial de vida, juntara tudo e refizera o gênesis. Aquela escultura era resultado do que Aleijadinho sentia, pensava e intuia ser um leão. Muito pouco importava que aquilo em nada se parecesse com um leão de verdade. Era um leão que carregava os mortos com sua cabeça.

O dia terminou com tutu e guaraná. Depois disso, sempre me perguntei se os leões das revistas National Geographic era mesmo leões, ou uma montagem qualquer de cachorro, gato e Diana Ross.

Só em 2000 voltei a Ouro Preto. Eu sabia que já não encontraria Seu Antônio na porta (a dona velha do cosme-e-damião já tinha virado amiga e confidente), mas sabia que o leão estava me esperando lá, com sua cara de macaco e sua história de defuntos e viúvas alegres. Um porteiro jovial nos veio falar: Bons dias e tal; chamava-se Antônio e, apesar da simpatia, em nada me remetia à emocional recepção do outro Antônio. Nos perguntou – a mim e minha mãe, sem tia Anamar – se já conhecíamos o museu. Mesmo à resposta afirmativa, Antônio nos foi explicando cada detalhe de cada obra e pacientemente, como que advinhando meu anseio de ir ao icônico felino, escandia as sílabas e esticava o assunto.

Terminado o último crucifixo de prata, Antônio chegou-se aos leões: “E esses são os leões de Essa, espero que tenham gostado da visita”. Como?? Sem repetir a história de 1989 eu não sairia de lá. Pedi com os olhos arregalados que me contasse porque os leões são macacos. Antônio, que me via ansiosa desde o começo da visita, queimou todos os meus véus de menina de oito anos: “Aleijadinho, em meio a agonia de sua própria deformação, constantemente em dores, fez refletir nos seus leões uma metáfora para sua própria condição. Era um homem que já não tinha rosto de homem, mãos de homem, nem pés. O leão não tem cara de macado de forma a verdadeiramente assemelhar-se a um macaco; o leão é uma ilustração de uma aberração, da deformação física pela qual aleijadinho passava. Não é por nada que esses ‘leões’ eram usados para carregar caixões; Aleijadinho fez da escultura sua própria figura, e de sua utilidade uma visão de que a morte não tardaria. Em síntese: suas deformidades o levavam para a morte”.

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Não houve nem tutu, nem guaraná aquela noite. As duas explicações, a do Antônio mais velho e a do Antônio mais menino faziam sentido demais. O Antônio mais moço soava mais acadêmico; o Antônio mais velho falava quase como um médium. Decretei vitória aos dois e guardei essas duas explicações na gaveta mais luxuosa do meu coração.

Há anos penso na dança do ventre como penso nesses leões de Aleijadinho. E se você pensa que não há conexão, por favor deixe-me provar que ainda não estou completamente senil.

A nós não nos foi encomendada uma dança, como a Aleijadinho foram encomendados os leões. Mas nós fomos atrás deste leão chamado dança do ventre, mesmo muito antes de saber o que ela de fato é. Sem acesso a livros que nos ensinassem o passo-a-passo, sem fotografias que nos mostrassem o que é uma dançarina do ventre. Intuimos, inventamos o ventre sem saber nem ao certo de onde ele vinha, nem que cara ele tinha. Criamos nosso leão, que pode ter cara de macaco por ignorância sim. Mas é a expressão artística de mulheres escultoras de movimentos dos quais não conhecem o seu referencial original. O leão verdadeiro não deixou de ser leão quando foi recriado com cara de macaco; ele apenas adquiriu um ângulo novo, uma nova cor. E quem sabe até uma nova maneira de rugir.

Mas pode ser que nossa escolha pela deformação tenha sido também (quase) proposital. Ao saber o que essa dança é (ao menos superficialmente, por um postal preto-e-branco, um VHS da Lucy ou uma fita do Tony Mouzaiek) fomos entalhando nossas “deformidades”, tornando nossa expressão artística mais esculpida nos entalhes de quem verdadeiramente somos, dando nossa cara brasileira a uma dança que não é/era nossa. E ainda que não tenha sido assim uma escolha muito consciente deformá-la: o samba, o carimbó, o forró, o frevo e tudo aquilo que marca o nosso corpo vem à tona quando esta dança é executada por nós. A deformação, neste caso, é um mero meio do qual nos utilizamos para a execução mais verdadeira possível do que possa ser “dança do ventre no contexto atual do corpo e identidade brasileiros”.

Seja porque não sabíamos (e ainda não sabemos ao certo) o que é a dança do ventre, seja pela maravilhosa incapacidade de apagar nossa brasilidade de nossos corpos, o fato é que o que fazemos aqui e o que entendemos como dança do ventre é uma expressão puramente verdadeira, artística e pulsante. Uma dança que já nasceu deformada por nós e que é o fruto de outras deformações constantes que lhe aplicamos na medida em que se populariza e conhece outras regiões e outros corpos. A nossa dança do ventre é um leão com cara de macaco e garras de águia, ora pelo nosso limitado conhecimento sobre a dança, ora porque assim a queremos. Mas, como os Leões de Essa, ela permacerá pelos próximos séculos como uma expressão genuína de que tudo renova, se deforma e se recria.

*Lid é amiga, amorsh, pitaqueira semi profissional, cantora, cronista e poetisa.  Sabe fazer patchwork, escolher vinhos, pintar armários, falar holandês, espanhol, inglês, francês e um tantim de italiano. Gosta de pérolas e perfume de alfazema. Como hobby, fez jornalismo e mestrado em desenvolvimento sustentável.

** Qualquer referência ao texto ou sua reprodução, integral ou parcial, deverá ser previamente autorizada pela autora, através deste blog ou alhures, sob pena de incorrer em crime de plágio.

22 comentários sobre “Amiga convidada

  1. “…criatividade, capacidade de elaboração e uma sensibilidade”, graças a Deus, nada européia. Lid é multimídia!!!! Talento e uma das mulheres mais belas que conheço, de todas as formas.

    beijo, minha querida Lidiane

    Antonio

  2. Oi, Roberta. Achei muito interessante esse texto (aliás, essa sua amiga tem um site?? Seria bacana ler outros textos dela, gostei muito da maneira dela de escrever), poético até… mas constantemente me pego pensando sobre esse assunto e vejo quão complexa é a coisa, por vezes até pertubadora. Porque sou absolutamente contra pessoas que defendem uma dança “Pura”, original, acho que nada disso existe e algumas dançarinas chegam a ser esquizofrênicas com esse argumento em suas aulas e workshops… só que por outro lado, também fico pensando que deve haver algo que delimite o que é a dança do ventre. Eu (e a torcida do flamengo) sempre comparo a dança do ventre com o samba, é a nossa referência mais direta. E outro dia vi uns vídeos no youtube que me deixaram revoltada: eram uns europeus e norte-americanos dançando balroom style ao som de salsa e rumba, mas alegavam que aquilo ali era samba de gafieira, bemmm diferente do que aprendemos com o Carlinhos de Jesus (olha aqui um ex – http://www.youtube.com/watch?v=Za-jol3P7Y8&feature=PlayList&p=CFC5F34C11042924&playnext=1&index=53) Indignada, como boa brasileira que não desiste nunca, defendi a cultura do “meu povo” e lasquei um comentário malcriado, avisando que aquilo não era samba nem aqui nem na China e que o dono do vídeo estava fazendo uma PPP sacanagggg com a cultura do meu país.
    Fui ingênua. Porque uma olhada mais atenta no youtube me fez perceber que aquele vídeo era só mais um dentre centenas de vídeos similares, todos com o nome de SAMBA.
    Até hoje recebo postagens em meu canal de brasileiros, solidários com aquele comentário que deixei no calor da emoção… todos igualmente ofendidos, se sentindo humilhados e desrespeitados pelos “gringos ignorantes”, “europeus que se acham superiores”, “americanos desavergonhados que querem roubar a nossa cultura” e por aí vai. Muitos me pedem para entrar nas discussões e defendê-los dos ouvidos moucos.
    Aquilo me fez pensar na dança do ventre… Porque até então achava um barato misturar DV com hallowen, com música brega, com coisas de outros países… mas a partir dalií me pus a refletir – será que nos olhos dos outros é refresco? Será que não é por isso que os egípcios adoram dizer por aí que só temos técnicas, mas não emoção, que o que fazemos não é a dança deles?? (porque gostemos ou não, a dança está ligada à cultura árabe, não adianta dizer que hoje em dia ela se internacionalizou, afinal de contas o mesmo aconteceu com a capoeira e nem por isso os suecos jogam capoeira ao som de Abba).
    Espero que vc e a Lid possam me ajudar. Porque às vezes ficar pensando sozinha é chato pra caramba.
    bjs e tudo de bom.

  3. Ro,

    Entendemos o mundo a partir do corpo que temos.
    Com Aleijadinho foi assim. Assim é com a gente também. Na dança, na vida!

    Gostei da Lid.

    Beijins.

    Vivi

  4. Roberta, desculpe, não tem nada a ver com o post. É que ontem vi um pedaço de Troca de Família e tinha uma mulher de Brasília (pelo que entendi) que faz dança de ventre. E aí, vc conhece? Vai falar sobre isso? Eu quero ouvir sua opinião sobre o programa! Ou pelo menos como a dança de ventre foi retratada pelo programa.

  5. Ola meninas

    Esse texte foi ao encontro de meus pensamentos após ver um vídeo dabrasileira Maira , que dançava em um concurso no líbano(reality show), e os jurados falavam que aquilo nao era dança do ventre esim dança do Brasil. Caramba, como assim?! Realmente qdo vemos algumas meninas dançarem, sao lindas , tão baléticas, tao suaves…..e as egipcias? Dançamos entao diferente? Existe dança do ventre diferente? Pq nao respeitar nosso “estilo! de dançar já que existem as libanesas e as egipcias? Nossa esse bolg realmente faz com q pensemos!!! beijos a todas.

  6. Antonio: Obrigada pelas palavas, amigo! Samantha: Nossa, que bom que essa metáfora te fez refletir, fico muito feliz mesmo! Luana: hahaha, adorei a expressão🙂 Obrigada! Vera: As coisas que vêm da infância são muito sentidas, né? Definem muito quem nós somos. Penso em escrever mais sobre a infância, mas às vezes não é tão leve🙂. Beijos! LuArruda: Obrigada por ler o texto! Beijos! Elaine: Obrigada também! Carrego essa analogia há muito tempo, só que esperei o momento certo para termina-lo. E publica-lo aqui foi um presente. Laila: Obrigada!🙂

  7. Livia: Seu comentário tem muito a ver justamente com a pesquisa da Roberta. Essa dança tem dono? Quem é o dono? As culturas tem dono? Como delimitar um bem cultural que ultrapassa fronteiras? São excelentes questionamentos. Eu não tenho site; já tive alguns, já tirei do ar. Ando pensando sobre isso, inclusive. Quem sabe, um dia, volto a ter. E você, já pensou em colocar seus questionamentos em um blog? Quanto mais gente pensando e comentando a dança do ventre, melhor. Um beijão! Samara: poderosa és tu, minha linda! Vivi: acho que é por aí mesmo, o corpo é nossa ponte, é o que toca e precebe o ambiente. Lory: Obrigada pelo carinho! Anna: eu ainda não sei muito bem onde é estilo de um país ou estilo da bailarina. Comparemos a Dina e a Lucy, duas egípcias. Quais as similaridades entre as duas? Pode-se falar que as duas dançam “estilo egípcio”? Quanto ao programa que você assistiu: será que não era uma birrazinha do juri em relação ao fato de a moça não ser libanesa? E qual era o nível desse juri? Pense em programas de jurados no Brasil – será que esses jurados não teriam o mesmo nível dos jurados daqui da nossa terra? Um beijo grande pra você!

  8. Oi, Lid. Tomara que a tese da Roberta fique logo pronta e seja publicada. Não sabia que era sobre este tema!! Acho que será de uma valia inestimável! Eu tenho um blog sim, mas meus interesses não se restrigem à dança… de todo modo coloquei um link para o teu texto só para os associados do multiply e abri o debate. Minha amiga Bety comentou assim – “um dia essa discussão será xixi de borboleta”. Tomara mesmo que essa profecia se cumpra, né? Também discordo do critério “estilo egípcio”, na minha opinião isso é apenas uma abstração. Pior ainda quem propaga por aí idéias como “libanesas dançam mal”, “turcas dançam mal”, “americanas dançam mal”… até escrevi um texto sobre isso porque é triste ver que ainda existe lugar para os mitos nesse mundo.
    Um abraço, Livia.

  9. Esse texto vai me causar insônia! [2]

    Eita texto criativo, sensível e de inteligência absurda.
    Eu li umas duas vezes com muita calma pra ver se era isso mesmo… rs
    Até que a ficha caiu e aí eu li de novo!

    Parabéns Lid, você escreve muitíssimo bem!
    Parabéns Roberta, por compartilhar essas preciosidades com a gente!
    Beijo!

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