De personalidades, doçuras, rudezas e melindres

Julho 7, 2009 by Roberta Salgueiro

Sempre me disseram que tenho “personalidade forte” e que eu não sou uma pessoa “fácil”. Não entendia bem a que aspecto da minha personalidade se referiam como forte ou difícil.  Era por falar muito, sobre qualquer tema que me interessasse? Era por ter opinião sobre sobre as coisas e pessoas? Era por não me adequar muito ao esquema mocinha-unha-feita-que-não-fala-palavrão? Acho que, vindo de quem vinha, personalidade forte e gênio “difícil” queria dizer que o melhor que eu deveria fazer à sociedade seria me retirar para um mosteiro ou similares cenobíticos.

De fato, não correspondo ao padrão machista de femininidade. Falo palavrão a torto e a direito. Por que não deveria? Não sou de mimimi. Não gosto de beijinhos e frufrus. Por que deveria gostar? Não quero ter filhos. Acho que a humanidade está de final. Não sou de fazer unha, detesto salão de beleza, não gosto de shopping e compro apenas o básico, quando necessário. Não leio auto-ajuda e me entedio com livros mal-escritos como Código Da Vinci e outros arrasam-quarteirão. Não tenho nenhum item cor-de-rosa ou de oncinha no meu armário (fora roupas de dança do ventre, onde o rosa impera). Meu celular é antigo e só vou trocar quando estragar. Gasto meu dinheiro com livro, comida boa, itens de papelaria e vinho. Quase não uso perfume e maquiagem, para mim, é blush e rímel. Só. Ou seja, sou uma mosca na sopa do marketing para mulheres, que vende a imagem da mulher fútil, consumista e narcisista.

No entanto, considero-me bastante feminina. Apenas não sou infantil. Não gosto que me chamem de “Robertinha”, nem que me façam mimos demais. Gosto que falem comigo como a mulher adulta que sou e falo com as mulheres no mesmo tom. Uma das estratégias sexistas é infantilizar a mulher e me choca ver que meu modo direto assusta algumas mulheres. Aparentemente algumas mulheres se ofendem com meu modo de me endereçar ao mundo. Não aprovam minha agência. Isso não apenas me entristece; isso me dá raiva (e ter raiva não é algo esperado em mulheres).

Enfureço-me porque cada vez que uma mulher se melindra com as posturas firmes está a um só tempo ratificando a pedagogia-padrão do feminino e rejeitando a agência feminina. Essa pedagogia que nos ensina, desde crianças, a falar pouco, baixo, com escolha cuidadosa de palavras (evitando palavras “difíceis” ou constrangedoras), em tom macio. A sentar-se sempre de pernas fechadas e a se movimentar o mínimo possível. A ficar em casa e evitar beber, pois fica feio a uma mulher sentar em um boteco ou ficar dando banda na rua. A cuidar de sua aparência o máximo possível, pois a mulher é um bibelô. A gostar de crianças para criar gosto pela maternidade. A consumir muito. A trocar beijinhos e mimos. A procurar um homem que dê “segurança” (ou seja, que tenha um emprego fixo, carro novo e aparência comportada). A amar a dupla jornada. A se ofender por qualquer coisa.

E não sei bem o porquê, mas a dança do ventre, parece-me, tende a valorizar esses supérfluos femininos. Muita gente busca a dança do ventre para “resgatar o feminino”. Mas a impressão que tenho é de que os itens femininos que as mulheres conseguem acabam sendo os mais superficiais. Poucas são as que vêm que o feminino está além de um corte de cabelo. Ser feminina e resgatar algum poder de gênero é também aprender a ser uma mulher adulta e desconfiar das armadilhas da imagem feminina midiática.

Leiam mais, mulheres. Ofendam-se com as coisas certas. Reconhecer seu inimigo é importante e, juro, não deixa a gente feia.

Orgulho

Junho 30, 2009 by Roberta Salgueiro

Ahlam

Junho 18, 2009 by Roberta Salgueiro

Uma trabalheira…

mas vale a pena.

Quem estiver por essas bandas, vale a pena ir prestigiar. Será lindo, lindo.

Ahlam

Meme bellydance

Junho 15, 2009 by Roberta Salgueiro

A Ket fez um post e tive a idéia de criar um meme para relacionarmos as músicas que têm mexido com a gente no momento e que fazem parte de nossas vidas.

Vai funcionar assim: cada uma responde, em seu próprio blog, o meme e indica mais três blogueiras-do-ventre para responder.Daí, para juntar o útil ao agradável, quando possível coloquem o link para que os leitores possam ouvir e/ou baixar as músicas indicadas.

É uma brincadeirinha divertida, bora lá? Ah! De preferência música árabe e congêneres.

Lá vão minhas confidências musicais (para ouvir a música, basta clicar na setinha de play)

Qual música…

você dançaria agora?Lylet Hob“.
…te deixa feliz?Hatgawez
…te arrepia?Yearning
…você dançaria com banda? “El Toba”
…você jamais dançaria? Nenhuma. Mas evito “Drama Queen” e similares pasteurizados.
…é perfeita para seduzir? Essa aqui. Não sei o nome dela. Se alguém souber, me conta!
…você dançaria para sua profe do coração? Tamra Henna, versão da coletânia Wash ya Wash, Raqia com Yousry.
…te traz boas lembranças?Exotismo” (esse é o nome no disco do Tony. Não sei outro)
…te faz chorar? Inta Omri” Aqui, versão original, cantada por Umm Kalthoum.
...você escuta sem nunca enjoar? Várias. Inta Omri, El Fen, Alf Leila we Leila, Zeina
…você dedica para quem te enviou esse meme? Pra Ket, que inspirou o meme, uma música bem dramática! “Akdeb Aleik“, conhecida pela performance da Randa.

Para colocar pra jogo suas confidências musicais, convido a Samara, a Lory e a Luana!

Estrelismo

Junho 3, 2009 by Roberta Salgueiro

Assunto batido, eu sei. Mas a gente às vezes esbarra nos clichés tão brutalmente que deixa um roxo doído. Estrelismo não é apenas uma postura individual tola: a afetação de umas magoa e prejudica outras pessoas. Pra que serve ser descortez em um camarim? Por que desdenhar um convite? Qual é a vantagem de ser conhecida pela empinação do nariz? Acredito que muitas das estrelas da dança do ventre assim o são por terem perdido a capacidade de dimensionar as coisas. Dança do ventre é apenas um nicho. As “famosas” da dança do ventre são usualmente desconhecidas do público apreciador de arte. Tudo bem, isso acontece com outras práticas performáticas também. Mas parece que no meio da dança do ventre a coisa é patogênica – e olha que ouvi de um músico uma observação desse gênero. Mulherada se empolga mesmo dentro de um lencinho de crochet. Não compreendo bem. Pra mim, só merece o lugar de diva aquelas pessoas que realmente fazem de seu trabalho um elemento imprescindível para a arte em geral. Não adianta ser só uma boa bailarina ali, em sua província. Pra ser diva e exigir um tratamento diferenciado, minha amiga, tem que ser Umm Kalthoum, Edith Piaf, Souhair Zaki, Ella Fitzgerald, Clarice Lispector. Aliás, pode sim ser diva entre seus amigos. Não dá é para esperar que as pessoas todas à sua volta compreendam sua megalomania, já que você simplesmente não é… tipos… famosa. Né?

Sabe o que eu acho de estrelismo na dança do ventre? Coisa de jeca. Ser caipira tem lá seu charminho. Ser jeca é bem mais complicado.

Achou?

Maio 28, 2009 by Roberta Salgueiro

Sempre achei impressionantes as estatísticas desse blog. Tem umas buscas óbvias, como “roberta salgueiro” e “blog roberta salgueiro” que caem certinho aqui. Outras googladas provavelmente frustram as pessoas que realmente querem saber sobre o assunto buscado. Copiando a Lola descaradamente, vamos ver como algumas pessoas vêm parar aqui:

haifa- haifa wehbe é puta? Não sei. Provavelmente é apenas uma cantora libanesa que usa roupas apertadas e faz vocais supostamente sensuais.  A verdade é que a resposta vai variar de acordo com o interlocutor. Alguns extremistas certamente dirão que Haifa é charmuta desde o nascimento. As bailarinas do ventre dirão apenas que algumas músicas dela são boas de dançar. E a maior parte das pessoas nunca ouviu falar dela.

- danca do ventre pelada: Não é recomendável para apresentações públicas. Agora, em baixo do chuveiro não tem como não treinar ao menos um tremidinho, né não?

pinuptajmahal- expressões faciais de olhar de negócio: Esse olhar “de negócio” também não é recomendado para apresentações públicas. Sério. Evite fazer quaisquer olhares “de negócio” enquanto estiver se apresentando. Geralmente resulta em vexame.

- como fazer flolcore com seis pessoas: Olha, é bem facinho, há vários desenhos coreográficos ótimos para grupos em números pares. Pode usar a formação clássica, com três na frente e três atrás; pode dispor a galera em semi-círculo, pode fazer duplinhas interagindo, pode fazer diagonais… Mais fácil do que escrever folclore.

- originalidade miçangas jablonex: Eu tenho muita originalidade no uso das miçangas Jablonex. Só faltam fifiabdoumesmo as miçangas, que são caras para chuchu.

- Porquê a dansa do ventre deixa a bariga gorda: Porque a bailarina do ventre se acha linda demais, poderosa demais, bailarina demais e acaba comendo demais. Todos sabem que as deusas não precisam de regime.

Recadinho

Maio 25, 2009 by Roberta Salgueiro

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j’ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime à chaque fois

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Jáime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois

Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu’est-ce que ça peut vous faire

Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimée
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer, aimer
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer

(Jacques  Prévert – Je suis comme je suis.)

Tipo isso.

Por aí

Maio 20, 2009 by Roberta Salgueiro

Letra de Taht il shibbak explicadinha, com glossário e tudo, no El Ojo de Horus. Há mais algumas outras traduções também. Em espanhol.

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Ótimo artigo sobre shaabi na Gilded Serpent. A autora ressalta a importância das letras e da forma vocal. Em inglês

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Lucy fala que a dança é a coisa mais legal que existe no Al Bawaba. Em inglês.

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Boa crítica aos livros que exploram superficial e comercialmente a questão feminina no Islã no blog “7 por 7″.

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Pequena entrevista com a bailarina Alicia Alonso para a Folha. É só para assinantes, por isso colo aqui a parte que nos interessa diretamente:

FOLHA – Qual é a importância de “Giselle” na sua carreira?
ALICIA ALONSO – Giselle é o papel ideal para uma bailarina, porque representa uma época especial do romantismo. No primeiro ato, ela é uma moça; no segundo, já morta, um espírito. É necessário que haja uma transformação da bailarina. Eu e Giselle somos grandes amigas, nunca nos separamos.
Quando ouço a música de “Giselle”, mesmo que esteja conversando, começo a dançar com os meus pensamentos, me esqueço de tudo e relembro passo a passo de cada personagem. Quando perdi a visão e tive que ficar em uma cama, sem poder me mover, dançava “Giselle” com as mãos e a mente. Quando saí da cama, voltei a dançar normalmente. “Giselle” é um dos episódios da minha vida. A minha vida é a dança.

É isso aí, meninas. Dançar com os recursos de que dispõe. Falo muito isso para minhas alunas e bla.

Beijos, torçam para que minha festa seja legal: é hoje!

Empreender

Maio 15, 2009 by Roberta Salgueiro

Propor algo novo é costumeiramente complicado. Ainda que o novo não seja assim tão novidadeiro. Hoje fiz algo realmente novo (e aí me recordo do extindo blog da Aryane, que sempre perguntava o que você havia feito de “novo” no dia do comentário): panfletei para uma festa. A festa que estou promovendo. Vou dar a maior volta para chegar ao meu ponto, mas chego lá.

As poucas pessoas que toleram meu papo sabem de minha implicância com a perspectiva jeca da dança como prática limitada a seu círculo.  Que vem a ser estreitíssimo. Entendo que dança é entretenimento e, como tal, deve ser acessível a todos que por ela se interessam. Acredito que a dança do ventre é uma linguagem e, como tal, pode ser acessada por qualquer pessoa (como praticante ou admiradora), independentemente de sexo, gênero, renda, percentual de gordura corporal. Como linguagem, a dança também não se limita ao universo musical de origem. Dança-se o repertório do balé com qualquer música (como vemos nas incursões de Ana Botafogo ao samba), por exemplo. Por que não coreografar Madonna a partir do cânone da dança do ventre? E por que não incorporar outra gramática?

O que escapa à compreensão dos conservadores é o simples fato de que uma interpretação de música ocidental com movimentos da dança do ventre não diminui a importância das interpretações clássicas. Numa reunião com colegas para definir a programação do festival de junho surgiu o comentário de uma coreo que fiz sob encomenda para uma música da Shakira: “nossa, nunca imaginei que você fizesse isso, Roberta!”. Sem condenação; o comentário pintou por pura surpresa mesmo. Porque como falo tanto de folclore, como ouço Umm Kalhtoum na veia, como decoro mal e porcamente as letras de Abdel Halim Hafez, passo por conservadora. Das que apontam dedo para fusões musicais e coreográficas. É o erro do julgamento precipitado.

“Hafla”, a festa que inventei de fazer em Brasília, vai rolar em um espaço costumeiramente dedicado ao rock’n'roll e freqüentado por uma gama de pessoas cuja maioria provavelmente nunca ouvira falar de derbake – UK Brasil Pub. Convidei as professoras poderosas, pedi seleção das avançadas e chamei a Bety, que aprendeu derbake com o Mahmoud.  Pesquisei o quanto pude sobre música eletrônica árabe. Vai rolar pop e fusões interessantes com música eletrônica e árabe em geral. Eu, pelo menos, super me animo a dançar o material que separei para rolar na festa. E estou certa de que, para dançar em pista de pub, basta gostar de sacodir e ter uma seleção com muito groove. Isso tá feito.

Claro que meus joelhinhos estão doloridíssimos. Do tanto que tremem. Envolver-se em um projeto assim é complexo em uma cidade pequena como Brasília, uma cidade em que os estúdios de dança mal se comunicam – mas que tem uma comunidade de dança grande e bem preparada, com profissionais competentes e estudantes bem encaminhadas. Levar a dança e a riqueza sonora árabe a uma audiência mais ampla que entes queridos de alunas e habituées de chás é um desafio, sim.  Porque nunca rolou em Brasília e não será um evento puramente bellydance. Mas quem disse a vida é fácil? Rapadura é doce, mas não é mole não.

Portanto, babies, bora suar as canelinhas, como diz a Lizandra:

haflafinal

P.S.: Ah, panfletar foi interessantíssimo! Altas pessoas me acharam parecida com a moça do panfleto, que vem a ser a gatérrima professora Padma. Claro, ela vai dançar na festa! Teve gente que nem nos olhou – fomos eu e Martinha -, rolou xaveco, rolaram comentários elogiosos sobre a festa… A Luciana fez uma maquiagem maneiríssima que, ainda nessa vida, aprenderei a fazer.

Empacou

Maio 12, 2009 by Roberta Salgueiro

É provavelmente uma das coisas mais angustiantes ever. Ter uma turma pra conduzir, prazo para apresentar e ver a coreografia empacar lá no finalzinho da música. Simplesmente não sai. Quer dizer, se for fazer coreo tabajara, costuma sair. Nossa. Não é de hoje. Que paro na frente do computador decidida: hoje termino essa bagaça. Nada, rien de rien.
E já enjoei da música.