Dina, dinovo!

Eu tinha ficado de responder por aqui aos post da Luana sobre a Dina. Propus isso porque, puxa, há tanto a dizer; não cabe na caixinha de comentários. E um bate-bola é sempre saudável. Demorei um monte porque ando bem ocupada, mas finalmente eis minha réplica.

A Luanna escreveu um post expondo as razões de seu desgosto pela Dina. Ponto por ponto, vou expor minha opinião:

1. Critérios. Sim, o meio é pobre em desenvolvimento de critérios; Mas não é absolutamente carente deles. Há gente refletindo sobre a dança do ventre, e esse contingente vem crescendo. E várias praticantes reflexivas gostam da Dina, o que me leva a questionar se gostar ou não da bailarina implica melhor ou pior critério.

2. Eurocentrismo: A Luanna cita Antônio Marquez, Ana Botafogo, Michael Flatley, Debora Colker, Carlinhos de Jesus, Mahmoud Reda, Farida Fahmy e Ivaldo Bertazzo como personalidades que, contrariamente à Dina, têm “trabalho significativo na dança”. O problema aí está na contextualização. Desses vários bons exemplos dentro da dança (entre bailarinos e coreógrafos), apenas dois são egípcios, e absolutamente todos receberam treinamento formal em balé. Se nos lembrarmos que a dança do ventre não é uma especialização da tradição coreográfica européia, fica fácil identificar uma incoerência nos interesses. E, como bem me lembra a amiga Samara, a dança do ventre pode não ser apenas egípcia, mas jamais será européia.

3. Postura corporal: Também a postura corporal em uma dança é uma variável da cultura. A postura corporal do balé tampouco é natural. É tensa e rígida, requerindo um esforço corporal que dá sentido ao repertório coreográfico. Na dança do ventre, ao invés, trata-se de manter a musculatura em absoluto relaxamento, até para prepará-la para eventuais contrações. Parece-me uma estranha contradição exigir uma postura severa para uma dança famosa por sua languidez.

4. O vídeo escolhido para ilustrar o argumento da incapacidade de dança da Dina não mostra muita coisa. É fácil identificar que a música dançada não é a trilha sonora do vídeo. Ela está dançando a coreografia para “el helwa bil barah”.

5. Fazer as mesmas coisas, no mesmo momento, com as mesmas músicas chama-se dançar uma coreografia. Sabemos que as bailarinas egípcias encomendam coreografias. Há um grande mercado de coreógrafos, os mais famosos deles chamados Ibrahin Akef e Mahmoud Reda. As bailarinas preparam shows e os apresentam por um bom tempo. Depois, mudam o repertório. Tipo a Madonna.

6. Sobre a completa inutilidade da Dina: não consigo imaginar como os intrincados movimentos de quadril e de abdômen da Dina sejam inúteis ou imperceptíveis. Numa era de fusões extremas, em que talvez o exemplo mais bem-aceito seja a Saida, os movimento sutis acabam parecendo pouco. A política e a cultura do excesso que inunda nosso cotidiano (sons, cores, luzes, muita música, muita propaganda, tudo rápido, exarcebação da imagem, do vídeo, do corpo, do movimento, das próteses) também inunda nossa dança. Um quadril sutil e o reconhecimento de momentos-chave na música passam despercebidos na voracidade do consumo.

7. Do mesmo modo, fico assustada em ver moças que acham que a Dina “tá velha demais” para fazer isso ou aquilo. Cadê o feminismo dessa gente? Quem determina que alguém é muito jovem ou muito velha? Se é para adentrarmos na matriz européia, que dizer de Pina Bausch, com seus 68 anos?

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19 comentários sobre “Dina, dinovo!

  1. Ai Roberta, desculpa aí meu “çaiber mobral” é que eu digito rápido e digito errado.Tenho fé que um dia sai um comentário sem erro de digitação.Afff
    Rsss

    Hhahhahahahadjhfakjghkajhfla… amei. Çaiber Mobral!

  2. Oi Ro!!!

    Amei o post, vou colocar o link lá no blog tá? Prometo que assim que bater a inspiração faço uma tréplica. Se bem que nem sei se vale, por que as duas opiniões estão muito bem embasadas né? Mas tô amando o bate-bola.

    Beijocas mil

    Ah, boto fé da gente manter trocando idéias via blog. Você escreve bem, é polêmica e ranzinzinha como eu. Gostho!

  3. Gostei dos seus comentários e concordo c/ eles. Inclusive, lembrei-me de um artigo de Hossam Ramzy em que cita a Fifi Abdo como exemplo de bailarina que apresenta poucos passos em suas coreografias, mas que sabe prender seu público.

  4. Ró, gostei de seus comentários.
    Me conta que vídeo é esse? Tanta coisa boa da Dina, pq esse vídeo feio?

    Ai, Lory, eu amo muito esse vídeo. É uma dança naturalzona, bem popular, shaabi. Gosto demais. E ela tá novinha, um barato!

  5. Nada como ter duas pessoas inteligentes opinando de forma educada um assunto de pontos extremos.
    Dá um outro gosto pra coisa 😉
    Já tinha opinado lá no blog da Luana e repito aqui. Não gosto da Dina, não por gostar de Saida ou o que seja, mas simplesmente pq não baixa a coisa em mim quando a vejo dançando. Gostos são variáveis, assim caminha o mundo.
    Parabéns gurias…
    Ah atualizei, dá uma passada 😉
    Bjão1

  6. Olá, Roberta, sempre entro aqui para relaxar um pouco, mas em geral não tempo de comentar. Porém dessa vez vou perguntar para a Luana: Você já assistiu a um show da Dina ao vivo e em cores? Se não viu, não perca essa oportunidade quando a tiver. Vc vai ver de pertinho que a tal postura, a do balé mesmo, está lá. E outra coisa: vai ver que justamente as “coisas” que ela faz com o corpo talvez uma mulher muito mais jovem não faria de jeito nenhum. Ainda: A cultura, como a Roberta disse, pede uma postura de corpo e relaxamento, um “baladi”, que é difícil pra gente entender e reproduzir (talvez quem tenha ascendentes e/ou pratique danças de origem afro). Pode ver que as “famosas do Egito” não são nem tão jovens nem tão esguias, fora a Dina, que até o momento tem um corpo impecável até para os nossos moldes idealizados. Outra coisa: para o público egípcio, da terra, pouco se lhe dão se a bailarina tem postura de balé clássico ou parece um sílfide flutuante, o que importa aos de lá é a interpretação que a bailarina dá à música e o jeito baladi de dançar essa arte. Por isso a Dina é popstar de lá e até a polícia moral (o pessoal que dá insertas nos clubes de dança para verificar se o figurino está decente) diz que “Usar roupas minúsculas? A Dina poooode!”

  7. Putz. Mas o gosto ninguém pode defender né? Ô desastre de figurino… Rs

    É ruim mesmo. Nuuu… Ela tem umas escolhas absurdas…

  8. Fui ao blog da menina ler o post sobre a Dina e tomei um susto! Como pode a pessoa que é profissional e educadora afirmar que a Dina não é bailarina nem artista? Que não tem técnica? Oras, só posso entender, como postou a Jade por lá, que essas afirmações são fruto da ignorância mais do que outra coisa. Creio que não somente quanto ao modo de entender a dança em si, mas também quanto ao modo de ver a cultura do outro através dos próprios olhos. Quer dizer, o outro não é meu espelho, não me vejo refletido nele, portanto, não presta para mim. É uma tendência do ser humano: não gostar do que não consegue entender. O gosto é indiscutível, mas julgar a proficiência dessa forma não dá. Cabe aos artistas em geral ter uma visão mais aberta do mundo. Há que se aprender muito… Não dá para ver essa dança tendo como referência o Nijinski e outros clássicos (maravilhosos). Seria como um músico clássico analisando outro músico de cultura oriental, portanto não eurocêntrica de qua sua música não não é música, é viciada, e dizer “Fulano não é um artista”, simplesmente porque não consegue entender o que ele faz.

    Para mim a referência truncada é sempre um problema: não me parece válido avaliar uma cultura com base em outra. Princípio simples de relativismo e tals…

  9. Olá
    Gostei da sua réplica se me permite compartilho de algumas idéias que tem por isso vou me estender no comentário.
    Sempre visito seu blog, sou estudante de artes plásticas, e existe algo no meio da dança que me remete a um texto de Malena Contrera talvez já tenha ouvido falar ” Mídia e Pânico ; hiperestímulo na pós-modernidade, beeem resumido ela cita nosso visual como o principal sentido hiperestimulador pelos meios para fins mercadológicos, e anestesiamos os outros seu principal foco no texto é que a “vivência” que é sacrificada, muitas pensam que o ver substitui o vivenciar e principalmente neste meio exite tal facilidade em apontar o dedo a figuras que encontraram sua própria linguagem (importante salientar que pode não ser a perfeita) mas minha impressão é que a maior parte do público consumidor e difusor desta arte se restringe a isto assim como o texto que cito sacrificamos toda a vivência de outros sentidos pelo visual e principalmente pelo que se vende pelo olho do “outro” que muitas vezes é carregado de maldade pois uma pessoa que tem ou teve o mínimo contato com a dança na minha opnião pessoal nunca poderia se valer de parâmetros como a idade ou qualquer outro parâmetro que não fosse sua própria competência em demonstrar a “sua linguagem própria” quem faz isso provavelmente se baseia neste olho do outro; neste olho do descartável típico de mercado, como estudante também da dança dou ênfase nos outros sentidos que se desenvolvem quando se entra em contato com a dança, não sou defensora ardorosa de uma ou outra personalidade mas os erros e acidentes de percurso as vezes é o que torna uma figura ímpar em seu meio, e a bailarina citada certamente desenvolve seus outros sentidos a falha de percepção de quem a vê é uma falha do receptor não de quem executa a dança.

    Oi, Viviane,
    não conheço a autora citada, mas os argumentos não me são estranhos, por serem compartilhados por outros teóricos da linguagem. Inclusive por não-acadêmicos. Lembrou-me o professor Hermógenes e seu desconforto com a “normose”, conhece?
    Beijão!

  10. OI, Roberta,
    Conheço sim o professor Hermogenes e a “normose” mas minhas referências se baseiam na semiótica pois discordo profundamente de alguns posicionamentos em alguns livros do Sr Hermogenes
    beijos

  11. Gostei da réplica. O texto está com bons argumentos e concordo sim com eles. Li o outro blog, primeiro inclusive, e achei machista, comparações infelizes entre balé e dança do ventre e…meio que… uma bailarina cheia de “técnica” falando de outra cheia de “feminino, sensualidade, vida, corpo”. Reproduzindo minha resposta no outro blog:

    “Passagem rápida. Li o texto e, rapidamente, algumas opiniões. Concordo em parte com o ponto do vista de quem não gosta da Dina, ou seja, ás vezes ela “enrola”? sim. Às vezes parece uma bêbada? sim. Usa roupas non sense? sim. Etc etc… Mas é isso que ela tem de melhor. A originalidade. E outra coisa… por que “ela pode?” Porque em um país/cultura extremamente machista (e parece que por aqui a coisa não anda diferente) ela é considerada uma deusa. No Egito, ela é praticamente a única que pode dançar com aqueles trajes, em uma orquestra com 25 músicos.

    Ela transpira sensualidade, e sua dança (ok, por mais tosca que possa parecer às vezes) nos mostra que não é apenas técnica que conta. Não é apenas ser uma bailarina que estudou isso ou aquilo que conta. Mas o “algo mais” que, seja na simplicidade ou na ostentação, não são todas que têm.

    Quanto à “verdadeira” dança do ventre… sagrada… quero ver quem dança mesmo! O resto é show…e show, a Dina dá.”

  12. A ‘opinião’ que a Luana expos no blog dela foi muito infeliz, porquanto não gostar de algo ou alguém não te dá o direito de tentar a todo efeito denigrir e diminuir a imagem ou o trabalho dessa pessoa.
    Chamar os brasileiros que reconhecem e apreciam a importancia e a beleza do trabalho da Dina de ‘paga-paus’, já deixa claro o lamentavel carater da moça…
    Tão instruída e taí, mostrando a que veio para tentar (em vão) diminuir a importancia de quem já deixou seu legado, irremissivel e inexorável, goste ela ou não.
    Para Luana, que parece sentir-se uma sumidade da dv, desejo que tenha um dia, nem vou dizer aos 46 anos, porque esta muito próximo, mas um dia, tenha metade do reconhecimento, carisma, e sucesso que a Dina já possui ha mais de 20 anos, se bem que duvido muito.

  13. E ainda sugiro que Luna leia o código de ética da dança do ventre , que leia e pratique, porque a falta de ética dela em seu post, beirou a falta de carater….
    Deixou claro que pertence ao tipico grupo dos pobres de espirito que parecem se sentir maior ao (tentar) diminuir os outros….

  14. São tópicos do código de ética que sugiro leitura em voz alta para Luana:
    – Ter consciência de que cada profissional possui um estilo próprio que a diferencia e, assim, saber apreciar a admirar, com a devida humildade, todas as variadas formas de se expressar a mesma arte.
    São consideradas atitudes antiéticas:
    – Atravessar ou interferir em contato de trabalho de outra profissional estando ciente deste fato. – Distribuir material de propaganda pessoal durante serviços contratados por meio de outra bailarina.
    – Criticar o desempenho ou denegrir a imagem de outra profissional junto ao público, contratantes ou demais colegas da área.

    http://ventrevidadancadoventre.blogspot.com/2008/05/cdigo-de-tica-da-dana-do-ventre.html

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