Estrutra e coreografia

Tem espetáculo chegando e todo o meu tempo de dança tem sido dedicado a ensaiar minha turma de intermediário. Muita expectativa em torno dessa coreo. Das alunas, encantadas em dançar com espada; minha, em apresentar um bom trabalho; da geral espreitando minha estranha empreitada (ói a poética!) de ousar ensinar espada a meninas recém saídas do básico B.

[Digressão] Em primeiro lugar, nego supervaloriza a espada; não é tão complicado assim. Basta ter uma espada alinhada. Em geral, os fabricantes as confeccionam visando equlíbrio. Segundo: minha coreo está pedagogicamente correta, se é que isso existe no ensino da espada na dança do ventre: galera vai fazer equlíbrio estático e adornos com a espada. O único deslocamento da coreo é tranqüilo; uma simples caminhada; terceiro: para mim, difícil é interpretar taksim. Acessório é bobagem.[/digressão]

Daí que, de novo, meu solo ficou para escanteio. No último show, precisei requentar coreografia, por pura falta de tempo mesmo. Desta vez eu tinha jurado que não repetiria esse auto-constrangimento (porque apenas umas amigas-gatas-pingadas sabiam que eu havia requentado). Só que não consigo parar para construir coreo própria. E me considero ótima coreógrafa para as alunas. Pra mim mesma, travo. Daí caio naquele dilema: coreografo meeesmo ou só tento construir a estrutura da coreo para preencher sobre o palco?

Bom, isso funciona. Às vezes. Mesmo com coreografia, sempre se improvisa, porque dificilmente a professora tem tempo para estudar à perfeição. A última coreo que apresentei sobre palco, por exemplo, saiu bem diferente de seu original, mas foi boa. Porque, se a gente constrói a coreografia, conhece a música de cabo a rabo e isso é o mínimo para subir em um palco e performá-la legal.

Só que tem um fenômeno de que poucas falam: o nervosismo. Se você construiu a coreo, naquele esquemão mesmo, minuto a minuto, e dançou muitas vezes diante do espelho e algumas para outras pessoas, consegue improvisar otimamente diante da energia do palco que te faz esquecer ou mandar para as picas o encadeamento dos passos. Se você fez só o esqueleto e alguma coisa te incomodou naquele dia (se sua roupa não ficou tão ótima quanto esperava; se você brigou com o namorado; se o retorno do som não está bom; se você errou a entrada; se você está com azia; se a iluminação está péssima; se você está com dor de cabeça etc), você corre o enorme risco de simplesmente se entediar durante a apresentação.

Seu tédio passa para o público. Troca de energia zero=performance triste.

Mas como é que se entedia? Começando a pensar em metragem. Começando a contar, a calcular se deve ou não repetir o passo etc. Tudo isso enquanto dança. Ói que coisa horrorosa.

Acho que pensar estrutura só serve se você conhece muito, mas muito mesmo, a música. Se você está acostumada a improvisá-la. Se você dança essa música muitas vezes. E, ainda mais, se a música tem muita variação. Ou seja, por incrível que pareça, é mais fácil pensar em estruturar (e não coreografar) uma música clássica do que uma folcórica ou moderna. Músicas folcóricas são repetitivas. Senão, se é uma música nova, aconselho sentar e ouvi-la com fone de ouvido e tal. E pensar muito nela e levantar depois da cadeira para dançá-la.

Vou dançar um shaabi. Daí tô, por enquanto, numa situação complicada. Escolhi uma música fantástica e energética. E preciso arrumar um jeito de transpor, no palco, a energia que sinto quando danço essa música. Improviso que é uma beleza em casa ou na sala de aula. Mas dá um medo danado de subir num palco sem coreografia.

Anúncios

11 comentários sobre “Estrutra e coreografia

  1. Olha, fia, vou te falar da minha experiência, que não é vasta. Não sou profissional, cê sabe. Mas vou contar como funciona para mim.
    Até tipo, uma semana antes da apresentação, eu cuido de ensaiar e pegar a coreo. Na última semana, eu trato de trabalhar o que eu quero passar para as pessoas com aquela performance. Trabalho o sentimento, para ele sair natural no rosto e no corpo quando eu for dançar.
    Estou verde de ver mulher dançar e careca de saber que uma apresentação com poucos passos e envolvimento (mas tem que ser real, não adianta alegria fake. Nem precisa ser alegria, mas precisa ser real.) é mil vezes mais interessante que uma múmia que não repete o mesmo passo quatro frases seguida.
    Os japoneses chamam de sonen, mas você pode chamar de intenção. É um trabalho muito, muito interno. Mas funciona muito mais do que qualquer coisa que possa ser ensaiada frente um espelho.
    Por que eu escolhi essa música? O que eu queria exprimir quando o fiz? Como ela mexe comigo? Em que parte do corpo eu a sinto? e por aí vai. Talvez você já tenha teorizado ad infinitum esse óbvio, mas era o que eu tinha para te oferecer.
    E, ah, muita merda.

  2. Amoo shaabi…qual música vc vai dançar?Depois coloca um videozinho por aqui!
    Como sou fã incodicional da fifi, sempre que tenho q pensar em transpor alegria e energia pra dançar eu assisto ela.

    bjs

  3. Minha experiencia com coreografia é a seguinte: até hoje só precisei fazer dois solos “de responsa”. O primeiro foi no show de final de ano da minha professora (que até então não colocava aluna solando) e o segundo foi para o meu casamento (odalisca metida é isso aí, e ser dona da festa é melhor ainda!). Nos dois casos, tive mais de seis meses pra trabalhar a coreografia. Eu ouvia a música umas 5 vezes por dia… depois fazia a coreografia das parte mais complicadas musicalmente e gravava bem a música nos momentos que eu ia “improvisar”. No ultimo mes, treinei diariamente, até ficar quase automatico… Na hora do vamos ver, FIZ ABSOLUTAMENTE TUDO DIFERENTE! Ainda bem que atuo só em ambientes controlados, o estrago sempre tende a ser mínimo!! ehehehehe

  4. Ó dúvida cruel né…
    Eu se fosse depender de coreografia eu tava ferrada, sou péssima para decorar sequências e estou ainda me aprimorando em coreografar para as alunas pq eu também detesto.
    Sei que é um mal necessário, senão para mim enquanto bailarina, ao menos como professora, e estou me esforçando.
    Minha aflição é extremamente oposta a sua, se vou subir no palco coreografada ai, dá um frio na barriga e nunca, absolutamente nunca, faço 80% do que planejei.
    bjocas

  5. É interessante como funciona. Acho que depende muito do metodo que vc aprende e como. Eu me desenvolvi com uma coreógrafa nata, de palcos grandes. Então é inevitável que ao coreografar pense muito em certas coisas que precisam ser ‘encaixadas’ pra música não se tornar tédio. Criei pavor de bailarina que dança uma música inteira no mesmo lugar… não importa se ela estiver chorando de emoção, se debulhando em lágrimas pela música… acho coreograficamete feio. Ao criar o solo fui pela música, [não por contagem metódica] mas todo o tempo trabalhava com o encaixe de passos. [Não ‘combos’], com o ‘deslocar sempre que possivel’ e o não dançar tudo no centro como se estivesse pregada. Assim que aprendi e acabei acostumando…
    Acho bacana a concepção coreográfica de cada um, muito diferentes, mas não deixam de ser interessantes.

    Espero teu shaabi anciosa!
    bjos!

  6. Improvisa mulher que ficará lindo!!
    Poxa, Roberta, com toda a sua técnica, sua visão (só de ler as coisas que você escreve). Não tenho dúvidas que você vai dar um pontapé no nervosismo ruim e ficar só com aquele bom que deixa a gente coom a adrenalina de sempre.

    Vai ficar lindo, mesmo que você não consiga coreografar, você conhece a dinâmica das músicas e quanto menos você ensaia, menos você enjoa e decora a música e mais ela surpreende você, quando seu corpo vai no embalo, mesmo sem esperar… Quando você sabe que a música vai aprar, mesmo sem nunca ter escuta ela.

    Não se diminua que você é uma superhiperultra bailarina poderosa.

  7. concordo contigo! difícil é taksim, acessório é besteira…
    eu vi a saudosa Najua (tah no México, eh isso?) dançar de tacinhas (ainda era moda) e arrebentar a boca do balão!!!! DEpois ela contou pra gente que era A PRIMEIRA VEZ que ela dançava com as benditas tacinhas! Caraca!!! daí eu vi, esse negócio de estudar acessório é realmente “acessório”. Quem dança bem dança bem! com copinho na mão, com trem na cabeça(claro , exige uma certa intimidade com o acessório, mas é realmente supervalorizado)…
    agora snuj é outra história…(sou suspeita , neh? rs)

  8. Tive uma educação na DV baseada toda no improviso e com o tempo, passei a coreografar meu solos. Hoje, acho que o equílibrio é a melhor coisa: estudar, estruturar e deixar rolar na hora, sem estresse. Acho que fica mais natural.
    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s