O popular

“Popular” remete a tanta coisa que o sentido se borra, querendo ou não. Quando temos em mente nossa própria cultura, já é um redemoinho acrescer a idéia de “popular”; pensar o popular de uma cultura estrangeira beira a esquizofrenia.

Mas, desenraizada que sou, Já pensava essa questão antes, com o amparo de alguns autores. Daí na semana passada dei uma aula sobre as diferenças entre baladi e shaabi. Eu realmente precisava começar a pensar a dança do ventre “popular” na prática. Precisava sistematizar o pensamento e, para mim, a estratégia mais eficiente para sistematizar uma reflexão é no diálogo. Montei o curso, li, me organizei e acho que fui muito bem, obrigada. Tive também um pequeno público altamente interessado, o que facilitou em muito o processo.

Baladi e shaabi são palavras-irmãs, mas ao mesmo tempo bastante singulares entre si. Balad é a terra natal, o país, o espaço de pertença étnica, nação (o sufixo i é o possessivo da primeira pessoa do singular: baladi = minha terra). Shaabi (aqui o i não é sufixo, mas parte da palavra) quer dizer, literalmente, popular, do povo, das massas, da geral. Léxico relativamente explicado, começa o nó. Como essa diferença se traduz na dança?

Como expliquei na oficina, a compreensão da diferença – que leva à compreensão do espírito da dança – começa no entendimento da história socio-economica egípcia recente. Resumindinho aqui, é mais ou menos o seguinte (mega-resumo-de-um-parágrafo-só): Nos últimos tempos da colonização, o Egito já não agüentava mais e a resistência, que já se organizara há anos, por fim, em 1952, negocia o poder e Nasser ascende como presidente; o governo de Nasser subsidia a cultura (na verdade, parte da cultura egípcia que era útil para a imagem de nação que interessava ao seu governo socialista, daí Mahmoud Reda – e a história é muito comprida, podemos falar mais disso depois); o Egito se lasca na guerra de 67, Nasser morre e Sadat se torna o novo presidente com uma política de abertura econômica (infitah). Industrialização desequilibrada e pauperização da área rural levam à migração da área rural para a urbana. Ou seja, os camponeses vão para o Cairo.

Beleza?

Pois esse é o contexto do que passo a expor sobre o campo musical. A área rural egípcia, até recentemente, organizava-se em grupos relativamente isolados. Cada grupo contava com sua liderança local (estou falando no passado porque de fato não tenho certeza sobre como os grupos rurais se organizam atualmente). A tradição musical saidi (a faixa mais ao sul do território egípcio) é chamada ashrah baladi. Nessa tradição, o personagem masculino mais importante da comunidade dançava com bastão mostrando agilidade e shahama (nobreza baladi). Parte importante dessa rotina musical era o mawwal, o improviso vocal baladi.

Com a mobilidade dessa população, a tradição do mawwal se encontra, nos anos 1960, com as práticas musicais cairotas. Instrumentos diferentes são incorporados (os saidi não usavam derbake nem daff; os cairotas não usavam tabl nem mizmar, por exemplo), e sonoridades ocidentais são incorporadas (acordeón, sax, trumpete). Emerge um novo estilo, que o antropólogo francês Nicolas Puig chama de Neo-Mawwal e que passaremos a chamar, simplesmente, shaabi.

Esse novo estilo, que se firmou nos anos 1970, com o advento de um suporte de mídia massificador – a fita cassete -, refletia as mudanças sociais egípcias: as letras das músicas mawwal (baladi ou saidi) falavam de amor romântico; as shaabi eram mais explícitas; o tema do mawwal era a amizade, o modo de vida baladi; no shaabi, fala-se de amizade e do modo baladi de viver, mas contando com modulações de linguagem como sarcasmo, metáfora, ironia; o mawwal é usualmente cantado em árabe dialetal; o shaabi utiliza a linguagem do dia-a-dia, com muita gíria. O mawwal é um canto improvisado, como um repente; o shaabi é pop, rimado e métrico.

Ou seja, o shaabi é uma música de protesto, ainda que a maior parte das letras pareça falar de futilidades. É um elogio ao jeito “popular” de ser egípcio. E popular aqui – vamos dar a real – quer dizer periferia.

Daí vem aquela crise: e a dança do ventre feita no ocidente? O que tem de “popular” nela?

(a continuar. deu sono. em você também? que bom que não.)

14 comentários sobre “O popular

  1. noooooosssssaaaa!!
    É por isso que eu sou fã dessa mulher há anossss!!! Acompanho o blog, as comunidades do orkut e todo e qualquer lugar onde a Roberta mete o bedelho. Garantia de um show de informações!!! Obrigada, Roberta, continue,

  2. ADOOOOOOOOOOOOOORO!!! SOU APAIXONADA POR UM LIVRO EM VERBETES QUE FACILITA BEM TODO O ENTEDIMENTO: EGITO, UM OLHAR AMOROSO.
    Confesso que se não estivesse tão apertadinha de $ ia lá no ayuny fazer todos os cursos de férias.Não tinha idéia do que fosse Shaabi e estava super curiosa! Adorei de verdade.Valeu Roberta.
    Beijos.

  3. já te contei, fui egípcia em outra vida. se bobear, minha tribo acabou migrando pro cairo um tempo depois…vai saber, é por isso que eu acho o lance popular/periferia/caipira tuuudo de bom
    shaabi, funk, dupla sertaneja
    por que pra brasileira o popular urbano é tão duro de engolir?
    aposto que se for a próxima novela da globo todo mundo vai adorar!

    “É som de preto, de favelado
    Mas quando eu canto
    Ninguém fica parado!”

  4. Roberta, tenho o maior prazer de ler seus posts por causa das valiosas informações q/ nos fornece. Esse sobre o Popular, então, tá fantástico e veio a cair como uma luva p/ minha curiosidade sobre o Shaabi. Gosto de músicas árabes e tenho um CD baixado da net do cantor Shaban Abdelraeem (estava grafado assim)gravado ao vivo e gostei de imediato do ritmo. Depois, encontrei no you tube um show dele c/ a Fifi e Lucy dançando. Minha dúvida é saber se esse tipo de música é shaabi, pois é bem alegre, c/ acordeon, trompete e me parece bem popular. Ahhhhhhhh… Se pudesse, juro q/ teria participado de sua oficina p/ esclarecer mais minhas dúvidas. Você poderia indicar-me o título de alguma música ou cd sobre shaabi? Se puder, desde já agradeço. Um abraço,
    Sandra

  5. Babei, amiga . . .
    hmmmmm
    (Dá pra entender a tentação)
    Parabéns pelo trabalho cada vez mais consistente.
    Tá contribuindo demais pra pesquisa da dança no Brasil. E as pessoas ainda vão saber disso “timtim por timtim”.
    Abraço carinhoso

  6. maravilhoso meus parabens ate que enfim um post que nao se basei em achismos, eu teria algumas coisa e comentar e acrescentar mas assim ja esta muito bom

  7. Oi Roberta!Quanto tempo hein!!!? Ressurgi das trevas belly dance!Sou a Angela, do parafernalhas bizarrescas, lembra? Estava aqui rachando minha cuca para tentar entender a diferença entre o Shaabi e o Baladi e seu texto me deu uma luzinha…rsrsrsrs. Mas vamos lá, deixa ver se entendi: a música baladi e shaabi tem diferenças, mas e a dança? Também tem diferença? Pois o baladi é dançado daquele jeito raizão total, pé no chão, quadrilzão, sem arabesques e giros ‘pirotécnicos’…

  8. Procurei no youtube pra ver se identificava a diferença, mas tem tanta coisa misturada que já não sei o que é o que, danças modernas com legenda de shaabi, dança qualquer coisa com título de Baladi e assim por diante…E agora estou aqui com a cuca super rachada…😦

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