Transformações 2

Padrões estéticos são uma variável cultural. Cada cultura desenvolve princípios próprios do belo e do feio. O que é bonito para um povo pode indicar extremo horror a outra sociedade. E por aí vai. Isso é o básico da antropologia. Aprendi no primeiro ano de faculdade, apesar de antes já ter desconfiado disso. Porque a gente não faz vestibular para ciências sociais à toa; costuma atender a alguma tendência a gostar de enxergar a diversidade. E antropólogos há muitos, cada um estudando uma coisa diferente, às vezes tediosa (e, de novo, o relativismo: o que me dá tédio não necessariamente entedia meu colega e talz). Mas todos são unidos por um objetivo: o elogio à diversidade cultural e o lamento à homogeneização.

De meados dos anos 1980 para cá, temos presenciado a poderosa expansão de um determinado padrão do bom, do belo e do justo. Internet, maior circulação de dinheiro, melhorias tecnológicas em geral encurtaram caminhos entre nós e as corporações internacionais (ou, como gostam de dizer, multinacionais. Não concordo com o termo: somente o dinheiro é multi; a ideologia é bem localizada). Com a circulação das imagens e dos símbolos a elas associados, valores locais perdem força e dão lugar aos valores centrais – os valores com poder de troca, valores recheados de poder. Itens e idéias dificilmente alcançáveis pela maior parte dos seres humanos. Estes perseguem essas imagens e bens com a consciência de que jamais serão felizes sem os possuir. E na perseguição da própria cauda, se frustram, se mutilam, lamentam, sofrem e fazem sofrer.

Os maridos árabes que eperam uma Haifa de cada esposa, as Haifas, as Nancys, as Randas, as Dinas, as Saidas, as Soraias, as Karinas Bacchi, as Pamelas Anderson, os Robertos Justus, os Hughs Hefner, todos participam do círculo agonístico do estranhíssimo padrão de beleza internacional. O padrão derivado de petróleo e toxinas em geral e que promete sucesso, admiração e, o mais importante, na sociedade da carência, aceitação.

As variáveis culturais estão ficando mais frouxas. É possível encontrar um tipo físico, um figurino e uma forma de comunicação “internacional” plasmados em uma cairota, uma carioca, uma brasiliense ou uma portenha. Os corpos estão mais parecidos na base da pressão: “você tem que ser magra. Você tem que malhar. Você tem que alisar esse pixaim! Você tem que “arrumar” esse nariz! Você tem que aumentar seus seios. Você tem que usar esse sapato. Você tem que comprar essa bolsa. Você tem que falar inglês. Você tem que perder esse sotaque. Você tem que ser mais sensual. E sensualidade é isso aqui, ó. Entendeu? Ah, você dança a dança do ventre? Não é suficiente: tem que fazer esses passos aqui, ó. Não pode ter barriguinha. Tem que dançar desse jeitinho aqui. Afinal, a dança do ventre é internacional. Pra que ver as egípcias? Elas não dançam tão bem quanto as americanas. Essas sim, sabem o que é bom para a mulher de sucesso.”

É dificílimo e doloroso escapar dessa espiral. Mas dá, sim, para ir pelas beiradas. Ir desconstruindo devagar. Pode começar compreendendo o que é feminismo. Lendo um pouco de cada vez. Entendendo que o corpo feminino sempre foi entendido como território masculino e que as políticas de dominação de nossos corpos estão em todo lugar. Compeendendo como se constróem os estereótipos femininos e como a beleza é também uma construção. Pode ir construindo o entendimento de que a mulher tem o direito à gerência de seu próprio corpo. Pode treinar o olhar para ver a perversidade das propagandas dirigidas à mulher.

Pode, enfim, tentar dançar do seu jeito, sem medo do seu corpo.

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9 comentários sobre “Transformações 2

  1. Oi Roberta,

    Mais um post bem escrito e ponderado. Outro dia estava refletindo sobre isso no meu blog apesar de que lá o ângulo era sobre essa homogenização da moda, da comida, etc… Viajando pela Europa, fiquei triste em ver que uma rua comercial de Paris, hoje, é igualzinha a uma rua comercial em Barcelona… aqui na America do Norte é ainda pior claro… Como eu nunca quiz ser igual a todo mundo, isso me incomoda e muito.

    Quanto a beleza especificamente, a Denise, do Sindrome de Estocolmo, escreveu um post legal outro dia sobre isso. No caso dela, ela já tinha escrito uns posts sobre campanhas de produtos de beleza na India que reinforçam a noção de que o sucesso está atrelado a cor da pele – quanto mais branca, melhor. Dá uma olhada:
    http://sindromedeestocolmo.com/archives/2008/08/embranqueceram_beyonce.html/

    Outro dia entrei numa discussão feia com o meu irmão que parece ser contra qualquer forma de relativismo… Ele acha que o relativismo faz com que abandonemos valores que deveriam ser absolutos, que busquemos desculpas para o que não pode ser desculpado… Mas a coisa não é bem assim, né?

    Queria ter estudado mais antropologia… sigh…

    Bjos

    Misty,
    deve ser cansativo debater com seu irmão. Porque é difícil aceitar que algumas pessoas compram de fato o modelão do capital.
    Gosto muito do blog da Denise e já tinha visto essa loucura do branqueamento antes. Mandei os comerciais para meu então orientador, que os utilizou em um artigo e em palestras. Tristíssimo. Quando comecei a escrever este texto, pensava em também falar da massificação dos hábitos alimentares, da estética em geral (incluindo urbanismo e decoração), do entretenimento. Mas o post ia ficar grande demais e muita gente já escreveu sobre isso. Slavoj Zizek, Stuart Hall e Fredrik Jameson tocam esse tema. É bom ler sempre para nos mantermos alertas.
    Um link interessante que gostaria de sugerir é o ensaio fotográfica sobre alimentação mundial na Time:

    http://www.time.com/time/photogallery/0,29307,1626519,00.html
    Uma viagem.
    Beijo!

  2. Ow, mas que bizarro! Essas moças são irreconhecíveis!!!

    Me dei conta da existência desse padrão estético na dança do ventre quando vi pela primeira vez um vídeo da Soraia no Egito. Ela sempre linda, linda, mas parece que pra ser “aceita” lá teve de entrar na faca e mudar muita coisa para o padrão “egípcio”. Me chocou muito.

    Seu post me fez lembrar um comercial com um dos conceitos mais interessantes (e ao mesmo tempo paradoxal!) que já vi sobre esse assunto: http://www.youtube.com/watch?v=VSufIPIEF4M
    Lembra dele?

    Beijos!

  3. Olha, eu leio pouco perto de você. Aliás, por mais que eu lesse, seria muito pouco perto de você, então nem tento. ^^
    Mas eu instauro pequenas revoluções.
    O fato de eu dançar e ter dançado com o meu corpo além de qualquer padrão é uma coisa um bocado revolucionária, embora eu me esqueça disso.
    O jeito como eu me relaciono com o meu corpo e com o corpo de outras pessoas também é. Assim como a maneira que eu sempre assumi minha sexualidade. Assim, como uma gorda que tem o direito a uma.
    Às vezes me esqueço disso, para mim é só meu jeito de ser. Mas fico feliz de você para me lembrar.

  4. Cara, muito bom esse texto! Quantas vezes pensei em abandonar a dança pq não conseguia me adequar ao padrão de dança que eu via? Eu me achava desajeitada e estranha. Aos poucos, percebi que há beleza em mim. E minha beleza é singular. Não se assemelha à beleza do padrão. Mas é difícil ter que me lembrar sempre disso para seguir adiante. E, por conta disso, fiz uma opção de dançar por prazer pq, para ganhar dinheiro com isso, vc tem que investir em uma mudança de padrão corporal e de dança, ou então, ficar provando ao mundo que pode, que pode, que pode. Eu posso, mas não quero provar. Quero simplesmente, viver feliz com isso. Parabéns pelo texto!

  5. Roberbel,

    Para preservar o relacionamento, acabei tendo que parar de ler o blog do meu irmão.

    A massificação dos hábitos alimentares é um assunto que me interessa muito. Não só pq eu sou fascinada por comida (eu já mostrava tendências quando morávamos no pensionato, lembra?) mas também pela história, geografia e cultura por detrás de hábitos familiares. Logo que me mudei pro Canada, fiz um curso de francês oferecido para imigrantes. Eram 5 horas de aula por dia, com um intervalo para o almoço no qual nos reuníamos na cozinha da escola para esquentar nossas marmitas e almoçar juntos. Eu ficava fascinada com as comidas que todos traziam de casa e ver o que chineses, coreanos, iranianos, peruanos, colombianos, russos, etc, comiam no dia-a-dia. Nós compartilhávamos nossos almoços e a experiência abriu ainda mais minha cabeça para a diversidade humana.
    Mas aos poucos, o imperialismo cultural/globalização tem se feito sentir pelo mundo inteiro. Quando eu morava em Barcelona havia uma campanha para re-estabelecer a supremacia da dieta mediterrânea, considerada uma das mais saudáveis do mundo, e que tinha sido meio abandonada pelos cidadãos locais em favor da dieta americana. Virou caso de saúde pública já que doenças que antes eram quase inexistentes estavam se tornando comuns.

    Muito legal a reportagem da Time. Esse mês eu comprei a revista Saveur pois tinha uma matéria sobre cafés-da-manhã ao redor do mundo:
    http://www.saveur.com/food_new_recipes.jsp?toc=1

    Bjos

  6. Lory, concordo plenamente com você. Também não quero nem preciso provar nada a ninguém. Sejamos felizes, não é mesmo?
    Rô, seu texto veio em ótima hora. É isso mesmo!

  7. Gostei muito do blog, quem me indicou foi uma amiga.
    Adorei o post. Estou cansada, sabe… desse negócio de nós mulheres sermos incitadas a odiarmos nossos corpos, nossos cabelos, nosso jeito de ser, enfim… Mas também já passou da hora de resistirmos a tudo isso e como você mesma escreveu, podemos começar mesmo que pelas beiradas… pois se não o fizermos, estaremos contribuindo para a extinção da diversidade, da multiplicidade feminina, o que temos de mais rico e bonito… nossas diferenças.
    Tá aí, gostei…

    Um beijão

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