Ainda sobre o popular

Continuando o post sobre shaabi, aproveito a dúvida da Sandra nos comentários para abordar o shaabi atual.

Então, Sandra, Saaban abdel Rahin é um dos representantes do shaabi contemporâneo, e dos mais polêmicos.

Coloco aqui um trechinho do excelente documentário “Why the Arabs Hate the West” (mais info sobre o documentário aqui). Shaaban Abdel Rahin é entrevistado sobre o conteúdo político de suas músicas. Neste trecho, podemos também observar cenas cotidianas do subúrbio do Cairo, o local onde o shaabi surge e é majoritariamente consumido.

(Por sinal, fiz as legendas para esse documentário, com ajuda da Laila. Se alguém tiver baixado e quiser as legendas, posso enviar.)

Como havia sinalizado no post anterior, o shaabi surge então nos anos 70. O marco dessa nova música é a gravação, em 1971, do primeiro single de Ahmed Adawweya, até hoje considerado o maior representante desse estilo.

Aqui, Adawweya com Fifi:

Adawweya introduziu sons mecânicos, resultado também da abertura política egípcia. Nos anos 1970, a Rua Mohammed Ali vivia seus últimos momentos de energia criativa com essa nova tendência.

Mas voltando ao conteúdo das letras do shaabi, podemos ver no documentário que há temas não exatamente adequados para uma apresentação de dança. Como havia exposto anteriormente, fala-se do cotidiano e do sentimento baladi. Como toda população subalternizada, oprimida e pauperizada, os sentimentos expressos não são apenas recordações do passado pré-urbano; as preocupações com soberania nacional, guerras e invasões estão presentes nas letras. Não dá para dançar dança do ventre com a letra que grita “bush-assassino-saia-já-do-Iraque”; ou “judeus-ocupantes-matam-os-palestinos”. Né? Né?

Comé que faz? Bom, aí é bom dar uma buscada em sites de traduções ou contar com amigos que entendam árabe. Não tenho muito como apontar outra saída.

A interpretação da letra nesse estilo musical é muito importante; é uma dança icônica: ela está a todo momento transmitindo a intenção do autor. As dançarinas brincam, gesticulam, fazem expressões faciais, ou sejam, interpretam, literalmente, a letra.

Com a gente, cá, fica meio complicado fazer as caras e bocas que fazem as dançarinas egípcias. Primeiro porque a gente não costuma entender direito o árabe (a maior parte de nós não entende nada); segundo, porque não basta traduzir ao pé da letra: há metáforas, dizeres e expressões que apenas são compreendidas em contexto. Como na música que escolhi para passar alguns movimentos no workshop. Fala do casamento do galo com a pata e do bafafá que foi. Minha professora de árabe me explicou o sentido, mas ela disse que há coisas que não dá para traduzir, porque tem a ver com pequenos elementos da cultura baladi.

E terceiro, porque a platéia, em geral, não vai entender nada.

E aí o dilema: como dançar isso se a gente deixa escapar a maior parte dos elementos da dança?

Volto para continuar o post ainda hoje – espero. Há muito a dizer sobre a música popular egípcia.

8 comentários sobre “Ainda sobre o popular

  1. Robertchildes, mai díar! De vez em quando eu dou uns pulinhos porraqui pra ver a quantas anda seu blog. Minina, teu texto anda se aprimorando bastante! Très, très bien, madame! Gosto de ler assuncê, visse? E, enfim, quando eu estiver por aí, ou quando abrir uma janela no meio do seu não-tempo, falar-nos-emos sobre o seu projeto e etcétera. Besos! Helenildes!

  2. Oi Rô,
    Mais uma vez agradeço sua contribuição pelas informações esclarecedoras. Foi muito legal ver o trecho da entrevista c/ o Shaban, ouvir a música de fundo, q/ é uma das q/ eu gosto de escutar, e entender mais ou menos do que trata (rs). Realmente, a interpretação da letra é essencial e aí vc tem razão qto ao dilema p/ quem dança do lado de cá e tentar expressar o sentido da música. Procurando mais informações sobre o gênero encontrei um site da bailarina Loretta Ruffini (www.nonsolodanza.org) c/ indicações de outros representantes e até de um CD:

    “(…) Vocalists di cui la musica è rappresentante dello stile di shaabi include EL Asmar, Magdy Talaat, Sami Ali & Sahar Hamdy, Shaaban Abdel Raheem e Magdy Shabeeni. Un CD che contiene gli esempi eccellenti di musica di shaabi è Yalla Hitlist Egitto”.

    Vi tb num site sobre Hassan el Asmar, referências de que Adawweya exerceu influência sobre o seu estilo. Encontrei ainda, referências à Saad, Gawaher, Sherine e Hakin. Inclusive, baixei algumas amostras do CD “Prince of Shaabi”, de Saad, onde tem uma música q/ é muito tocada em wokshops de DV.

    Rô, fiquei interessada em ter acesso às legendas da entrevista q/ vc traduziu. Você poderia enviar-me? Desde já agradeço.
    abraços,
    Sandra

    Legenda enviada!

  3. Estou acompanhando curiosa e interessada. Não sabia das diferenças [tanta coisa pra aprender…] e agora estou ávida para saber o que puder.

    Eu tbm tenho dúvidas nessa questão de interpretar ou não as músicas cantadas, baseada na letra. Como eu sou uma curiosa danada sempre procuro as letras das músicas que gosto e já levei sustos enormes. Ás vezes acontecia de eu dançar a música feliz da vida e de repente descobrir que a letra era triste de dar dó. E aí fica a dúvida: levar isso em conta ou não, em um lugar como nosso em que raramente alguém liga -ou entende- disso?

    bjos!

  4. Seus posts estao cada vez mais embasados. Acho lindo esse constante “algo mais” a cada vez que vc se propoe a escrever. A impressao que fica eh a de que vc nunca se cansa de pesquisar. Como disse minha esposa, falta agora uma temporadazinha no Egito.
    E sabe que a duvida que vc coloca no ultimo paragrafo desconstroi a DV nao-egipcia no meu conceito. La elas interpretam a letra e a musica. Nao so a musica.
    E o mesmo que dancar Axe sem compreender portugues.
    Ainda sobre o “em um lugar em que…” a Cida fez um workshop na casa de Haqia Hassan enquanto estavamos por aquelas bandas. Mas sempre digo p/ ela que fui eu quem aproveitou, ja que a Haqia estava com o pe quebrado e ficou o tempo todo na sala conversando comigo enquanto o trabalho rolava no estudio.
    Me interessou a opiniao dela sobre sua experiencia com as brasileiras. Segundo ela as bailarinas brasileira costumam “se achar”. Se consideram prontas muito cedo. Principalmente aquelas amparadas por alguns muitos anos de “experiencia”.
    Compreendi e comparei com uma experiencia minha aqui em Dublin. Uma escola de samba cujos integrantes acumulam alguns anos de pratica e tecnica. Simplesmente falta algo no resultado deste trabalho. Vc ve a europeia sambando e pensa: esta tudo la, ela esta sambando, mas nao eh a mesma coisa. Falta algo. NAO EH SAMBA. Mas ainda assim o eh.
    Qual seria a solucao?? Vir para o Brasil, aprender portugues, estudar e voltar tocando e dancando como brasileiro??? Bom… p/ publico deles, que nao eh brasileiro, isso nao faria diferenca alguma.
    Acho que escrevi demais.
    Bjao!!!!

  5. Muito boa esta segunda parte que será igualmente surrupiada (e creditada). Há uns anos fui buscar a tradução de uma música que fazia sucesso no Egito, talvez cantada por este Abdel Rahin, não tenho certeza. Mas a letra dizia justamente isso – eu odeio os judeus. Aquilo me fez tremer. Existe um livro chamado OCIDENTALISMO que tenta explicar todo este processo de ódio ao Ocidente, mas confesso que achei o livro tendencioso, embora seja um boa idéia de pesquisa.
    Sobre a dança, desde o primeiro ano de aula eu fugia das músicas cantadas, inexplicavelmente! Era justamente o estilo mais amado pelas outras alunas- o pop cantado – por ser mais fácil de ouvir. Só que me dava nos nervos a sensação de dançar algo que eu não podia compreender. Meu pavor aumentou ainda mais quando uma professora me contou a gafe que passou após dançar em um restaurante – um falante de árabe a procurou depois do show: “você entende árabe?” e diante da negativa, a pessoa complementou: “pois é, uma música tão triste, falando da desgraça do povo e você ali rindo…” Nem preciso dizer que ela ficou sem cara.
    Para Roberto Jeangros – achei interessante o seu comentário e o seu poder de observação. Eu também tenho esta sensação com a maioria das dançarinas do Ocidente… geralmente esbanjam técnica, mas cadê a emoção, cadê a entrega, a espontaneidade? E realmente eu sempre digo – bailarina brasileira precisa de humildade. Porque eu me choco eu ouvir comentários do tipo – as turcas dançam mal, as libanesas dançam mal, as gregas são horrorosas. Quem dança bem, então? Só elas próprias. A dança do ventre para algumas é dança do próprio umbigo. E não pense que isso é um comportamento isolado. É um tipo de postura que virou praticamente consenso. A Haqia tem toda razão porque para qualquer arte é preciso humildade e generosidade. Tudo isso às vezes falta…. abços p/ todos.

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