O feminino do folclore

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O folclore. É complicado, a gente fica desorientada mesmo. Mas ele é essencial na dança do ventre. Claro, há formas folclóricas mais presentes que outras. Saber saidi, ainda que rudimentarmente, é “mais importante” que saber hagalla. Saber khaligi também vale mais no mercado do que saber somboti. Porque você topa o tempo todo com esses folclores durante uma performance com música clássica, por exemplo.

Mas a real é que pouquíssima gente se interessa de fato pelo aprendizado do folclore. Acham chato, menos bonito, menos majestoso, menos etéreo, menos misterioso. Acham o folclore menos, simplesmente.

[meu eu interior] Bom, o zar é misteriosíssimo, mas também não sei se ele se encaixa na categoria folclore. Até porque é uma religião. Mas quando rola o ayubi lento, geralmente entra-se no climão místico do zar, então está no campo da dança de palco também, na nebulosa categoria “folclore” [/meu eu interior]

A verdade é que folclore é real demais. Na dança do ventre em geral as bailarinas querem ter uma experiência extraordinária, querem seu momento de super-mulher, que nasceu com unhas feitas, escova perfeita e coberta de jóias até os dentes. No folclore estamos com roupinhas mais simples, sem jóias e com um lenço na cabeça, no mais das vezes. Como eu disse às minhas alunas, geral quer parecer rainha; quase ninguém quer parecer lavadeira.

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Bom, gosto muito do visual lavadeira. Curto o feminino cotidiano, que rala, que faz acontecer, que é muito diferente da musa da dança do ventre. A musa inspira e é linda e é quase sobrenatural. Mas a camponesa celebra o dia de trabalho, a família, a colheita, lava a roupa, costura e dança com a parentada. Ela se parece mais comigo. Com as mulheres que ralam o dia todo. Claro, não na roça. Acredito que nenhuma praticante ocidental da dança do ventre busque água em poço distante ou vá lavar roupa no rio. Acho que poucas egípcias também, pois as condições sanitárias devem ter melhorado no Egito . No entanto, trabalhamos duro com outras tecnologias. O trabalho do dia-a-dia é nossa ligação com as formas folclóricas.

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Por que não celebrar a mulher palpável? Em minha escola estamos promovendo aulões dentro de um programinha chamado “Estudo de Acessórios”. A idéia é trabalhar o acessório e um estilo musical correlato. Assim, teremos aulões de daff e baladi, bastão e saidi, espada e melodias lentas. Um halewa para quem adivinhar o aulão mais procurado. Isso mesmo, o da espada, sem folclore no meio. Quando atendo o telefone, tento argumentar que os outros dois cursos poderão ser o diferencial dela como bailarina e tal. Mas o folclore não desce, para muitas estudantes.

Fico especulando o porquê. Meu último palpite é esse mesmo. O do feminino que se quer explorar, fazer emergir ou homenagear. Palpites?

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16 comentários sobre “O feminino do folclore

  1. Roberta, acho que vc matou a tapa, não imagino outra razão para o pessoal não aproveitar um bom aulão de folclore a não ser o “gramur”.
    Eu compartilho da sua opinião, me identifico mais com a mulher do dia-a-dia do que com a musa do ventre.
    Sou apaixonadona por folclore!

  2. Fia, eu não me identifico com o luxo, embora me fantasie com ele vez ou outra. Essa coisa é interessante. Pergunta a uma mulher o que a atraiu na DV? Geralmente a roupa luxuosa vem nas primeiras listas. Ninguém vai fazer aulas de DV pq adorou aquela dança que joga os cabelos pros lados, sabe? Isso é uma descoberta posterior mesmo. A gente quer ser diva. Ninguém quer pôr lenço na cabeça. Mas, depois que experimenta, a liberdade de dançar de forma mais livre, menos classuda e sem tantos arrobos de estrelismo, é impagável. Meu sonho é me especializar apenas em dança folclórica. Queria passar uma temporada com Maíra (Magno) pra aprender hagallah, núbia e dabke melhor. Queria ser a princesa do baladi. Queria arrasar com o said. Queria aprender o khaliji original do Golfo. Danças mais alegres, mais povão e de um femninino muito mais próximo do meu cotidiano.

  3. Nossa Rô, que texto bom, que coisa mais real… Todos os works de dança folclórica que tentei trazer pra SP, com gente séria que não conta história e não dança hagalla com pulseiras de strass foram um fiasco!

    Acho que as meninas não procuram por folclore por que querem ‘trabalhar’ e ‘fazer shows’, acham que não existe campo pra quem dança folclore e que ‘emprego’ mesmo só as bellydancers têm. Olha, já ouvi essa frase de vá-á-áárias meninas. E não adianta argumentar…

    Mas com certeza o lance DIVA pega muito… Sua definição foi tão perfeita que nem dá pra argumentar. Em SP já existiu a febre do folk chique, vc acompanhou? Nos shows vc via montes de lavadeiras com roupas douradérrimas, mega surreais… Era de chorar de rir, daí quando vc tentava explicar pra alguém que as coisas não eram bem daquele jeito, ou a pessoa se frustrava ou dizia que vc estava louca.

    Aproveitando, pedido: Escreve sobre o folk levado aos palcos, a diferença que surge necessariamente e os exageros!

    Beijos

  4. idem. A teu ponto de vista. Eu sou das que acha tremendamente gostoso, o pé no chão, o lenço descompromissado no quadril e uma roda livre de dança. raiz.

    Sinto ganas de um dia ter um pouco dessa ‘camponesa’ enm mim, na minha dança.

    Bjos!

  5. Por essas e por outras, que eu sempre perdôo teus sumiços e continuo te amando: que texto foda!!!
    Eu sou musa da minha cozinha, diva de escritório. Divido o sonho com a Lory, queria ser sempre amadora, mas uma amadora especialista em folclore. Com as roupas e os sons esquisitos, com o pé batendo no chão, na roda com outras mulheres – quando possível.
    O chato é que por causa dos outros 99%, nunca tem work decente de folclore pra se fazer nessa terra…Fooooooon!
    Texto perfeito, perfeito, perfeito.

  6. eu não sei se me encaixo nessas duas categorias – adoro me montar de diva, mas sou mulher do dia a dia mesmo – calça jeans e camiseta.
    comecei a dançar porque minha sonhoterapeuta me disse que fui egípcia na outra vida. e minha fitoterapeuta falou que eu tinha que mexer com a energia da barriga pra sarar de umas zicas.
    daí, comecei. não pretendo parar nunca. não ligo pra roupa, pro cabelo (que no meu caso é cruto). também não ligo pro palco.
    eu quero aprender. e estar feliz dançando – na sala da minha casa, na sala de aula, no chuveiro – aonde der!
    folclore, clássica, lavadeira, diva – eu quero ser tudo, aprender tudo!

  7. OI Roberta, tudo bem? Li sua postagem e concordo com vc plenamente. Também sou professora, sou de Porto Alegre e sei a dificuldade que é de introduzir o folclore para alunas e público. Amo folclore!!! Não ha nada mais lindo e divino!!! Escutamos o tempo todo sobre a dança mais contemporânea e suas “novidades” mas temos pouquíssimo acesso ao folclore aqui no Brasil, infelizmente… Gosto muito da dança mais clássica e tal, mas não preenche… Ao longo desses anos que danço, escutamos de tudo, ficamos perdidas até que conseguimos trilhar nossa própria linha de pensamento e questionamento, o que é muito bom para nos direcionar na dança.
    É um prazer ler suas postagens e pra mim é ótimo, pois ainda tenho muito o que aprender desta cultura que amo tanto.
    Grande abraço
    zahira

  8. Olá Roberta. Sempre acompanho seu blog. Tempos atrás quando passei pela disciplina de Folclore Brasileiro 1 e 2 na UFRJ percebi o quanto a maioria das bailarinas e aspirantes são superficiais quando se fala de folclore em termos gerais. As pessoas praticam, ensinam, reproduzem , mas não pensam sobre. Não se questionam, ignoram a teoria. Resultado: todo mundo dança, até as alunas iniciantes, mas quando alguém pergunta “O que exatamente é folclore?” poucas pessoas tem base pra responder. Mas generalizar é feio e não quero soar sabe-tudo de forma alguma. Tenho mil dúvidas sobre folclore. Muitas mesmo. E sinto que o acesso a informação é bem dificil.

    É um tema complicadissimo, e sempre escutei no meio da dança que “folclore é fácil” , “não tem muito o que fazer, você não precisa se preocupar”. Lembro também de ter trocado algumas palavras com você via orkut em alguma comunidade dessas sobre uma entrevista com o Reda, acho que vale a pena você colocá-la no blog de novo pq fala sobre essa coisa de folclore no palco, ou não, não me lembro ao certo. Mas seria super interessante mesmo assim.

    A entrevista, feita por Morocco, pode ser lida aqui: http://www.gildedserpent.com/art32/rockyredainterviewp1.htm
    Há links para as partes 2 e 3.
    Beijos!

  9. Palpites?
    Ah, claro, xuxu. Ainda mais com um tema que é o meu dodói.
    Acho a sua colocação exata. A figura da mulher etérea, rainha, é muito mais interessante e desejada do que a da mulher cotidiana de lenço na cabeça e de trejeitos grossos. Essa última se vê todos os dias, mas a outra só se ve nas revistas, na tv…As mulheres buscam um ideal feminino, e mesmo as que permitiram-se caminhar pela DV e teriam (supostamente, bem claro) uma mentalidade mais esclarecida à este aspecto, resistem em encontrar beleza naquilo que foge da idéia de Deusa…

    Poucas, mas bem poucas mesmo, compreendem o upgrade que a dança folclórica traz para quem faz DV. Poucas tem a compreensão de que a dança folclórica é essencial para o entendimento da dança do ventre.

    Ao contrário de Caetano, em Sampa, nesse caso, o “lindo” é justamente aquilo que não é espelho.

  10. Hein…
    Eu nem sei nada de nada, mas quero dar meu chute também.
    A sensação que eu tenho é que a maioria esmagadora das pessoas compra não a dança do ventre em si, que guarda em si um escopo gigantesco, mas sim a IMAGEM dela refletida no ocidente. É a dança que cura cólicas, aumenta a auto-estima, seduz os “hômi” e resgata a deusa interior. Mais que isso, não dá. Abraçar a cultura alheia sem preconceitos dá um certo trabalho, sabe?
    Soma-se a isso a sociedade de “Macabéas” que existe hoje, todas em busca da sua “Hora da Estrela”.

    Eu particularmente gosto muito de folclore também.
    Acho bonito celebrar as pequenas coisas da vida, o que exige uma certa observação do cotidiano. Mas, quem é que faz isso hoje em dia?
    Bom da vida hoje é ser estrela.

  11. Nossa, falo? Num falo? Ah, falo sim: folclore tem muito pouco a ver comigo, quase nada. A DV pra mim, no sentido estético, é sim a montação da Drag interior; no sentido de dança, técnica e um estranho sentimento universal de congregação. O folclore d’outras terras me fala muito pouco ao coração. O folclore que tem MUITO a ver comigo é esse no qual cresci: festa do divino, a catira, as quadrilhas, o São João, as noites de novena na chácara, as mulheres amassarem juntas o pão de Santo Antonio na noite de 12 de junho… posso estar errada, mas para mim o folclore só faz sentido quando se conecta à minha terra.

  12. O comentário da Lid foi extremamente pertinente. Difícil se apaixonar por uma manifestação folclórica que não é nossa, e mais difícil ainda é trazer para perto da gente uma realidade tão distante…
    Tenho certeza que, quando danço Khaleege ou Said, estou colocando muito da minha percepção, do que já vi e/ou ouvi nessas andanças de cursos, works, vídeos…mas também coloco o meu sentimento com relação a tudo isso. E acho que esse é o barato da coisa.

    Claro que a gente sempre vai buscar informações confiáveis sobre as diferentes danças folclóricas, pra não fazer algo imperdoável na sua performance…mas, afinal, o que é imperdoável e o que é confiável? Será que não foi algo estabelecido por alguém que nem é daquelas regiões onde as danças acontecem, sendo também uma percepção de alguém de fora da cultura? Bah, complicado isso…

    Mesmo assim, falando agora das minhas alunas, elas a-do-ram folclore. Tiveram um primeiro contato no final do ano passado, e querem mais. Dizem que se sentem alegres, livres. E, quem sabe, a coisa não seja por aí mesmo…

  13. Depois desse seu texto, sinto-me muito feliz e confortada. Certa vez, dançamos em uma amostra de fim de semestre com roupas sem brilho, lenços na cabeça e portando bacias e trouxas de roupas. Fomos aplaudidas e elogiadas pela platéia e por incrível que pareça “roubamos a cena”! Não era essa nossa intenção [a de tirar o foco das “musas”], mas a simplicidade dos movimentos e o carisma de nossa expressão conseguiram [creio eu] traduzir o que “é da terra”. Certamente línguas ferinas se manifestaram, mas nada nos fez arrepender da escolha de buscar “mais conteúdo” em nosso aprendizado.
    Enfim, faço parte do grupo que acredita na “dança-manifestação cultural-etc e tal”… e que assim seja!
    Bora nessa, Rô!!!

  14. Hein Roberta…
    Eu nem sei nada de nada, mas quero dar meu chute também.
    A sensação que eu tenho é que a maioria esmagadora das pessoas compra não a dança do ventre em si, que guarda em si um escopo gigantesco, mas sim a IMAGEM dela refletida no ocidente. É a dança que cura cólicas, aumenta a auto-estima, seduz os “hômi” e resgata a deusa interior. Mais que isso, não dá. Abraçar a cultura alheia sem preconceitos dá um certo trabalho, sabe?
    Soma-se a isso a sociedade de “Macabéas” que existe hoje, todas em busca da sua “Hora da Estrela”.

    Eu particularmente gosto muito de folclore também.
    Acho bonito celebrar as pequenas coisas da vida, o que exige uma certa observação do cotidiano. Mas, quem é que faz isso hoje em dia?
    Bom da vida hoje é ser estrela.

  15. Roberta,

    adorei sua postagem. sou beem iniciante, mas percebi no princípio que o folclore me cativava. acho que é dançar mais para si, para se divertir. tem que impressionar os outros e a si mesmo sempre? uf! que cansaço!

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