Inútil!

Novembro 6, 2009 por Roberta Salgueiro

Daí que minha amiga Lu tava contando dos mil gadgets que ela tem em casa. Ela tem uma máquina de fazer coxinhas, por exemplo. Faz cem coxinhas de uma vez só. E contei a ela de um dos melhores artigos de jornal que li nos últimos tempos. O caderno Vitrine, da Folha de, sei lá, três sábados atrás, fez uma relação das compras mais ineficientes que as pessoas podem fazer. Entre os produtos listados constavam iogurteira, cortador de pelo de nariz, conjuntos de facas e aquela mega poderosa máquina de suco que é um inferno de limpar (a Lu confirmou). Sugeri a ela que escrevesse sobre sua cozinha tecno-psicodélica e me empolguei também: por que não relacionar os acessórios bellydance mais trambolhudos e/ou inúteis que já adquiri nos últimos 13 anos de dança? Quer sabersh? Yallah:

1. Snujs de um furo só.

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Snujs, quando não se pratica, já são uma tralhinha. Mesmo um turquoise. Um par de objetos que fica guardado, coitado, sem uso. O negócio vira tralha meeesmo é quando se compra aquele par de snujs com som de lata. Siiiim, aquele que só tem um furinho, coitado. Que só serve pra te constranger nos workshops de snujs.

2. Touquinha

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Quem, em sã consciência, usa as touquinhas? Claro, elas podem até ter seu charme em algumas performances folclóricas. Mas nunca consegui usar. Tipos, tenho uma. Ocupando espaço em gaveta, claro.

3. Abaya exagerada

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Tive uma abaya dourada enoooorme, com capuz e mangas, brilhosa, exuberante. E queeeente. Imagine-se saindo do palco (ou retornando aos exíguos “camarins” – tô tão generosa hoje – dos restaurantes) e vestindo um troço de tecido brilhoso e pesado… aaaaaaaaahhhhhhhhh….. Mo-hy. Eu e algumas alunas nos deparamos com uma abaya de morrer de inveja no último espetáculo. É de uma colega professora. Glamourosa, de veludo e gola de pele. Agora pense em vestir isso depois de dançar por uma hora inteira em restaurante. Ou depois de descer de um palco onde o foco de luz era todinho seu. Gostoso, né? Não.

4. Cd’s da Khan el Khalili e do Tony Mouzayek

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Antigamente internet não era fonte de música. Só hacker ou gente muito rica baixava música. Conexão discada, sacomé. Daí Tony Mouzayek e os cd’s da KK eram uma constante nas fitinhas da galera. O Tony fazia versões das músicas pop mais legais e tem inclusive gravações maneiríssimas das clássicas (como a onipresente “Exotismo”, que tá naquele cd em cuja capa a Soraia veste a roupa mais unbelievable de todas). Com o maior acesso das pessoas aos originais, ficou difícil usar os cds do Tony. Ou seja, Tony datou, mas era a melhor fonte de muita gente. Só que os cd’s da KK, ao mesmo tempo em que eram bons para aulas (ritmos constantes e tal e coisa), sempre foram insuportáveis de ouvir de dançar. E a gente comprava altos nas bancas. E agora ficam encostados. Porque é difícil jogar fora algumas coisas. Porque a gente se apega, né? E eu sou tipo aquela véia cheia de gatos e tralha pra todo lado. Ê, leiê.

5. 15.000 lenços de quadril

lenço

Não sei por que a gente compra tanto lenço de quadril. Um só basta. Tenho um monte. Compulsiva mesmo. Dei alguns para algumas amigas. O pior é que me arrependi. Só que lenço de quadril, pra mim, que sou uma desorganizada, só serve pra ficar jogado pela casa. Porque a faxineira não sabe onde colocar. E eu deixo tudo largado. Daí na hora de arrumar a sacolinha pra ir dar aula, nunca encontro o que eu quero e me atraso pra aula. Sim, a culpa dos atrasos é todinha do excesso de lenços de quadril. Alguns, coitados, não são usados nunca. Os de moedinha são os piores; as moedinhas cortam a linha, daí, ao usar, espalha aquelas contas todas pelo chão. E pisar nelas dói. Por que não ter apenas, sei lá, oito?

6. Kohl

kohl

Alguém já conseguiu usar isso sem ficar parecendo a Cleópatra de ressaca?

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Bonus:

Candelabro

candelabro

Não. Nunca tive um. Jamais dancei com um. É tradicional, pois é. Só que pra ter um objeto desses em casa, você precisa ter um armário embutido muito espaçoso. Porque o candelabro é a mãe de todos os trambolhos. Espada a gente enfia no fundo do armário (ou, se a bailarina é uma exibicionista, pendura na parede); pandeiro fica lindo dentro da cristaleira, bastão a gente deixa em qualquer canto. Mas candelabro, baby… candelabro é de amargar.

Répi raloín procês tudo!

Novembro 1, 2009 por Roberta Salgueiro

A carta mais feliz de minha vida

Outubro 30, 2009 por Roberta Salgueiro

Eu sei. O blog, essa ferramenta ameaçada, deve ser dinâmica e atualizada com regularidade. Mas sou rebeldezinha, e quanto mais me falam para acompanhar a “tendênça” (no caso, tendência inversa: ninguém liga pra blog; tens que ligar), mais recuo. Além do mais, fiquei viciada em quase todos os joguinhso do facebook. É sério. Daí, fiquei algum tempo sem internet e, quando a deusa-net voltou, fui capinar roça perdida e recuperar pratinhas virtuais. Deu preguiça de blog. Ao quadrado.

Só que tem coisa demais pra falar. Tipo o espetáculo desse ano.

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Vamos por partes. Minha escola passou pela delicada situação de saída de uma professora muito querida por suas alunas, o que gerou um desequilíbrio em toda a coisa. Mas as energias acabam se equilibrando em algum momento e, por fim, temos agora a equipe dos meus sonhos: professoras adultas, experientes e abertas a experimentações com a dança. Uma coisa leva a outra. Levou-me a conhecer a Laura, que agora dirige esse espetáculo comigo. Laura estuda teatro e dança há anos, além de conhecer iluminação e cenografia. Ou seja, esse espetáculo certamente será mais sensorial do que os anteriores.

Isso requer tempo, energia e corpo. Porque construir um espetáculo cansa intelectual e fisicamente. Ainda mais quando se trata de uma criatura ambiciosa como eu, que quer mostrar que a dança é coisa pra gente que curte dança e não apenas para os entes queridos do elenco. Compriiiiida conversa. A continuarsh.

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Daí que fizemos um chá na escola. Foi tãaaaao gostoso! Mahmoud tocou. Padma dançou. Eu dancei. Várias alunas dançaram. Foi muito legal. O chá é uma estrutura muito estimulante porque podemos dançar o que der na telha. E bateu na minha telha uma música classiquíssima cantada pelo Abdel Wahhab chamada “Ana we azeb we Hawek”. Naftalina total, mas tão doce e boa de dançar…

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Daí que recebi uma carta linda da minha aluna que resumiu absolutamente tudo sobre a minha dança naquele chá. E gostaria de compartilhá-la com vocês (ela autorizou). Vejam se não é o maior elogio que uma professora poderia receber em sua vida:

Roberta,

Na última segunda-feira, enquanto lavava a louça, distraída, mergulhada em meus pensamentos, meu irmão me perguntou: “Porque você está sorrindo?”. Até então não havia percebido que sorria. Mas logo que me dei conta de que era possível sim, que estivesse a sorrir com minhas lembranças, respondi: “Estou me lembrando de ontem”. E logo ele me lançou um olhar cúmplice e um sorriso malicioso, como quem imagina que eu estivesse a remoer lembranças de momentos íntimos com alguém. Então lhe expliquei: “Estou me lembrando da apresentação da minha professora”. E ele pode compreender o que eu só entendi segundos depois.

Enquanto ensaboava os pratos, me veio em mente o momento exato em que você estava dançando e o sentimento que guiava meus olhos, que tentavam, ao mesmo tempo, acompanhar cada um dos seus movimentos, bem como os olhares dos outros espectadores. Orgulhosos da professora que se apresentava, minha vontade era poder falar para todo mundo: “Vejam, é minha professora. Olha como ela é bonita, graciosa e talentosa. Estou aprendendo tudo com ela para, quem sabe um dia,  eu  também possa dançar assim”. Obviamente tais palavras não foram pronunciadas; única e exclusivamente porque o bom senso impera nessas horas; ainda que por um “tris”. Entretanto a satisfação fica estampada na testa e nos olhos de cada aluna presente, para quem quiser ou puder perceber.

Não é para menos. Ali, diante dos nossos olhos, está dançando aquela que nos instiga, semanalmente, a aprender a dançar a tão admirada e difícil arte da dança do ventre. Para algumas, um desejo recente, para outras um sonho de infância e, para todas, uma realização pessoal. Porém, independente da história, cada aluna vê em sua professora mais do que aquela que a ensina a dançar, mas alguém que a inspira constantemente e fazer da dança o ar que respira. A interiorizar cada acorde para que os movimentos não sejam comandados apenas pela mente, mas, sobretudo, pelo coração. Porque dança é emoção.

Ao ver-te dançar, com tanta graça, leveza, charme e simpatia, é impossível não se orgulhar e, por frações de segundo indagar: “Será que algum dia eu dançarei assim?” E mesmo com nossa resposta interior tão duvidosa, naquele instante, a admiração nos traz a certeza de que, de alguma forma, talvez pelo milagre de uma osmose, a gente possa incorporar alguns movimentos, pelo simples fato de ser tua aluna.

Então, em casa, após considerar que a própria apresentação poderia ter sido infinitamente melhor, ao invés de uma cara feia e aborrecida, o irmão desavisado encontra no rosto da irmã aprendiz um semblante risonho, feliz… E, ao contrário do que ele imagina, não se trata de lembranças de uma noite de amor ou algo parecido, mas que tal expressão fora despertada pela memória de um outro tipo de emoção, vivida no dia anterior: a professora leve, a bailar uma doce canção. Uma linda combinação de movimentos, casados perfeitamente com uma melodia suave, displicente, como quem fala com os gestos: “Não estou a dançar para mostrar tudo o que sei, mas a permitir que meu corpo e minha alma dancem, felizes, essa música para vocês”.

Eliz

Lindo. E ela dançou no chá. Sabe o mais cruel? Não vi. Vi os ensaios, a vejo semanalmente. Mas eu não estava lá na hora em que eu realmente precisava ver. Ossos do ofício. Ou se curte ou se dirige. Cruel é a produção de arte e cultura. Mas, olha. Sei que ela quebrou tudo pelo que outras duas profes me contaram. Mais ainda: sei que tudo correu muito bem pelo sorriso das pessoas ao cruzarem as portas da escola e recolherem suas sombrinhas.

Lissah Fakir

Outubro 18, 2009 por Roberta Salgueiro

Copiandinho a Lory, vejam duas mega lindas bailarinas (respectivamente a primeira e a segunda do meu panteão) interpretando esse clássico dos clássicos:

1) Suheir Zaki

2) Lucy

Não dá pra comparar nada, né? São ambas suaves e precisas na leitura musical. Qual te inspira mais? As duas? Conta o que você sente, vai!

Os vídeos mais influentes

Outubro 14, 2009 por Roberta Salgueiro

Que a ampliação do acesso à internet e o desenvolvimento deste meio mudou os rumos da dança do ventre brasileira é fato. Basta ter começado a dançar antes do ano 2000 para ter noção da radical alteração (pra melhor) do conhecimento sobre a dança e suas variações. Daí que alguns vídeos acabam virando xodós, coisas que fazem a gente querer estudar mais, melhorar, ou simplesmente manter-se apaixonada pela dança do ventre. Enumero os cinco vídeos mais influentes de minha vida pós-banda-larga:

1. Alexei Riaboshapka

Ok, as puristas reclama que isso é um dabke e não um saidi. Eu vejo a leitura musical perfeita e movimentos sutis e me derreto. Esse é a bailarina que quero ser quando crescer.

2. Saida dançando Tamiil

Pela primeira vez curti verdadeiramente as explosões. Pareceu-me que ela sabia quando se recolher e quando fazer barulho. Acabou sendo o único vídeo dela que de fato admirei até agora, mas me inspirou muito e tirou meu preconceito contra as fusões.

3. Polimnia Garro e o estilo libanês

Poli mostra, nesse vídeo, que libanesa também é sofisticada. Incorporei vários movimentos que me pareciam exagerados depois de vê-los tão bem aplicados. Moça fina inspira muito!

4. Naima Akef dançando Tamra Henna

Comecei a entender ritmo de verdade com esse vídeo.

5. Suheir Zaki – amor à primeira vista

Tudo bem, esse eu vi antes da internet, em fita comprada em São Paulo, do Omar Naboulsi. Mas apaixonei-me logo de cara e tudo me conduziu a olhar com muito cuidado para a arte dessa maravilhosa mulher.

Esse post tem tudo para continuar. O negócio é que ando viciada na fazendinha do Facebook. Alguém quer ser minha vizinha? Uso o Farm Town [imploration mode on].

Orgulho plus!

Setembro 19, 2009 por Roberta Salgueiro

Nenhuma pessoa equilibrada começa a fazer aulas de dança do ventre pensando em ser professora. Lembro-me das primeiras apresentações públicas e da insistência de Zamzam, minha professora, para que eu aceitasse o cachê. À época eu não percebia que ela estava, na verdade, me ensinando a ser ética, mas isso é outra história. Naquele tempo, me interessava apenas dançar e eu jamais imaginava que, alguns anos depois, eu iria me profissionalizar na prática da dança do ventre. Por incentivo da própria Zamzam, comecei a dar aulas. E fui gostando. E descobri que, enquanto houver forças, continuarei a ser uma professora de dança do ventre. Porque pode ser chato às vezes; pode ser maçante; pode ser exaustivo; pode ser uma pressão dos infernos às vésperas do espetáculo. Mas a compensação… nossa, é de arrepiar os brios de qualquer uma que leve a sério essa função. Ver uma aluna sua se destacar é uma injeção de auto-estima para a professora.

Pri, Carol e Lu

Pri, Carol e Lu

Hoje a aula extra da Contours – a academia onde malho (é, eu retornei. Assunto pra outro post) – foi dança do ventre. E a Pri, minha aluna linda do Ayuny e aluna da Contours, foi convidada para se apresentar e dar uma mini-aula. Perguntou pra mim o que eu achava e tal e coisa e eu disse o “vai fundo” mais feliz da minha vida. Ela é uma aluna de nível intermediário, já fez dança cigana, já passou por várias professoras e tem uma maturidade de dança muito bacana. Ajudei a pensar no conteúdo da mini-aula e fui lá hoje conferir. Ela dançou muito lindamente, apesar da timidez. Mas o mais bacana foi a aula: tranqüila, didática, doce, educada, suave, paciente e, o mais importante, segura. Ou seja, ela demonstrou vários requisitos para a prática docente da dança do ventre. Eu me derreti! No final, dançou mais uma, de improviso. Desta vez mais tranqüila, mostrou que estuda a sério e que será uma excelente bailarina.

Aí cumulei a menina de elogios até não poder mais. E ela: “ai, Roberta, que exagero!” Ela tava sabendo que não desperdiço elogios e que sou sincera até quase o ponto da grosseria, então ficou toda feliz. E só o que disse a ela no final foi: “gata, quando você tiver suas alunas, vai saber o que senti hoje”.

Orgulho é palavra pequena para quando vemos alguém que confia na gente aplicando o que ensinamos.

Ter amigas é bom demais!

Setembro 14, 2009 por Roberta Salgueiro
Presente!

Presente!

Coração pulando feliz ao receber o pacotinho fofo, com caligrafia elegante, vindo de longe só pra mim.  A Samy, linda que só ela, mandou de volta o livrinho do Naguib Mahfuz que eu havia emprestado para entreter sua viagem de volta à civilização e váaaaarios dvds, além de uma cartinha lilás doce como os olhos dela.

Sempre me sentira sozinha nesse mundinho bellydance. Tive poucas coleguinhas com quem mantinha alguma conversa enquanto estudava regularmente a dança. Nunca foram pra frente. Justamente as amizades virtuais foram as que mais renderam. Aliás, mesmo as amigas da minha cidade só funcionaram por causa da internet. Através da lista de discussão da Paula Cunha conheci pessoas que tornaram minha vida de dança mais interessante.

Depois, com o blog, conheci a Samy e outras pessoas queridas que me fazem ser menos ranzinza. Estou louca para me encontrar com a Vivi, por exemplo. Estou entre ir ou não para o FIEL – o espetáculo da minha escola vai ser dia 22, último dia do encontro da Luxor. E posso dizer hoje que meu principal incentivo para ir a São Paulo não é o Yousry, mas a possibilidade de fazer um super encontro com pessoas queridas. São gente assim que fazem a dança valer a pena, acima das fofoquinhas, das intriguinhas, das chaturinhas que tão bem conhecemos.

Samy, brigada. Você é foda!

Como fazer uma coreografia 2

Setembro 4, 2009 por Roberta Salgueiro

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Há algum tempo escrevi um pequeno guia de construção coreográfica. Com a proximidade do nosso novo espetáculo e o desenvolvimento de minhas alunas, tenho pensado melhor no assunto. Gosto muito de coreografar e o faço sem maiores dificuldades. Minhas dúvidas são quase sempre em relação ao espaço cênico de que disponho.

Daí que algumas alunas minhas cursam também o intermediário B (dou aulas no inter A e no iniciante) e precisam começar a desenvolver capacidades autorais na dança. Ou seja, precisam fazer suas próprias coreografias. No meu curso estimulo as meninas a construir suas seqüências, com menos cobranças do que no inter B (que deve, sim, se empenhar em fazer a aluna construir seu próprio estilo, já que estão se encaminhando para o avançado). E mostram interesse em aprender sobre o processo de construção coreográfica. Aí vão, então, minhas dicas, acrescentando mais elementos do que no artiguinho anterior:

1. Do macro ao micro: ouça a música e a desconstrua por momentos: se você está trabalhando uma música pop, observe as partes 1, 2 e refrão. Se é uma música clássica, mais complexa, identifique a introdução, a entrada, o desenvolvimento, a digressão (taksim ou folclore) e o retorno à melodia de entrada. De todo modo, por cima, de primeira ouvida, observe os momentos de calmaria e de energia. Pense em um rascunho de dança. Apenas depois desse exercício passe para as estrofes. Delas, às frases; daí, às minúcias.

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2. Identifique partes-chave da música: Há momentos impactantes e momentos morosos, às vezes tediosos. Identificando esses momentos, você poderá distribuir melhor seu repertório coreográfico.

3. Distribuição da atenção: A maior parte das músicas para dança do ventre se compõem em base (ritmo), melodia e arranjos (às vezes, harmonia, que é um conceito complicado e não entendo tão bem). Veja qual deles se sobressai em cada momento: ele é seu guia.

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4. Aonde vai o quê: O ritmo deve guiar seu pé. É a parte terrena, raiz, da música. A melodia, aérea, guia a parte superior do seu corpo. A harmonia ou arranjo está nos detalhes. Isso não é uma regra; é apenas uma leitura recorrente.

5. Foco: Ouça a música com fone de ouvido. Capte tudo. Não fique louca querendo transpor todas as notas musicais em seu corpo; siga o som mais vibrante, sem jamais ignorar as molduras deste som.

6. Discernimento: Cada espaço de show requer uma apresentação diferente. Palco, restaurante, festa e chá requerem abordagens completamente diferentes.

7. Anote: Desenvolva uma notação. Dê nomes aos movimentos e compartilhe esses nomes com suas alunas ou colegas. Não há rigidez na notação coreográfica da dança do vente, extremamente fluida. Não se queixe disso; aproveite essa liberdade e solte seu verbo. Escrever a dança é muito importante; é, afinal, a base da coreografia. Não se vicie em um modo única. Durante muito tempo, apenas anotava os passos e a minutagem. Atualmente gosto de desenhar, como podem ver na imagem acima.

Nada disso é regra. É meu processo criativo que compartilho com a geral. Espero que seja útil. Pra mim é.

Clicando nas imagens você as vê em tamanho maior. Esse é um rascunho para a coreo das minhas alunas de nível intermediário (o mesmo nível da coreo anterior, a do jarro). Como poderá ser visto posteriormente, muuuuuita coisa vai mudar. ^_^

* * *

A música tá editada. Estou trabalhando com esse arquivo aqui, que mutilei. Pobre música perfeita!

A dança ruim

Agosto 23, 2009 por Roberta Salgueiro

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Eu já saí do palco fazendo muxoxo. Voltei ao camarim arrasada. “Que merde de dança; que lixo”. Desabei na cadeira e fiquei lembrando dos piores momentos. Cinco minutos depois eu já estava de pé e animada, pois minhas alunas iriam dançar. Dançaram muito bem, a apresentação delas foi linda, elogiada e tal e coisa. Terminei a noite feliz, claro. Afinal, meu trabalho tava salvo. Mas ficou aquela sensação de fooon. Até chegar o dvd. Assisti, achei fraquíssima. Não tão horripilante quanto tinha-me parecido no dia do show. Tava simplesmente fraco. Tinha um braço morto ali; a apresentação tava pesada. Ou seja, não gostei mesmo. Assisti o vídeo mais algumas vezes e percebi coisas boas. Fui vendo mais umas vezes e captando o que tinha de bom. Por fim conclui que não foi um desastre absoluto; apenas não foi bom. Mas também não foi uma desgraça total.

Não sei se é uma estratégia da auto-estima, mas aparentemente precisamos assistir a uma apresentação nossa várias vezes para nos convencermos de que talvez não tenha sido tão desastrosa quanto críamos. Porque no dia do show temos a impressão geral (ficou muito ruim; ficou muito bom); na primeira vez em que assistimos captamos apenas os furos (aquele braço morto, aquele tropeço, aquele shimmy fora de lugar, aquele giro sem eixo…). Depois que nos acostumamos com o que não nos agrada, começamos a perceber as coisas boas (fluidez, graça, leitura musical apurada, mãos, expressão…).

Autocrítica (cara, essa coisa de reforma ortográfica matou minha fluidez de escrita) é essencial nesse meio. Sem ela, estamos sujeitas ao constrangimento. Ter noção do que está bom ou ruim é também uma garantia social. O famoso desconfiômetro. Percebemos quando algo está fora de lugar, por mais distorcida que seja nossa autoperspectiva. Não ouvimos bem nossa voz e não conhecemos nosso olhar*.  Com nossa dança podemos ter uma experiência mais ampla, mas ainda assim pouco nítida: sentimos o corpo, não apenas vemos o corpo. Só que mesmo o sentir é mediado por nossa experiência social. Por isso a sensação da saída do palco é tão ambígua e pouco confiável. Geralmente é amplificada. Se sentimos que foi péssimo, provavelmente só foi ruim. Se achamos que foi estonteante é provável que tenha sido um bom show.

Autocrítica é bom. Só que ela também não pode nos amarrar. Dancei mal? Tudo bem; da próxima, faço melhor.

*”Onde está seu corpo de verdade? Você é o único que só pode se ver em imagem, você nunca vê seus olhos, a não ser abobalhados pelo olhar que eles pousam sobre o espelho ou sobre a objetiva (interessar-me-ia somente ver meus olhos quando eles te olham): mesmo e sobretudo quanto a seu corpo, você está condenado ao imaginário.” Barthes, Rolland. Rolland Barthes por Rolland Barthes. São Paulo: Estação Liberdade, 2003:48.

Por aí

Agosto 12, 2009 por Roberta Salgueiro

Pausa no isolamento pra recomendar o texto da Chyntia Semiramis e o consequente comentário da Mary W. Para quem ainda não suspeita da relação entre vestuário e controle político.

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Consegui colocar alongamento consciente de volta na escola. Que beleza! Aproveito pra dar uma esticadinha também, já que a academia foi um vento que passou em minha vida.

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Essa não é a Haifa?

*

Tem videozinho meu do espetáculo do ano passado. Gostei desse solo. E mais um das minhas alunas lindas, talentosas e muito bem dirigidas ( ^_^ ).