Conservadorismo off

Daí que dia desses, num dos passeios pela internet me deparo com um vídeo da Soraia, fazendo aquele solo de derbake famoso, com sambinha e tal. Tremido absurdamente equilibrado, marcações ousadas blablabla. Até aí, morreu neves. É a Soraia, que dança demais, tamosabendo.

Os comentários que se seguiam ao vídeo é que me deixaram boquiaberta. Variavam do saudosismo à crítica pura e simples ao seu estilo de dança (coisas do gênero “ela era tão linda, será que um dia voltará a dançar a boa e velha raqs sharqi?”). Além disso, foram razoavelmente específicas em suas críticas: diziam que ela é frenética e imita a Dina [ouça aqui um bocejo]. Mais uma informação que – você decide – pode ser relevante aqui: o vídeo, sob um título tendencioso, foi postado por uma praticante de tribal, que tem um grupo de dança tribal em uma página de conteúdo quase exclusivamente tribal.

Vamos entender uma coisa aqui:

Quando se funde dança do ventre com ballet está ok. Quando se funde dança do ventre com yoga está ok. Quando se funde dança do ventre com kathak está ok. Até com hula está ok. Com samba, no entanto, é frenético e muito distante da raqs sharqi. É isso? Bom, só consigo entender assim. E, no momento em que coloco isso no papel, percebo que não se trata apenas de conservadorismo. O buraco é mais embaixo: é preconceito. Um dos comentários, transcrevo aqui: “por que ela não vira passista de uma vez?”.

Ou seja, se a Saida tempera sua dança com jazz ela deveria virar chacrete? E a Lulu, com sua fixação por meia-ponta altíssima, deveria tentar o ballet? Ninguém questiona isso. Ora, coloquei um vídeo do Mahmoud Reda no Puxadinho. Legal, né? Os comentários são todos elogiosos. Mas vejo um deslocamento tão ocidental que me pergunto, meio acanhada: “cadê a raqs sharqi?”

Respondo a mim mesma: tá lá. Não sou eu quem determina o que é a dança do ventre. Que é uma fusão só, desde sua criação. O exagero da fusão aborrece, como todo excesso. Mas não consigo visualizar uma dança do ventre “pura”. Onde é que se encontra isso? No passado? Se a própria Tahia Karioka, uma das primeiras da dança de “palco”, já fundia sua dança com o pseudo-samba de Carmem Miranda…

Estou procurando entender a natureza desse tipo de crítica. É conservadora (a favor de uma dança do ventre supostamente prístina) ou preconceituosa (não se permite misturar a dança do ventre com outra dança marginal, como o samba e outras formas afro de mexer as cadeiras)? Conservadorismo seletivo é ruim. Mas criticar a inserção do signo afro-brasileiro na dança é algo ainda pior.

17 comentários sobre “Conservadorismo off

  1. Concordo com tudo, como sempre. Afinal, samba é coisa feia e vulgar de gente subdesenvolvida, não é, não? Não é digna de ser misturada à “verdadeira raqs sharki”. Dignos de ser misturados são aqueles maneirismos fatais, passos de dança indiana mal-feitos (quando a gente vê dança indiana DE VERDADE, percebe) e outras fusões haribô tão apreciadas pelo povo do tribal. Isso, sim.
    E pior do que preconceito: críticas ferinas e gratuitas a uma dançarina do porte da Soraia denotam é inveja mesmo.
    Desculpe aí a acidez. Beijocas.

    Adouro suco de limão, meu bem. Daí me lembro de uma historinha do Pato Donald com o Gastão que hora dessas conto aqui. Sobre o doce o e azedo. Que, ó, nem era pra discutir doçuras e azedumes. Mas me serve bem.

  2. Tá difícil é de saber quem não imita quem nesse meio né não?
    Pq quando a pessoa resolve inovar, se não for considerada uma sumidade(?) tem qu aguentar uma chuva de críticas, até mesmo infundadas, mas depois que vira modinha…Nossa aí lindo de morrer!
    Estou vendo professoras famosas dando cursos ultimamente ensinando coisas que até pouco tempo consideram feio e condenavam…Agora é moda e a coisa muda de figura?
    Gente dança e estudo não é MODA!
    Daqui a pouco tá todo mundo no sambão por aqui.

    Galera já tá banalizando o sambinha. É só olhar no youtube. Mas acho bão também.

  3. Chuchu, vc acredita que esse foi o meu papo com um amigo meu no café da manhã? Ele tava me perguntando onde a dança do ventre se originou. E eu falei que não sabia, porque existe dança do ventre na Turquia, na Grécia, no Líbano, Emirados Árabes, Egito, etc. E tá tudo misturado! A roupa de dança do ventre considerada ‘a verdadeira’ foi criada por Hollywood, véu na dança foi incorporado a pouco tempo, véu de seda e véu wings também são invenções recentes, deslocamento e giros espetaculares foram incorporados do ballet, mãozinha de bonequinha ao lado do corpo, etc, etc, tudo coisas que foram adicionadas à dança no decorrer dos anos…Pois é, não existe ‘A’ dança do ventre tradicional, não mesmo. Talvez exista a ‘verdadeira’ dança dentro de uma família árabe, que as mulheres dançam entre si e para seus maridos, não sei. Só sei o que temos hoje em dia é uma grande mistura mesmo, não tem como negar. E amo muito tudo isso.

    Beijo fia!

    Pois é, onde está a “verdadeira” dança do ventre? Não tem, acho. Isso me dá um nó no cérebro, coitado. Pergunto-me se a dança das famílias árabes não seria talvez uma outra dança. Porque dança do ventre, para mim, acaba sendo essa de palco, de estrelato feminino, para entretenimento alheio. É só especulação, por enquanto, mas vou lapidando e uma hora a gente consegue concluir alguma coisa.

  4. Tá aí algo que eu sempre penso. Não sou a maior fã de fusões malucas e nem de milhares de inovações, mas é inevitável que aconteça. Nada nunca permanece igual. Dança é algo totalmente mutável. Sempre virão novas bailarinas, e com elas coisas diferentes. O tempo não pára. A dança Do ventre ou sejá lá qual, idem.
    As vezes fica bonito [sou uma admiradora devota de Saida e seu jazz] e chama atenção. As vezes fica estranho [não curto o lance DV gótica. Há.] E quem sou eu para dizer se é certo ou errado?
    Só me resta querer aprender ou não.
    Como disse a colega, hoje não existe dança do ventre pura. A tradicional deixou de ser tradicional há muito tempo. E eu particularmente, gosto do caminho que tomou.

    Também me amarro na Saida. Poderosa.

  5. Ró, deixa te revelar uma coisa – eu podia já ter feito esse comentário há anos atrás. Já fui extremamente careta. Foi logo no início, quando não entendia essas fusões e não entendia que isso tb era dança do ventre. Eu só fui melhorar com essas coisas de um ou dois anos pra cá – a conseguir ver fusões e achar legal. Acho que isso faz parte de um processo de amadurecimento não do que é a dança do ventre, mas de que forma ela pode nos tocar. Ainda tenho muito o que crescer nesse sentido. Qto a Soraia: Eu amo! Acho ela perfeita. Mas brasileiro adora jogar pedra na Geni…

    Ah, eu também não fui sempre muito aberta. Mas também sempre fui muito desconfiada desse tipo de crítica. Ainda mais quando a gente começa a juntar os pontinhos, ver que o balé tá lá, que o jazz tá lá e que só reclamam quando alguma dança “exótica” entra na roda.

  6. Fiquei sabendo desses comentários sobre a Soraia. Acho isso UÓ!
    Seus argumentos foram no “x da questão”, meu bem. Muito bom!
    Beijos.

    Valeu, queridona!

  7. Ah, não sei se falaremos da mesma coisa, mas lembro de uma discussão parecida que me fez inclusive sair de um grupo de discussões na NET. exatamente pelos motivos que vc mencionou. Não assisti à dança, mas a crítica era feita à Soraia pois ela estava usando e ensinando um “shimmie brasileiro” lá no Egito, e o povo aqui metendo o pau. Parece que era um passo tirado do axé na época. Sei lá se o trem ficou bonito, mas confio na competência da Soraia. Muito mais do que na minha ou de qualquer outra pessoa que tava criticando a dançante em questão. E mais que isso, as EGÍPCIAS parece que estavam aprovando. Quem, me diga, quem somos nós pra tacar pedra? A gente pode não gostar e não copiar. Mas o argumento tacanho era esse, misturar a DV com axé??? NÃO PODE! E é uma pena que tanta coisa bonita podia estar sendo feita por aqui.. na verdade acho que até é feito, mas não sai nas vitrines. Assisti outro dia numa festa na qual também dancei, um grupo de dança Afro e brasileira. E lá pelas tantas o mentor do grupo anunciou o próximo número, que seria de dança do ventre, pois alguns dos Africanos que pra cá vieram eram do marrocos e então, tudo a ver. Enfim, dança que venha, a música usada era “Salão de Beleza” do Zeca Baleiro, mas tocada alí ao vivo, com derbak.. e ficou lindo, tudo. As roupas não eram espetaculosas, a música simples e com nosso sotaque, a dança era mais solta e leve que essa que a gente está acostumada e olha, confesso que me mordi de inveja boa do trabalho deles. Mas vê se isso dá ibope no nosso meinho…
    Parabéns pelo texto. Como sempre.😉

    Deve ter sido legal, essa com Zeca Baleiro. Tem vídeo? Acho que vi isso em algum lugar.

  8. Aliás, me parece cada vez mais óbvia a associação entre DV e samba. Apesar de eu ser totalmente doente do pé. Alguém aí de paciência infinda se arrisca em me dar aulas? Falo sério, to super querendo faz um tempo já.

    Hahahahhdsjhf… Também tenho uma dificuldade enorme com samba. Culpa dos pais, no meu caso, que não festavam muito. As pessoas que sabem sambar aprenderam sambando. Queria aula também, mas com professora. Tenho uma colega que samba muuuuito, mas não sabe ensinar pra toscona aqui. Parece tudo muito simples, mas chegando lá acabo fazendo um arremedo de samba – geralmente com aquele básico egípcio deslocando pra trás, saqualé?

  9. Olá,

    Bom, sou totalmente a favor da fusão de outros ritmos com a dança do ventre. Desde quando Soraya começou a fazer isso achei legal, gostei de como ela colocava isso na dança dela. Mas assisti esse vídeo outro dia e pra falar a verdade eu não gostei não. Não foi da fusão que eu não gostei foi só do jeito que ela apresentou. Não gostei da roupa também. Amo a Soraya, mas especificamnete aquele vídeo eu não gostei de uma maneira geral.
    Bjsss

    Soraia não tem muito bom gosto pra roupa messs…

  10. Oi de novo!
    Olha, não vi ninguém filmando não, e o grupo é de Embu das Artes (pertinho de Sumpaulo), mas vai saber? Nào acompanho a agenda deles…
    Mas comentei no meu blog. Se vc tiver a imaginação fértil como a minha, pode ter lido e “visto” o que eu tava descrevendo. Vive rolando comigo. Imagina se eu bebesse? kkk

  11. Lendo o comentário da Angela, lembro que vi no Orkut numa comunidade chamada MUSICA ARABE se não me engano uns árabes metendo o pau na dança do ventre e fiquei realemnte horrorizada com a suposta origem que eles deram pra nossa tão querida arte.
    Pegando o gancho do samba aí.Compararam as raqsas com as “mulatas” que “sambavam” pros gringos do Sargentelli.O que vcs acham disso?
    Sinceramente , do modo que eles se posicionaram achei uma tremenda falta de respeito.Me senti ofendida.
    Achei o link: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=254506&tid=2536168857476735180&na=2&nst=9

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