A muitíssimo dificílima tarefa de estudar folclore

Inaugurei o ano com o propósito de ensinar folclore para uma de minhas turmas. Sei lá por que me encantei com o fallahi (o ritmo) e quis aprender melhor a dancinha camponesa. Sim, falei isso mesmo: eu quis aprender a dançar fallahin. Porque sei o básico, o tradicional, que ninguém me ensinou. Aquela coisa borrada que acabamos por aprender sozinhas, via vídeo. E vou aprender enquanto ensino às minhas alunas.

A real é que quase ninguém confessa não ser autônoma em danças folclóricas. Galera dança saidi e, estourando, praticamente às cegas, dança de Alexandria, vulgo meleah laff. Não temos um ensino sistemático e confiável do folclore. O que aprendemos de khaligi até recentemente  – ou seja, antes dos massivos contratos de bailarinas brasileiras para o Golfo e de seus retornos produtivos; também antes da internet rápida – é risível. Sutileza zero. Há alguns anos comprei um vídeo de um especial musical khaligi onde a galera dançava e vi uma diversidade incrível na dança, inclusive com uma interessante variação de figurino. Vou tentar disponibilizar esse vídeo. De todo modo, a Polimnia Garro trouxe um khaligi bastante diferente e que vale a pena conferir.

Ou seja, aos poucos, mas muito vagarosamente, vamos conhecendo um pouco de outras danças fora a dança do ventre de palco à qual estamos acostumadas. O problema é: o que é folclore e o que é folclorização?

Gosto muito de folclore, talvez por minha formação. Mas, justamente por causa da antropologia, morro de medo da palavra tradição e de tudo que tem “folclore” por rótulo. Daí, estudando fallahi, preocupo-me, por exemplo, com a caracterização: as camponesas egípcias usam mesmo aquelas trancinhas? E os vestidos são mesmo espalhafatosos e coloridos? Será que usavam trancinhas e já não usam mais? Devo tentar pesquisar como é o visual característico da camponesa egípcia contemporênea? Se for muito diferente do que o Mahmoud Reda pregou (a imagem romantizada de um Egito puro, pero no mucho), será que as Suhailas-al-Shams-el-Hobs da vida vão entender?

Estamos acostumadas a entender como tradição versões congeladas ou “higienizadas” de danças populares. Isso acontece no Brasil também, nas poucas vezes em que vemos alguma apresentação de dança folclórica nacional. Porque folclore é coisa muito difícil de tranpor para palco, como bem problematiza o antropólogo Anthony Shay. Acabamos por fazer um retrato muito distorcido do que seria uma tradição.

Penso que o mesmo acontece no Egito e com as coisas de lá. Não tenho uma visão clara do que acontece na área rural egípcia. Não sei a quantas andam as festas populares depois da popularização da televisão. E da viscolycra, claro!

11 comentários sobre “A muitíssimo dificílima tarefa de estudar folclore

  1. Parabéns pelo post Ro, muito bom!

    Eu sempre levantei a bandeira de que o folclore e a dança do ventre andam separados. Por que nosso material sobre folclore no Brasil é muito ruim e pouquíssimas de nós, profissionais em dança do ventre, podem se dizer profissionais tb em folclore.

    O ensino do folclore no Brasil é extremamente banalizado. Eu mesma, depois que comecei a andar com as próprias pernas aboli o folclore das minhas as aulas e sempre que minhas alunas se interessavam sobre o tema eu indicava as aulas de outra bailarina, por que admitia que minha especialização era em dança clássica.

    Esse alerta é muito importante, mostrar que o folclore merece atenção específica e que ele não é apenas mais uma forma de encher linguiça nos programas de aula. Merece a mesma dedicação – ou bem mais – que a nossa dança do ventre!!

    Um beijo!

    Taí uma atitude corajosa, Luana. Sei lá, acho importante que se estude o folclore, mas seu comentário realmente me encasquetou. De fato, o ensino (o pseudo-ensino, na verdade) do folclore relacionado à dança do ventre é tão largado, tão jogado que talvez fosse até interessante que ele não fosse incluído no currículo. A refletir.

  2. Olá, Roberta. Sempre leio seu blog. Excelente post. Seus questionamentos durante o texto são ótimos. Continuarei acompanhando. Abraços.

    Obrigada, querida. Beijos!

  3. ‘ Suhailas-al-Shams-el-Hobs’

    hahaha será que elas pegam a coisa?? haha
    adorei o post, principalmente pq me interesso muito por folclore e acho que ainda somos ‘pobres’ em relação a eles em solo brazuca. Td muito limitado.

    Espero ansiosa teus progressos paar compartilhar conosco!
    bjoos!
    *nunca mais passou n meu canto =p*

    Oi, lindona. Pode deixar que compartilho sim.
    Passo no seu bloguinho sempre, a dificuldade mesmo tem sido parar para comentar. Fui lá hoje e dei meu pitaco sobre a Ju Marconato (ótima!)

  4. Flor, folclore árabe a gente dança meio que inventando, né mesmo? Tem duas criaturas aqui no Brasil que têm base pra discutir isso. Uma é a Samya-Jú. Qndo tenho dúvidas, escrevo pra ela. A outra é Maíra Magno, que vive indo e voltando do Egito e tem muita bagagem na área. Eu tenho esse vídeo do khaliji. Foi até vc q me recomendou. Tomei um susto ando vi. Mas continuo dançando aquele khalijizinho falso q a gente aprende por aqui. Já entendi que ele é falso, mas nem por isso, menos gostoso de ser dançado. Acho que a gente precisa ter consciência disso, pra não ficar falando besteira, dizendo que é uma dança que representa o povo do Golfo Pérsico… A minha opção de continuar dançando khaliji falso é consciente. Não abro minha boca pra ficar dizendo besteira por aí. Se alguém pergunta o qe é, digo, é uma homenagem brasileira a uma dança clássica do Golfo. Pq não podemos considerar folclore uma dança clássica de uma região só pq aprendemos assim na fita da Soraia de mil novencentos e bolinha. E é uma homenagem… despretensiosamente, uma homenagem.

    Concordadíssimo. Samya-Ju e Maira Magno são super sérias e boas estudiosas. Quando ao folk-tabajara, não sei. Para mim, é brochante.

  5. Fiz um post enorme e a porra do WordPress comeu.
    Vou resumir: amo folclore. Mas não, não sei dançar folclore. Por mim eu dançava só folclore. Mas o que é essa porra, afinal?

    Outra: não acredito em folclore na contemporaneidade. A globalização acabou com tudo. Não existe mais rural e urbano. O regional virou lenda. Se quisermos algum folclore, vamos ter que olhar um cadim pra trás. Opinião de leiga babaca.

    Beijos.

    Você nunca será uma leiga babaca. Confio muito em seu discernimento.
    Mas também não acredito que essa homogeneização cultural que chamamos globalização tenha sido tão poderosa a ponto de massacrar as manifestações locais. Um excelente antropólogo chamado Marshall Sahlins defende que culturas não se extinguem; transformam-se.

  6. Eu adoro o que eu “imagino” ser folclore, mas dá medo dizer que sabe alguma coisa, pq a cada minuto alguém ou algo te contradiz, mas ainda não descobri se é exatamente esse o fascínio.

    Pois é, comigo rola algo parecido. Nunca sei direito por onde abordar o folclore. Mas vamo que vamo; errando, a gente se apruma.

  7. Para mim, o que ensinamos (e aprendemos) como danca folclorica arabe me parece muito proximo a danca carater. Sera que nao estamos com a cultura egipcia apenas usando os mesmos artificios que os russos usaram com outras culturas para formar a danca carater? Sera que o que o Reda faz nao eh mais danca carater que qualquer outra coisa? Eu nao sei. Pode ser.

  8. Oi Roberta!! Sou sua fanzoca viu, quando crescer quero escrever igual vc!!!
    Ótimo post, e o pior é que dentro da ignorância o povo acaba criando “regras intransponíveis” sobre algo que nem conhece direito! Lamentável!

    Valeu, queridona! Tenho visitado seu blog e gostado muito!

  9. Hein, gacta…
    Eu acho que você tá certíssima em tudo que disse.
    Eu só gostaria de acrescentar que eu acho que o folclore traz duas coisas que eu acho vitais pra dança: alegria e espontaneidade.
    Apesar de ter vários grupinhos “montados” aí, é tão bom ver esses vídeos e ver que as pessoas não estão posando pra Caras ou pro Fujioka!
    Sobre a caracterização, eu pensei numa coisa que eu não sei se ajuda muito: as mulheres que dançam são camponesas, portanto dançam com a roupa que trabalham. Então acredito que cada uma escolha a melhor maneira de prender o cabelo, seja com tranças, ou rabo, contanto que não atrapalhe o serviço que elas estejam executando. Pra adornar, vai o que estiver mais perto no trabalho, que, nesse caso, são as flores, né? Com a roupa, a mesma coisa. De tecido sem luxo, confortável, mas bonita.

    Ai, eu falo demais.
    Um beijo.

    Que nada, flor. Adorei as dicas. Beijos mil!

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