Escritura e responsabilidade

Sinto-me muito culpada, várias vezes, por não escrever aqui tão freqüentemente quanto eu gostaria. Acho frustrante entrar em um blog e encontrar sempre o mesmo post me esperando; o bom do blog é seu dinamismo e tals. Mas não dá. Porque estou fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo. Olha só:

1) dou aula todos os dias. E por menos que eu planeje as aulas como eu gostaria, ao menos uma mínima seleção musical tenho que fazer antes da aula, para escolher os movimentos e temas que serão oferecidos para as alunas.

2) sou proprietária de um estúdio de dança. Ser dona não é só passar para recolher cheques. Implica cuidar dos empregados, da organização do estúdio, de problemas com professoras, da propaganda. Implica ligar pessoalmente para resolver casos específios, atualizar o mailing, criar formas originais para atrair alunas, organizar espetáculo, pensar em eventos para o final do ano e para o próximo ano. Implica preocupar-se com capital.

3) sou boêmia e insone. Ou seja, perco as manhãs recuperando o corpo da festa ou da ausência do sono. Ou seja, meu dia é mais curto. A não ser por algum compromisso sério, não estou acordada antes das 10. O resto do dia me consome, pois tenho que ir atrás do prejuízo.

4) faço um doutorado. Não é moleza. Preciso escrever bastante, ler bastante, pesquisar bastante e ainda ter longas reuniões com orientador. Ainda há alguns compromissos fixos com a universidade, apesar de ter condensado as disciplinas no primeiro ano. Outra conseqüência rouba-tempo do doutorado são os longos períodos de angústia aguda por não conseguir fechar meu projeto. Passo, às vezes, horas na frente do computador e a tela branca do word apenas lamentando e apertando os dedos.

5) não tenho empregada. Vem uma faxineira uma vez por semana e ela não arruma meus armários. Eu e Marido nos dividimos no cuidado de onze gatos em um apartamento. Lavamos nossa própria louça, fazemos nossa comida, limpamos a casa. Eu e Marido não somos pessoas bem organizadas. Ele é músico, e eu, pesquisadora. Duas profissões historicamente caóticas. Muito papel, revista, jornal, livro, discos, partituras, xícaras espalhados por todos os cômodos. Claro, a casa fica desorganizada as hell, mas ainda assim há um tempo a ser dedicado à maquiagem do caos.

6) Acima de tudo, prezo muito meu ócio. Passo longo tempo apenas ouvindo música, lendo blogs inúteis ou jogando joguinhos bobos no computador. Meus preferidos são os de “escape the room”.

E o negócio é que realmente tenho muito a dizer aqui, mas não consigo chegar e escrever de qualquer jeito. Porque se eu for colocar aqui minha opinião crua das coisas, as leitoras vão fugir, me achando uma louca. Tenho que pensar em exemplos, em ilustrações, metáforas, além, claro, na relevância do texto. Se deixasse, escreveria aqui um monte de bobagens e críticas sem fundamentação, o que não combina comigo. O texto de internet tem uma disseminação muito grande para ser feito sem responsabilidade. Eu poderia chegar aqui e dizer que não gosto da bailarina tal ou que tal jeito de dançar é ruim e que o meio da dança do ventre é uma merde blablabla. Só que as coisas não são bem assim e aprendi isso ao longo dos quatro anos de escrita contínua nesse blog. Se forem vasculhar o blog véio, verão o quanto minha opinião foi sendo lapidada. Porque entendo que as pessoas se magoam e que não há conclusões definitivas na dança do ventre. Daí o medo de escrever qualquer coisinha.

Tenho leitoras fiéis, que me acompanham a longos anos e que entendem o que quero dizer com tudo isso. Por isso, sorry folks, vamos continuar tendo a média de três textos por mês por aqui. Ou não.

(a o trema caiu, eu sei; mas gosto dela dele)

(Na boa; sei que isso aqui é só um blog. Mas é meu nome que tá lá em baixo. Daí que não dá para escrever qualquer coisa sem noção meeesmo.)

9 comentários sobre “Escritura e responsabilidade

  1. O trema caiu pelo novo acordo ortográfico, que ainda não entrou em vigor, mas os livros didáticos que sairão em 2010 já estão todos feitos segundo as mudanças do acordo. Escreva com a frequência que der, Roberta, contanto que continue escrevendo esses ótimos posts! Obrigada e bjs.

    Brigada, Vera. Vou usar sempre. Se bobear, ainda coloco o chapéuzinho no “e” de pêlo.
    ^_^

  2. massa, roberta. virei sua fãnzoca e virei te visitar, tá? beijinx

    Diiiga, Fabi! Também virei sua fã. Vamos tomar mais cervejinhas, só que de ônibus, pra isolar a paranóia.

  3. 🙂
    quando a escrita é boa e a pessoa uma profissional como você, eu não me importo de esperar. E como pessoa que já leu esse blog de trás pra frente =p, eu bem entendo essa tua correria.

    Aliás, quando começei na dança, há dois anos encontrei teu blog. Ele me acompanhou e tuas palavras me ajudaram muito ao longo da evolução. vc faz parte do meu caminho sabia? haha vero, vero.
    Fico feliz ^^

    bjão.

    Fico feliz também! Messs. ^_^

  4. Roberta, minha experiência no mundo das letras me fez perceber que é melhor escrever pouco, mas com qualidade, do que escrever muito sobre assuntos sem a menor relevância. Grandes autores são extremamente exigentes, a maioria escreve pouco e aqueles que escrevem muito, costumam entupir a lixeira do escritório com os rascunhos que nunca sairão do limbo. Atualmente eu faço parte do conselho editorial de uma revista acadêmica. Outro dia em uma reunião o pessoal reclamou assim – as pessoas hoje escrevem tão pouco… daí eu falei – eu acho isso ótimo porque já tem muita coisa boa escrita! É melhor que os autores pensem cada vez mais antes de publicar, senão fica um bando de papel sendo desperdiçado com coisas que ninguém irá sequer passar os olhos. No caso da dança do ventre em especial, o que vejo mesmo é muita afirmação sendo passada adiante sem nenhuma pesquisa séria em torno daquilo. Haja achismo! 3 textos por mês estão de bom tamanho. Aliás com esta sua vida eu não aguentaria publicar sequer um! E melhor assim do que escrever todos os dias sobre devaneios que só acrescentariam à vida das suas alunas. O artista não pode se preocupar só com a vidinha, tem que se preocupar sobretudo com a Vida. Um abraço e tudo de bom.

    Ai, gatona, obrigada meeesmo por esse post. Porque ando na fase de auto-flagelação por não conseguir terminar compromissos acadêmicos. É bão ouvir de gente de dentro das publicações que não tá fácil pra geral. E eu me desanimo também com a política editorial de grande parte dos periódicos da minha área: publicam professores (que não deveriam precisar desses meios) e ficamos com pouquíssimas publicações que topam pós-graduandos.

  5. Bom, eu não posso falar muito sobre escrever pouco porque tô adorando escrever o blog, viciei mesmo, e não tenho a responsabilidade necessária de diminuir o ritmo e focar na tese de doutorado. Ainda acho que dá pra fazer as duas (e muitas mais) coisas. Só que, francamente, não sei se dá. Na época do Lost Art, eu escrevi uma crítica por semana. Às vezes duas. E poderia ter começado um blog assim, com dois posts por semana. Mas o legal é poder falar sobre tudo que me interessa, e interagir com os leitores(as). Por isso vicia. Meu blog é novinho, tem só meio ano, e não acredito que vou poder continuar com esse ritmo de dois posts por dia por muito tempo. Algum dia vai faltar assunto, vou ficar repetitiva, não é possível! Mas, enquanto der, eu vou levando. Eu, pessoalmente, como leitora de outros blogs, prefiro entrar e encontrar um post novo a entrar, ver montes de posts, e reclamar de falta de tempo pra ler tudo. A segunda alternativa raramente acontece, mas, quando acontece, eu, como leitora, decido o que quero ler. É uma responsabilidade totalmente diferente da de quem escreve. Mas, apesar de tantos blogs existentes, a maior parte tem seu estilo próprio. E esse estilo inclui o próprio ritmo do blogueiro(a) também. Abração!
    http://www.escrevalolaescreva.blogspot.com

    Lola, gosto demaaais da conta mesmo do seu blog. Vou lá todos os dias, se possível. E sempre me impressiono com a fluidez dos seus dedos. Nu! Quanta agilidade. E o lance é que você escreve bem meeeesmo e sobre temas sérios, grande parte das vezes (como a inacreditável capa da New Yorker). O lance é que morro de preguiça, acho. E sinto culpa. Porque escrever não é tão fácil. Claro, a escrita do blog não é pavorosa, mas pensar em ficar na frente do computador medindo palavras é coisa para trabalhim de escola, entende? Fico hooooras tentando organizar um artigo. Enfim. Dá pra conciliar, claro. Só que dou aula todos os dias da semana e blá. Quando chego em casa, quero ouvir música, beber vinho, ver seriado americano… hum… Um bando de desculpas esfarrapadas. Desisto.

  6. ô mana fica fria!Eu sempre venho aqui e não me importo que esteja o mesmo texto, porque sei que quando tiver um texto novo, vai ser arrasante…O meu blog anda largado, mas é que tô numa fase de mudanças, mas não quero abandoná-lo!Jamais!rs.

    Beijo.

    Idem-lhes. Escrevo quando dá na telha, mas escrevo. Mas é que rola aquela culpa… uma merde.

  7. Ok, Roberta, me desculpa pelo comentário no post anterior. É minha maldita mania de achar que o que nos propomos a fazer devemos fazer com excelência, caso contrário é melhor nem começar. Mas ninguém é obrigado a pensar como eu. E tome mais cuidado ao ser áspera, mesmo que sutilmente, porque é a sua imgem que está em jogo.

    De novo, do que você está falando, moça? Fui áspera contigo? Quando? Onde? Quem é você? Que canseira…

  8. Concordo com a Ângela, não importa quanto tempo esse blog fique aqui empoeirado… rs, quando surgir algo novo vai ser sempre ótimo por mais que você tenha que “medir” as suas palavras… quem te acompanha há algum tempinho que seja, vai entender!
    Beijão, flor!

    Obrigada, lindona.
    ^_^

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